SINOPSE: Bryan (Austin Abrams) é um entregador de suprimentos médicos que aceita um serviço em Raccoon City sem saber que a região foi tomada por um desastre biológico. Ao chegar ao local, ele acaba preso em uma longa noite de horror, cercado por criaturas infectadas e obrigado a lutar pela própria sobrevivência enquanto tenta escapar da cidade.

Os games de survival horror são um dos mais populares entre os donos de consoles e PCs mundo afora. E esse sucesso é graças a “Resident Evil”, de 1996, lançado pela Capcom e que consolidou o gênero entre os gamers.

O sucesso da franquia eletrônica, fez com que “Resident Evil” ganhasse outras mídias, como livros, quadrinhos, mangás, animações, séries e live-actions. A primeira adaptação cinematográfica, “Resident Evil: O Hóspede Maldito”, escrita e dirigida por Paul W. S. Anderson, chegou aos cinemas em 2002. Apesar das críticas dos fãs dos games, o filme teve um relativo sucesso comercial, faturando US$ 103 milhões nas bilheterias mundiais para um orçamento de produção de US$ 33 milhões. Isso fez com que a Sony Pictures investisse em mais cinco sequências, cada uma mais criticada que a outra devido aos desvios e mudanças cada vez mais maiores em relação ao cânone do jogo eletrônico.

Diante das críticas em relação a franquia cinematográfica criada por Paul W. S. Anderson, a Sony Pictures decidiu “rebootar” a franquia cinematográfica, trazendo a história para mais próximo do cânone dos games, focada principalmente em “Resident Evil” e “Resident Evil 2”. Mas mesmo trazendo personagens e elementos canônicos dos jogos eletrônicos, “Resident Evil: Bem-vindo a Raccoon City”, lançado em 2021, tem o pior resultado financeiro, arrecadando US$ 42 milhões nas bilheterias mundiais para um orçamento de produção de US$ 25 milhões.

Mesmo diante do fracasso de bilheteria e de crítica, a Sony Pictures via potencial em “Resident Evil” como uma franquia cinematográfica bilionária, e em 2025, venceu uma guerra de lances contra a Warner Bros. e Netflix pelos direitos de distribuição.

Com os direitos adquiridos, a Sony Pictures contratou Zach Cregger para co-escrever e dirigir um novo “Resident Evil” para os cinemas. O nome de Cregger gerou expectativas gigantescas em cima desse novo live-action, já que o diretor e roteirista estadunidense é um dos nomes mais influentes do cinema de terror da atualidade, ao lado de Oz Perkins e os irmãos Philippou.

E assim, esse ano chegou aos cinemas “Resident Evil”, oitavo filme da franquia cinematográfica de mesmo nome.

Devido às declarações de Zach Cregger, minha expectativa em relação a esse filme é que veria o “Resident Evil” menos “Resident Evil” de toda a franquia cinematográfica. O diretor e co-roteirista disse que contaria uma história original ambientada no universo dos jogos eletrônicos e que não apresentaria nenhum personagem clássico, como Leon, Claire ou Chris. A trama de “Resident Evil” acontece simultaneamente aos eventos do surto em Raccoon City visto no game “Resident Evil 2”, mas em uma linha do tempo alternativa.

Essa decisão de Cregger não me incomodou pois me fez pensar em “Resident Evil” como uma DLC dos games; além de me trazer expectativas de que veria algo semelhante ao ótimo “Assassin’s Creed”, estrelado por Michael Fassbender, que teve a mesma ideia de contar uma história original, mas ambientada no universo do Credo dos Assassinos.

A ideia de trazer um protagonista que não aparece no games é bem-vinda pois não existe a preocupação de seguir certos preceitos desses personagens e correr o risco de ferir o cânone ao precisar adaptar alguma coisa ou ficar limitado a esse mesmo cânone.

Gostei a princípio de como Bryan é apresentado em “Resident Evil”: um entregador comum, sem treinamento e sem conhecimento de combate, seja corpo a corpo ou com armas; pois dessa forma a nossa identificação com ele é maior; afinal quantos espectadores nas salas de cinema mundo afora, tem a experiência e as habilidades, quase sobre-humanas, de um Leon, por exemplo?

