SINOPSE: Vivendo em Nova York depois que sua identidade foi apagada da memória de todos, o amigão da vizinhança tenta seguir em frente anonimamente enquanto concilia a rotina universitária com a missão de proteger a cidade como super-herói. Sem poder contar com seus amigos e obrigado a enfrentar tudo sozinho, Peter busca se reencontrar ao mesmo tempo em que se sente invisível e vê sua namorada vivendo novas experiências. Porém, uma série de acontecimentos coloca a cidade em perigo novamente.

A primeira aparição do Homem-Aranha no MCU aconteceu em “Capitão América: Guerra Civil”, de 2016. Um ano depois, o Cabeça de Teia estrearia seu primeiro filme-solo pela Marvel Studios, com um subtítulo bastante sugestivo: “Homem-Aranha: De Volta ao Lar”. Completam a primeira trilogia do Amigão da Vizinhança: “Homem-Aranha: Longe de Casa” (2019) e “Homem-Aranha: Sem Volta para Casa” (2021).

Cinco anos se passaram desde “Homem-Aranha: Sem Volta para Casa”, até que esse ano chegou a quarta aventura cinematográfica do super-herói pelo MCU: “Homem-Aranha: Um Novo Dia”.

A primeira coisa que me chamou atenção e que gostei muito em “Homem-Aranha: Um Novo Dia” é o fato de não ter vínculo entre o Teioso e o Homem de Ferro. Faz sentido Tony Stark ser a porta de entrada de Peter Parker no MCU, já que ele é o primeiro super-herói do universo cinematográfico da Marvel; e até entendo ele ser tutor de Peter Parker, que tinha apenas 14 anos quando apareceu em “Capitão América: Guerra Civil”; mas termos o Homem-Aranha sempre na sombra do Homem de Ferro, na minha opinião, diminuía um pouco o Cabeça de Teia.

Agora, existe uma referência simbólica em “Homem-Aranha: Um Novo Dia” envolvendo esses dois super-heróis: como foi o Homem de Ferro a abrir as portas para o ingresso do Homem-Aranha no MCU; é o Cabeça de Teia quem faz esse papel de apresentar e trazer a personagem de Sadie Sink pata esse universo cinematográfico.

Passados quatro anos dos eventos de “Homem-Aranha: Sem Volta para Casa”, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” traz uma história mais madura que os longas-metragens anteriores, não só por apresentar um Peter Parker adulto, mas muito pelas consequências do terceiro filme do Cabeça de Teia no MCU. Para proteger Mary Jane (Zendaya) e Ned Leeds (Jacob Batalon) de terem o mesmo destino trágico da Tia May (Marisa Tomey), Peter Parker pede ao Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) para conjurar um feitiço que faça todos esquecerem que ele é o Homem-Aranha. Dessa forma, o encontramos em uma situação conflitante: Nova York acolheu e ama o Cabeça de Teia, com a cidade se sentindo segura por ter o seu super-herói; mas por outro lado Peter encontra-se sozinho, sem sua tia, sem seu melhor amigo, sem seu grande amor.

E isso é muito Homem-Aranha! E quem disser o contrário, achando que “Homem-Aranha: Um Novo Dia” é dramático demais ou algo parecido, me desculpe, mas você não entende muito do nosso Amigão da Vizinhança: Quando criança colecionava duas HQs, naquele formatinho com folhas em papel jornal: X-Men e Homem-Aranha; e sempre via o Cabeça de Teia lascado ou na vida pessoal ou na sua vida super-heróica; ou até mesmo em ambas.

E mesmo que não existisse esse histórico no cânone do super-herói, ainda sim faria sentido vermos o Homem-Aranha na situação que se encontra: idolatrado pela cidade; mas ainda sim solitário, por ter perdido as pessoas que ama, seja para a morte, seja para o esquecimento. Dessa forma, os únicos amigos que o Cabeça de Teia tem são EV (Naomi Watts), sua IA; o Justiceiro (Joe Bernthal); e a detetive Jean DeWolff (Liza Colón-Zayas).

E podemos traçar um paralelo entre “Homem-Aranha: Um Novo Dia” e “Homem-Aranha 2”, já que a conturbada vida de Peter Parker interfere diretamente na sua persona aracnídea. No caso do filme estrelado por Tobey Maguire, vemos seus dons falhando; e nesse longa-metragem, os poderes do Cabeça de Teia passam a sofrer mutações. Talvez a maior diferença seja na abordagem em relação a essa eterna batalha interna do personagem: em “Homem-Aranha 2” existe um certo humor para aliviar o peso; já em “Homem-Aranha: Um Novo Dia” ele é explorado de forma mais crua.

Já que cheguei nesse ponto, posso dizer que “Homem-Aranha: Um Novo Dia” é o filme mais sério do super-herói dentro e fora do MCU. E falo isso não só pelo Cabeça de Teia, mas pelo tom cinza dado a outros personagens principais como Mary Jane Watson, Frank Castle e a figura “misteriosa” interpretada por Sadie Sink.

