SINOPSE: “Quando a pessoa morre tomada por muita raiva, nasce uma maldição”. Karen Davis (Sarah Michelle Gellar) é uma jovem americana que está em Tóquio, Japão, para um intercâmbio cultural. Como parte de seu trabalho, ela é chamada para cuidar de uma idosa em sua casa, que demonstra sinais de deficiência mental que a impede de se comunicar. Entretanto, Karen passa a presenciar atividades estranhas no local. Por meio de uma antiga lenda japonesa, ela descobre que os espíritos de mãe e filho mortos ali anos atrás arrastam uma onda de fúria por todos aqueles que pisam na casa.
O final da década de 1990 foi um período ruim para o cinema de terror, com o público saturado das fórmulas que vinham sendo utilizadas desde o início dos anos 1980.
Foi então que os estúdios de Hollywood perceberam dois movimentos em relação ao terror no Ocidente: o consumo das pessoas por fitas VHS e DVDs de filmes de horror japonês, trazidos por distribuidoras e oferecidos nas locadoras; e a procura por jogos eletrônicos como “Silent Hill”. O que essas mídias tinham em comum? Elas trazem histórias baseadas no medo do invisível, no desconforto constante e no terror psicológico e abstrato, elementos que eram a assinatura do cinema de terror oriental.
A atenção de Hollywood ao J-Horror no final da década de 1990 é reforçada por uma sincronia cronológica: “Ringu” foi lançado no Japão em 1998, seguido por outros filmes como “Audition” em 1999 e “Ju-On” em 2000; enquanto “Silent Hill” chegava aos consoles em 1999.
Mas o que é o J-Horror?
O J-Horror (rótulo dado às produções cinematográficas japonesas de terror), se caracteriza quase em sua totalidade, por tramas que procuram manter um suspense durante quase todo o filme, evitando provocar sustos consecutivos no espectador, sendo estes pontuais. Outra característica são as criaturas sobrenaturais, que quase sempre são onryō, fantasmas presos ao nosso mundo que possuem um forte desejo de vingança, e que normalmente são mulheres, usando roupa branca (cor da vestimenta fúnebre no Japão), e com cabelos longos cobrindo o rosto.
Então, com a procura pelo J-Horror nas locadoras estadunidenses e a aquisição de games de terror oriental; Hollywood mirou seus olhos para o Oriente e em 2002, a DreamWorks Pictures lançava “O Chamado” nos Estados Unidos, remake do filme japonês “Ringu”, de 1998.
O sucesso comercial de “O Chamado” abriu as portas dos estúdios de Hollywood para esse estilo oriental de terror, e os cinemas ocidentais foram inundados por remakes e produções baseados na estética do J-Horror.
E dentre tantas produções baseadas no J-Horror, “O Grito” está entre as que mais se destacam.
Lançado pela Sony em 2004, “O Grito” é um remake do original japonês “Ju-On”, e teve produção de Sam Raimi e Robert Tapert, os mesmo que nos deram “The Evil Dead” em 1981. A primeira decisão que a dupla de produtores tomou foi contratar Takashi Shimizu, criador e diretor do filme japonês. A ideia dessa contratação era não perder a essência e a estética do original japonês.
“O Grito” foi filmado em Tóquio, no Japão, o destacando dos demais remakes de J-Horror. Essa decisão se mostrou bastante acertada pois além de rodar as cenas em locações reais (menos a casa onde vive a maldição), o filme se aproveita da ambientação e cultura nativa da cidade japonesa, mantendo dessa forma, a estética apresentada em “Ju-On” e gerando uma imersão maior no espectador, pois a história sobre uma maldição japonesa se passa realmente no Japão.
Uma das grandes dificuldades que vi em relação aos remakes de J-Horror, foi manter o tom narrativo visto nos filmes originais; algo que não aconteceu com “O Grito”, que se manteve bastante fiel ao material original. Esse fato confirma que contratar Takashi Shimizu para dirigir o filme foi bastante acertada.
A narrativa de “O Grito” é carregada de uma pesada tensão e sensação de desconforto; e isso se deve principalmente à atmosfera da casa amaldiçoada, que exala rancor e fúria. Para isso os realizadores do remake tiveram o cuidado de transformar o local em um personagem próprio. Existe um silêncio dentro da residência que associados a má iluminação e corredores e cômodos apertados trazem opressão tanto nos personagens que entram no local quanto em quem está assistindo.
A brutalidade e os sentimentos envolvidos nas mortes de Kayako e sua família, contaminaram a casa, a tornando viva de certa forma; por onde circula raiva e se respira rancor. E aqueles que entram nela, são marcados para serem vítimas da vingança de Kayako.