A inexperiência, a falta de habilidade e até o jeito atrapalhado de Bryan contribuem, pelo menos no começo de “Resident Evil”, para a sensação de tensão e vulnerabilidade que senti ao assistir o filme. Vê-lo errando tiros ou lidando com situações de forma desastrada me lembrou muito a mim mesmo quando começo a jogar games do tipo “Resident Evil”, o que acredito que foi um dos objetivos de Zach Cregger.

“Resident Evil” foi pensado para mostrar a progressão de uma game play, com Bryan pegando armas mais robustas e potentes para enfrentar as criaturas que vão aparecendo. No começo do filme, o protagonista começa com uma pistola, para depois achar uma espingarda e no começo do terço final do filme, conseguir uma metralhadora. Essa sensação também é sentida na mudança de cenários que Bryan desbrava, começando em uma rodovia deserta, passando por uma floresta e o cenário urbano de Racoon City, e terminando nos clássicos corredores e salas de laboratório da Umbrella Corporation.

Com relação as inspirações para “Resident Evil”, Zach Cregger se baseou em “Resident Evil 2” e “Resident Evil 3” para o tronco de sua narrativa, com o filme se passando durante a noite em que Raccoon City foi infestada pelo T-Virus. Mas além disso, temos uma criatura que persegue Bryan desde o começo do longa-metragem e que vai evoluindo e se tornando mais perigosa, sendo uma clara referência ao Mister X ou Nêmesis dos segundo e terceiros games da franquia, respectivamente. Aliás o monstro que aparece no final de “Resident Evil” é inspirado fortemente em William Birkim, grande vilão de “Resident Evil 2”.

Existem referências a “Resident Evil 4”, como o celeiro onde Leon enfrenta Bitores Méndez; e cenas em primeira pessoa que arremetem a “Resident Evil 7”. Além disso, existem vários easter eggs como a plantinha verde, a lata de spray branco, a máquina de escrever, a caixa verde de balas de espingarda.

Porém, algo que realmente é completamente diferente dos games é o patógeno que escapou dos laboratórios da Umbrella Corporation em “Resident Evil”. Zach Cregger disse que seu T-Virus agiria completamente diferente de tudo o que foi visto até então; mas a forma como ele age não se parece com a arma biológica mais clássica da Umbrella Corporation. E como ao longo de tantos jogos eletrônicos de “Resident Evil” tivemos diferentes vírus, parasitas e agentes biológicos; não fiquei incomodado com essa mudança. Pelo contrário, a forma desse patógeno agir, criou criaturas muito legais e grotescas.

Com relação ao terror, “Resident Evil” tem ótimos jump scares, que são bem posicionados e conseguem surpreender e assustar quem está assistindo. Zach Cregger disse que não escreve seus filmes de terror baseados somente em sustos, pois o excesso deles ou a presença deles sem um contexto, acabam fazendo esse recurso perder a força ao longo da história. Cregger afirma que prefere trabalhar com o terror mais psicológico, onde a tensão e ansiedade do espectador ficam sempre altas.

Então, pode-se dizer que Zach Cregger foi a escolha perfeita para “Resident Evil”, trazendo finalmente a atmosfera existente na franquia dos jogos eletrônicos para um live-action?

Não, Zach Cregger não conseguiu.

O humor está presente em “Resident Evil”, muito vinculado a figura de Bryan. Seu jeito atrapalhado e suas reações explosivas geram boas risadas, e até a metade do filme, a comédia existente diverte; mas a sucessão de situações cômicas acabam se tornando cansativas. Zach Cregger disse que cortou a maioria das piadas do longa-metragem depois que o público de teste as achou engraçadas demais. Na minha opinião, Cregger deveria tê-las deixado e classificado “Resident Evil” como um terrir e não um terror.

E é justamente nesse excesso de comédia que faz “Resident Evil” falhar em trazer uma atmosfera tensa que precede algo muito ruim que um bom game de survivor horror possui. Não é por falta de situações tensas apresentadas, mas no humor que está sempre presente nesses momentos, quebrando completamente a imersão apreensiva que vinha sendo construída.

Relembrando o filme, somente a cena em que Bryan tenta carregar a espingarda, enquanto a mulher que ele atropelou vem correndo pelo terreno coberto de neve, entra na casa onde ele se abrigou, é uma sequência realmente tensa; pois seu jeito atrapalhado causa nervosismo e apreensão, enquanto a criatura está cada vez mais perto dele, devido aos sons de coisas sendo quebradas e seus passos apressados pelas escadas.