No caso de Mary Jane vemos que ela vai para a faculdade e se forma, mas a personagem parece sempre incomodada e em uma interação com o Homem-Aranha diz que parece faltar algo, que não parece ser ela de verdade.

Tragédia poderia ser o sobrenome do meio de Frank Castle, mas me chamou a atenção o tom mais brando do anti-herói nesse filme, que é muito diferente do que vi em “Justiceiro: Uma Última Morte”. Admito que no começo estranhei e até me incomodei com isso, mas “Homem-Aranha: Um Novo Dia” tem classificação indicativa de 12 anos no Brasil (PG-13 nos EUA), e a versão sanguinária e quase animalesca do personagem vista no especial do Disney+ é completamente fora de tom. Mas a química perfeita do Justiceiro com o Homem-Aranha acabou fazendo qualquer receio meu sumir. E muito dessa química se deve à amizade entre Tom Holland e John Bernthal, que se conheceram em 2015, nos bastidores do filme “A Peregrinação”, que nas horas se ajudavam, gravando e ensaiando seus testes de vídeo para os atuais papéis no MCU.

Já a personagem de Sadie Sink está em busca de sua irmã desaparecida, Sara. Ela descobre através de uma mensagem telepática que Sara está sendo mantida em cárcere por William Metzger (Tramela Tillman), chefe do Departamento de Controle de Danos. Nessa mensagem, fica sabendo sobre V-Max, que pode ser o motivo da prisão de Sara pelo DCD.

Apesar de todo o segredo, as teorias e boatos estavam certos e a personagem de Sadie Sink se revela Jean Grey, uma mulher dotada de poderosos poderes telepáticos. E apesar da surpresa não ser tão grande, achei a apresentação da telepata nível ômega em um filme do Homem-Aranha uma ideia incrível.

Digo isso, porque a Marvel Studios já vinha de forma discreta falando sobre o universo mutante: o adamantium em “Capitão América: Admirável Mundo Novo”, a revelação de que Kamala Khan e Namor serem mutantes, entre outras citações. Mas apresentar uma das X-Men em “Homem-Aranha: Um Novo Dia”, é juntar as duas maiores franquias da Marvel.

Além disso, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” pavimenta alguns possíveis caminhos que podem ser seguidos nos futuros filmes dos X-Men da Marvel Studios, como a ameaça de William Metzger aos mutantes e a tecnologia inibidora dos poderes oriundos de mutações criada pelo Cabeça de Teia, fazendo com que ele apareça em algum longa-metragem do grupo mutante para ajudá-los.

Então em “Homem-Aranha: Um Novo Dia” temos a trama envolvendo Jean Grey em busca da irmã e do V-Max e nosso Amigão da Vizinhança tendo que primeiramente impedir a mutante para depois ajudá-la. Enquanto essa treta rola, o Homem-Aranha precisa encontrar uma forma de lidar com as mutações de seus poderes e a inevitabilidade de encontrar Mary Jane e revelar o que ela esqueceu.

Como disse, “Homem-Aranha: Um Novo Dia” possui uma boa dose de dramaticidade e de seriedade, mas é um filme que encontra um excelente equilíbrio com a ação que todo filme de super-herói deve ter.

E algo que chama bastante atenção no quesito ação, são as acrobacias do Homem-Aranha, seja se balançando por Nova York, seja metendo a porrada na bandidagem. O diretor Destin Daniel Cretton revelou que jogou e viu gameplays de “Marvel Spiderman” e quis emular isso para o filme. O resultado disso é um Teioso à vontade, com uma plasticidade de movimentos que entregam leveza e liberdade ao super-herói. Inclusive, alguns movimentos são idênticos aos vistos nos jogos eletrônicos de “Marvel Spiderman”.

Em relação aos combates, duas cenas são muito boas: Homem-Aranha e Justiceiro vs. Hulk (Mark Ruffalo) e Homem-Aranha contra os ninjas do Tentáculo. Na primeira luta vemos que o Cabeça de Teia aguenta porrada e precisa usar sua agilidade e inteligência para enfrentar o super-herói com a maior força física da Marvel. No segundo entrevero vemos que o Amigão da Vizinhança é um dos mais difíceis de encarar, quando está motivado e sob o controle total dos seus poderes.

Já que mencionei o Hulk e do Tentáculo, é preciso dizer que “Homem-Aranha: Um Novo Dia” tem muitas participações especiais. Das HQs do super-herói vemos rapidamente o Tarântula, Bumerangue, Ramrod e Lápide. Da galeria de vilões do Homem-Aranha, o que tem uma participação maior é o Escorpião (Michael Mando). Aqui uma observação: o visual do Lápide (Marvin Jones III) e do Escorpião são horríveis.

Do MCU além do Hulk, temos a participação de Yelena Belova (Florence Pugh) que através de seus contatos ajuda o Homem-Aranha a desvendar o mistério em torno de Jean Grey e William Metzger.