E a presença de Kayako potencializa a tensão e o medo existente em “O Grito”. Digo que esse remake é amedrontador porque não existem sustos gratuitos, com as aparições de Kayako, sejam elas sutis ou não, terem o objetivo de perturbar e não assustar. A onryō é muito bem-utilizada no filme, tornando Kayako em uma verdadeira maldição, que vai cercando suas vítimas, as atormentando, até atacá-las definitivamente.
Para criar a atmosfera doentia da casa e a presença intimidadora dos espíritos vingativos, Takashi Shimizu preferiu utilizar efeitos práticos, como a construção de uma réplica da casa onde foi filmado “Ju-On” e as habilidades de contorcionismo da atriz Takako Fuji, que interpreta Kayako. O CGI foi utilizado para realçar ou esconder algum detalhe de cena.
E se estamos falando na atriz Takako Fuji, “O Grito” escalou juntamente com ela, Yuya Ozeki e Takashi Matsuyama para reprisarem seus respectivos papéis em “Ju-On”: Kayako, Toshio e Takeo Saeki. O elenco do remake possui mais alguns profissionais japoneses, mas os principais papéis são de atores e atrizes que atuaram ou atuam no mercado cinematográfico estadunidense, com o objetivo de evitar estranhamento e possível rejeição do público ocidental.
Para criar empatia com o público estadunidense e ocidental, os responsáveis pelo remake escalaram Sarah Michelle Gellar para o papel principal principalmente por sua fama em viver Buffy Summers, protagonista na série “Buffy: A Caça-Vampiros”.
Algumas críticas relacionadas à escalação de atores e atrizes ocidentais não se justificam, pois estadunidenses irem estudar e trabalhar no Japão é algo corriqueiro. A minha única divergência é Alex (Ted Raimi), que é o diretor do centro de acolhimento onde Yoko (Yōko Maki) e Karen trabalham. Me causa estranhamento um ocidental estar à frente de uma instituição japonesa; porém o ator é o irmão mais novo de Sam Raimi, que sempre o coloca em seus filmes.
A narrativa não-linear apresentada em “O Grito” foi algo diferente do que era apresentado em outros filmes na época; e se for assistido hoje pela primeira vez, exige certa atenção. Dessa forma, alguns eventos do passado são intercalados com a linha temporal normal, criando um quebra-cabeças que quando montado, fazem sentido no final.
A narrativa não-linear foi alvo de críticas, que associo ao costume de assistir aos filmes de terror da época. Dessa forma, espectadores ou ficaram confusos ou sem paciência para pensar um pouquinho. Esse fator associado à falta de jump scares, causaram a rejeição por parte do público.
Quanto à reclamação por parte da crítica especializada em relação ao pouco desenvolvimento dos personagens, com exceção de Kayako, Toshio e Takeo, não se justifica; pois onde está o desenvolvimento de personagem em filmes como “Sexta-Feira 13”, “Halloween”, “A Hora do Pesadelo” e “Pânico”? É verdade que com o aprofundamento dos personagens, a catarse do espectador é maior; mas não acho que isso afetou tanto “O Grito”.
“O Grito” se beneficiou muito do sucesso de “O Chamado”, que inclusive foi uma das razões para a Sony Pictures aprovar o projeto. O filme arrecadou US$ 187,3 milhões nas bilheterias mundiais para um orçamento de produção de US$ 10 milhões; e costuma ser elogiado como o remake de um longa-metragem de terror oriental mais fiel até os dias de hoje.
Assim como “O Chamado”, quem assiste ou reassiste “O Grito” pode achá-lo um filme bastante comum; mas o remake dirigido por Takashi Shimizu e produzido por Sam Raimi, mostrou que os ocidentais estavam dispostos a consumir histórias de terror orientais não convencionais para a época e ambientadas em culturas diferentes.
“O Grito” é meu remake de J-Horror preferido, tanto por sua narrativa não-linear, mas principalmente por tornar uma casa em um local de dor, sofrimento e morte; uma maldição imparável que destrói os avisados e desavisados que lá entram.
E é por isso que digo que vale muito a penas assistir “O Grito”!
Principais Diferenças entre “O Grito” e “Ju-On”
- A principal diferença entre “Ju-On” e “O Grito” está no elenco. No filme original é utilizado 100% de atores e atrizes japoneses, enquanto que no remake há uma mescla de atores ocidentais e orientais.