Fora essa sequência, praticamente toda cena em que “Resident Evil” tenta criar tensão, acaba sendo suplantada pelo humor gerado graças ao jeito e personalidade de Bryan. E dessa forma, o survivor horror existente na franquia de jogos eletrônicos é inexistente. E à partir da sequência envolvendo Paul (Paul Walter Hauser) o cientista da Umbrella responsável pelo que está acontecendo com Raccoon City, a comédia chegou a um ponto que começou a me quebrar; sendo a parte final, dentro do laboratório da Umbrella Corporation, quebrando totalmente minha boa-vontade com o longa-metragem.

Aliás, preciso destacar que a sequência final de “Resident Evil” é péssima.

Fazendo algumas pesquisas para escrever essa resenha, descobri que Zach Cregger se inspirou em “Evil Dead 2”, que mistura terror com comédia (em uma proporção e 70% comédia e 30 % terror; se não for para mais), para escrever “Resident Evil”; e então tudo fez sentido, já que “A Morte do Demônio 2” é mais galhofa que medo, só perdendo nesse critério para o terceiro longa-metragem da franquia “Evil Dead”.

Nas palavras do próprio Zach Creeger: “Não vai ser nada parecido com ‘Noites Brutais’ ou ‘A Hora do Mal’. Vai ser muito divertido. Eu vou desligar o meu cérebro e simplesmente enlouquecer com a câmera. Vai ser o meu ‘Evil Dead 2’. Austin Abrams vai ser o meu protagonista. É uma história estranha, divertida e louca.”

E dessa forma, Zach Cregger enganou os gamers, ao dizer que seu “Resident Evil” é uma carta de amor aos jogos eletrônicos, pois apesar das referências diretas, o tom cômico afasta o filme de qualquer game da franquia “Resident Evil”. Mas Cregger e a Sony Pictures também ludibriaram os amantes de longas-metragens de terror, ao liberar materiais promocionais focados exclusivamente no terror.

A minha opinião é que Zach Cregger poderia muito bem ter feito um filme que não levasse o nome “Resident Evil”, mas baseado em elementos da franquia de jogos eletrônicos, o classificado como terrir. Dessa forma, não sofreria com a ira dos fãs dos games e com a decepção das pessoas que foram enganadas achando que veriam uma história de terror.

Isso quer dizer que “Resident Evil” é ruim? Muito pelo contrário. Muitas pessoas se sentiram entretidas e se divertindo do começo ao fim da exibição; o que não foi o meu caso. A fórmula de comédia com terror e o nome de Zach Cregger tem agradado a grande maioria do público, com “Resident Evil” alcançando 96% de aprovação no Rotten Tomatoes, sendo o título mais bem avaliado da franquia cinematográfica. Em termos financeiros, o longa-metragem já arrecadou mais de US$ 100 milhões nas bilheterias mundiais em seu primeiro final de semana, para um orçamento de produção de US$ 75 milhões.

Zach Cregger se mostra um diretor e roteirista que sabe o que os estúdios e uma parte do público querem, mas esse filme em específico merece um ponto de atenção.

Se você é fã dos jogos ou gosta de história de terror sem tanto humor, então não vale a pena assistir “Resident Evil”.

Agora se sua praia é um bom terrir e o nome de Zach Cregeer se tornou um selo de qualidade para você, independentemente do que ele produzir; daí vale muito a pena assistir “Resident Evil”!

Ficha Técnica:

Título Original: Resident Evil

Título no Brasil: Resident Evil

Gênero: Terror, Comédia

Duração: 97 minutos

Diretor: Zach Cregger

Produção: Robert Kulzer, Zach Cregger, Roy Lee, Miri Yoo, Victor Hadida, Carter Swan

Roteiro: Zach Cregger, Shay Hatten

Elenco: Austin Abrams, Zach Cherry, Kali Reis, Paul Walter Hauser, Johnno Wilson, Sara Paxton, Emily Piggford, Will Merrick, Zoé Bellas, Chris Lew Kum Hoi, Griffin Newman, Magdalena Sittovaas, Andrea Miltnerová,

Companhias Produtoras: Columbia Pictures, Constantin Film, Davis Films, Subconscious

Distribuição: Sony Pictures

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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