Agora algo legal de se ver, são as muitas referências aos quadrinhos em “Homem-Aranha: Um Novo Dia”. Assim como “Quarteto Fantástico: Primeiros Passos”, a capa de Amazing Fantasy #15, de Stan Lee e Steve Dikto, que mostra a primeira aparição do Cabeça de Teia. Além dela, outras capas foram referenciadas: Amazing-Spider-Man #134, de John Romita; Amazing Spider-Man #345, de Erik Larsen; Spider-Man Adventures #2, de Alex Saviuk; Amazing Spider-Man #221, de Bob Wiacek; e Spectacular Spider-Man #142, de Sal Buscema. As referências são muitas que vão desde capas de HQs do Homem-Aranha à cenas do Universo Ultimato (o tiro que ele leva do Justiceiro) e da saga “Guerra Civil” (Frank Castle carregando o Homem-Aranha gravemente ferido).

A Marvel Studios manteve a tradição e nos créditos finais apresentou o nome de desenhistas e roteiristas que ajudaram a criar a história do Homem-Aranha nos quadrinhos. E a lista é gigante, mostrando o tamanho do super-herói dentro da Casa de Ideias e fora dela.

E se mencionei os créditos finais, a única cena pós-créditos de “Homem-Aranha: Um Novo Dia” mostra um app criado por Ned Leeds que rastreia a localização do Teioso, mostrando o super-herói fora da Terra. A teoria que ganhou mais força faz referência ao Mundo Bélico de “Guerra Secretas”.

O futuro do Homem-Aranha se abre dentro da Marvel Studios e pode seguir caminhos novos ou adaptar histórias existentes nos quadrinhos, como o tão pedido e aguardado surgimento de Venom. Outros arcos já acho mais difícil de virarem filmes, como os que envolvem Jean DeWolff e Lápide. Em ambos os casos, as histórias são mais violentas e pesadas, o que faria a Marvel Studios ter que subir a classificação indicativa, limitando o público que poderia ver o filme nos cinemas e diminuindo assim, a bilheteria.

E a linha a ser seguida pela Marvel Studios em relação ao Homem-Aranha nos cinemas deve ser a que foi mostrada em “Homem-Aranha: Um Novo Dia”, que vem quebrando recordes de bilheterias um atrás do outro e até a publicação dessa resenha, tinha entrado no Top 10 das maiores bilheterias de todos os tempos, com incríveis US$ 1,708 bilhão em apenas duas semanas de exibição no mundo. Além disso, o quarto filme do Aracnídeo no MCU pode ser o primeiro a ultrapassar US$ 1 bilhão apenas nos EUA (atualmente a arrecadação nas bilheterias estadunidenses é de US$ 700 milhões).

Antes de encerrar essa resenha preciso  dizer que muitos podem torcer o nariz para esse tipo de produção e achar que filmes de super-heróis são somente efeitos especiais sem conteúdo; porém “Homem-Aranha: Um Novo Dia” se destaca em bons aspectos técnicos relevantes. O filme tem um roteiro bem escrito, que trata de algo mais lúdico e pipoca, mas que aborda as consequências emocionais que a solidão pode acarretar. O longa-metragem também tem uma direção segura e competente, que soube equilibrar muito bem o lado super-heróico da história com o lado mais dramático, sem deixar que um pendesse mais que o outro.

Mas é preciso enaltecer o trabalho de Tom Holland, pois é graças ao seu talento e dedicação que pela primeira vez no MCU vi e senti o genuíno Homem-Aranha/Peter Parker dos quadrinhos. Tom Holland trouxe finalmente para a Marvel Studios o Cabeça de Teia que é gente como a gente. E é uma pena que devido ao preconceito com filmes de super-herói, sua intepretação em “Homem-Aranha: Um Novo Dia” deva passar despercebida pelas principais premiações do cinema. Mas caso ocorra uma indicação e até premiação, será fruto da aptidão e entrega de Tom Holland ao papel.

E simples assim, encerro essa resenha dizendo que esse é o filme mais Homem-Aranha do MCU e por isso ele é tão bom e tão divertido. Dessa forma, digo que vale muito a pena assistir “Homem-Aranha: Um Novo Dia”!

Ficha Técnica:

Título Original: Spider-Man: Brand New Day

Título no Brasil: Homem-Aranha: Um Novo Dia

Gênero: Super-Herói

Duração: 145 minutos

Diretor: Destin Daniel Cretton

Produção: Kevin Feige, Amy Pascal, Avi Arad, Rachel O’Connor

Roteiro: Chris McKenna, Erik Sommers

Elenco: Tom Holland, Zendaya, Sadie Sink, Jacob Batalon, Jon Bernthal, Florence Pugh, Tramell Tillman, Marisa Tomei, Mark Ruffalo, Michael Mando, Zabryna Guevara, Liza Colón-Zayas, Marvin Jones III, Eman Esfandi, Olivia Booth-Ford, Billy Clements, Naomi Watts

Companhias Produtoras: Columbia Pictures, Marvel Studios, Pascal Pictures

Distribuição: Sony Pictures

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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