- A narrativa de “Ju-On” não segue uma linha do tempo linear, com a história dividida em capítulos nomeados com os personagens e salta no tempo (vai e volta), exigindo que o espectador monte o que aconteceu. Apesar de “O Grito” seguir esse estilo não-linear, a cronologia é menos confusa e existem conexões mais diretas entre os “capítulos”.
- “Ju-On” é mais rústico, claustrofóbico e focado em uma atmosfera de pesadelo psicológico; enquanto que “O Grito” perdeu um pouco dessa “sujeira”, devido ao orçamento maior.
Sequências de “O Grito”
O Grito 2 (2006)
SINOPSE: Aubrey Davis (Amber Tamblyn) descobre através de sua mãe doente (Joanna Cassidy) que sua irmã Karen (Sarah Michelle Gellar) está em hospital e que está sendo investigada pela polícia japonesa, devido à morte de seu namorado em um incêndio provocado por ela em uma casa em Tóquio. Decidida a trazer a irmã para casa, Aubrey viaja até o Japão. Mas ao chegar, ela é avisada pelo fotógrafo Eason (Edison Chen) que Karen está sob a influência de algo invisível e bastante perigoso.
O sucesso comercial do primeiro filme fez a Sony Pictures aprovar “O Grito 2”. A sequência traz de volta Takashi Shimizu para a direção e Sam Raimi para a produção, além dos trio de atores japoneses que deram vida à Kayako, Toshio e Takeo.
Takashi Shimizu não queria simplesmente levar os acontecimento de “Ju-On 2” para um novo filme. Dessa forma ele inseriu eventos da infância de Kayako, dando a entender que ela não era uma criança normal. Além disso, ele quis aplicar o conceito de que a maldição da casa se espalharia para além dela.
A ideia da maldição se espalhar é bem-vinda, até porque tanto os filmes originais quanto os remakes trabalham com o conceito de Kayako não é a única maldição. Porém, dizer que a personagem era filha de uma itako, pessoa que exorcizava espíritos malignos e os dava para sua filha, às vezes encaixa na narrativa e depois parece desnecessária; porque gosto do fato de Kayako ser resultado de algo mais cru, como apresentado no primeiro filme.
“O Grito 2” perde um pouco da estética do primeiro filme em detrimento dos ataques mais frequentes de Kayako e seus comparsas. Porém, essas sequências continuam sendo perturbadoras em sua essência.
Destaque para a cena em que Kayako sai de um tanque de revelação de fotos; e para os créditos iniciais, onde a estátua do logotipo da Colúmbia Pictures se transforma na onryō.
O Grito 3 (2009)
SINOPSE: Jake (Matthew Knight) é o único remanescente de um massacre. Ele é perturbado pelas visões dos espíritos de Kayako e Toshio e, por causa disto, é hospitalizado pela doutora Sullivan (Shawnee Smith). A médica busca provas dos tormentos pelos quais passa seu paciente e, em meio às investigações, desconfia que a família que está morando na casa de Jake possa estar amaldiçoada. A única esperança de pôr fim à maldição é uma misteriosa mulher japonesa.
“O Grito 2” em comparação ao primeiro filme gastou o dobro para ser produzido e arrecadou menos da metade nas bilheterias mundiais. Dessa forma, a Sony Pictures investiu em um terceiro longa-metragem, mas o lançou direto para DVD e Blu-ray.
Além do investimento menor que essa decisão causou; Takashi Shimizu, diretor dos filmes “Ju-On” e dos dois primeiros remakes, não retornou para esse longa-metragem. Sam Raimi se manteve na produção.
O resultado é um filme que foge muito dos dois primeiros longas-metragens, com uma estética mais ocidental, priorizando os jump scares e falhando em tentar criar o mistério e tensão características da franquia. Muito dessa mudança, acredito que seja interferência da Sony Pictures.
Tudo no filme acaba passando batido, com exceção da cena em que a Dra. Sullivan (Shawnee Smith) é perseguida por Kayako; e o desfecho que faz certa referência ao final de “Ju-On 2”.
O Grito (2019)
SINOPSE: Depois que uma jovem mãe mata sua família em sua própria casa, uma policial solteira descobre que a casa onde ocorreu o crime brutal é amaldiçoada por um fantasma vingativo que condena aqueles que entram nela com uma morte violenta. Agora, ela corre para salvar a si mesma e a seu filho dos espíritos demoníacos da casa amaldiçoada em seu bairro.
Na década de 2010, os estúdios tentaram trazer de volta as franquias geradas por remakes de J-Horror. A Sony Pictures chamou Sam Raimi para produzir o reboot / spin-off de “O Grito”.
Assim como aconteceu com “O Chamado 3”, “O Grito”, de 2019, foi um fracasso de crítica e bilheteria. O filme falha em tentar ficar nas fórmulas clássicas do terror, com um fraco gore e jump scares previsíveis e nada assustadores.
Mas ao falhar também nos elementos característicos do J-Horror, “O Grito”, de 2019, é totalmente sem identidade, tanto que a melhor coisa do filme são os pós-créditos que sobem em total silêncio.
Curiosidades
- Takashi Shimizu deu preferência para a utilização de efeitos práticos quase que em sua totalidade, usando o CGI para retocar ou esconder algo. A cena em que Kayako aparece flutuando sobre Emma (Grace Zabriskie) é um bom exemplo disso.
- A maquiagem utilizada para transformar Takako Fuji e Yuya Ozeki em Kayako e Toshio, respectivamente, levava cerca de duas horas.
- A atriz Takako Fuji se submeteu a várias maquiagens, precisando pintar quase que seu corpo todo de branco, para representar um espírito pálido; como de preto, para se transformar em uma sombra.
- Todas as cenas de movimentação de Kayako foram feitas pela própria Takako Fuji. A atriz, que é contorcionista, fez a famosa cena em que Kayako desce se arrastando pela escada.
- A casa amaldiçoada de “O Grito” foi recriada em estúdio com as mesmas medidas do imóvel onde foi filmado “Ju-On”. Além de fidelidade ao material original, esse cenário possuía compartimentos e paredes móveis para facilitar as gravações.
- A casa utilizada para as cenas externas em “Ju-On” e “O Grito” existiu de verdade. Ela ficava na cidade de Tokorozawa, na província de Saitama, a cerca de 30 minutos de trem de Tóquio, próximo a uma ponte e estação de trem da linha Seibu. O domicilio foi demolido há alguns anos.
- “Ju-On” significa literalmente maldição do ressentimento ou maldição do rancor. O remake ganhou o título de “The Grudge” (“O Grito”), por o termo “The Grudge” aparecer como subtítulo quando o filme japonês passou a ser distribuído no Ocidente. Os realizadores da adaptação decidiram que “O Grito” era mais comercial e fazia alusão ao som emitido por Kayako.
- O som emitido por Kayako não foi feito pela atriz Takako Fuji, nem gerado por computadores. O ruído gultural foi emitido pelo próprio diretor e criador Takashi Shimizu. Para dar uma textura ainda mais assustadora e simular o barulho dos ossos fraturados se retorcendo, a equipe de sonoplastia utilizou o efeito de passar os dedos pelas cerdas de um pente ou escova de cabelo comum bem perto do microfone.
- O som de “engasgo” ou “estalo” gultural era o barulho do ar passando com extrema dificuldade pelo pescoço quebrado de Kayako enquanto dava seus últimos suspiros de vida. Quando ela retornou como um Onryō (um espírito vingativo do folclore japonês), o som de sua agonia tornou-se a marca registrada de sua maldição.
- Takashi Shimizu revelou que era uma criança extremamente medrosa e canalizou suas próprias fobias infantis para criar o clima de terror doméstico do filme. A ideia de que o perigo não está em um cemitério ou floresta escura, mas sim dentro do lugar onde deveríamos nos sentir mais seguro, como a nossa própria casa, foi o motor inicial da história.
- O o visual aterrorizante dos fantasmas de Kayako e Toshio, com corpos contorcidos, pele totalmente branca e movimentos espasmódicos foi diretamente inspirada no Butoh, uma forma de teatro e dança de vanguarda que surgiu no Japão pós-guerra. Quando criança, as apresentações de Butoh, que envolvem dançarinos com corpos pintados de giz, expressões faciais extremas e movimentos agonizantes, o assustavam profundamente. Ele usou esse trauma infantil para moldar a fisicalidade de seus monstros.
Ficha Técnica:
Título Original: The Grudge
Título no Brasil: O Grito
Gênero: Terror / Horror
Duração: 91 minutos
Direção: Takashi Shimizu
Produção: Sam Raimi, Robert Tapert, Takashige Ichise
Roteiro: Stephen Susco
Elenco: Sarah Michelle Gellar, Jason Behr, Clea DuVall, KaDee Strickland, Bill Pullman, William Mapother, Grace Zabriskie, Ted Raimi, Takako Fuji, Yuya Ozeki, Rosa Blasi, Ryo Ishibashi, Yoko Maki, Takashi Matsuyama
Companhia produtora: Ghost House Pictures, Sony Pictures Home Entertainment
Distribuição: Sony Pictures Home Entertainment
