SINOPSE: Após a morte do marido, uma mulher busca refúgio na casa isolada dos sogros. À medida que, um a um, eles são transformados em Deadites, transformando o encontro em uma reunião familiar saída do inferno, ela descobre que os votos que fez em vida continuam… mesmo na morte.
Criada por Sam Raimi, “Evil Dead”, “A Morte do Demônio” como ficou conhecida no Brasil, é um das franquias de terror mais longevas, amadas e rentáveis do cinema. Completando 45 anos, a franquia tem 6 filmes, que arrecadaram mais de US$ 470 milhões na bilheterias mundiais, para um orçamento de produção total de pouco mais de US$ 70 milhões.
“A Morte do Demônio: Em Chamas”, mais recente filme da franquia, chegou aos cinemas esse mês e é sobre ele que vou falar um pouco nessa resenha.
Desde “A Morte do Demônio”, de 2013, novos diretores têm sido contratados para dirigirem novos filmes de “Evil Dead”. O nome da vez é o francês Sébastien Vaniček, que é mais conhecido por assinar a direção e o roteiro de “Infestação”, de 2023. Essa decisão garante visões diferentes para os conceitos já estabelecidos além de acrescentar novos elementos à mitologia da franquia, tudo supervisionado e autorizado por Sam Raimi.
Parecia que os longas-metragens à partir de “A Morte do Demônio” ,de 2013, não teriam conexões diretas além do Necronomicon Ex-Mortis ou Naturon Demonto, o Livro dos Mortos e outros easter eggs como a cabana no meio da floresta no remake de 2013 (que é a mesma do filme de 1981, graças a presença da carcaça do veículo de Ash Williams) ou a menção em “A Morte do Demônio: A Ascensão” de que existem três Livros dos Mortos (como mostrado em “Army of Darkness” ou “Evil Dead 3”).
Porém, “A Morte do Demônio: Em Chamas” ao explicar o destino de Jessica (Greta van den Brink), a possuída do começo de “A Morte do Demônio: A Ascensão”, conecta de forma direta os dois filmes, fazendo com que o novo capítulo da franquia “Evil Dead” seja sequência direta do longa-metragem de 2023.
Busquei as demais resenhas existentes no Cinemaníacos sobre a franquia e lembro de uma declaração do próprio Sam Raimi que disse que a ideia à partir de “A Morte do Demônio” de 2013 era criar histórias sem conexões diretas, mas que tivessem relação dentro da mitologia. Mas com “A Morte do Demônio: Em Chamas” se mostrando sequência direta de “A Morte do Demônio: A Ascensão”, ou essa fala de Raimi era fake news para que não descobríssemos suas reais intenções ou seus planos mudaram ao longo do tempo.
Algo que fica evidente bem no começo em “A Morte do Demônio: Em Chamas”, e que me chamou bastante a atenção, é que os Deadites são calculistas e estrategistas, planejando suas ações com um objetivo em mente. Em “A Morte do Demônio”, de 2013, existia um plano para trazer a Abominação, mas quase sempre os demônios agiam para promover o caos sanguinário, algo meio que inerente a natureza deles. Mas o sexto filme da franquia, subverte essa ideia de vez, ao mostrar Jessica possuída, esperando por horas no acostamento de uma estrada um determinado veículo, para se jogar na frente dele e dar início à busca de um artefato.
Trata-se de uma ideia nova dentro da franquia? Não, mas a forma como ela é abordada torna essa inteligência e capacidade de planejamento dos Deadites, de certa forma, original.
Ao longo da franquia, vimos os Deadites praticando atos de violência e sadismo impressionantes, mas em “A Morte do Demônio: Em Chamas”, os possuídos apresentaram um novo traço a sua personalidade: um frenesi de fúria que os fazem atacar suas vítimas de forma descontrolada, como se estivessem cegos de raiva. O gore, uma característica inerente a “Evil Dead” está presente, mas admito que essas sequências de pura fúria dos Deadites me surpreenderam todas as vezes que aconteceram.
E já que mencionei o gore, “A Morte do Demônio: Em Chamas” traz cenas que fizeram minha espinha gelar várias vezes. Impressionados com o que viram em “Infestação”, os produtores Sam Raimi e Rob Tapert convidaram Sébastien Vaniček para dirigir o sexto filme franquia, que trouxe uma brutalidade extrema, superando o que vi em “A Morte do Demônio”, de 2013; o que trouxe problemas parecidos aos enfrentados por “Evil Dead” de 1981 (que foi proibido em vários países pela violência apresentada na época). A classificação inicial dada pela MPAA, órgão de classificação indicativa dos EUA, para “A Morte do Demônio: Em Chamas” foi NC-17 (proibido para menores de 17 anos), o que arruinaria a distribuição e consequentemente, a bilheteria. Para reduzir a classificação para R (onde menores de 17 anos podem assistir acompanhados), Sébastien Vaniček precisou “atenuar” algumas sequências, como a retirada de closes extremamente gráficos.
Porém, Sébastien Vaniček não desistiu de manter a cena polêmica do cachorro da família Price sendo morto por Edgar (Erroll Shand), alegando que se você não puder ultrapassar todos os limites morais em um filme de “Evil Dead”, não faria sentido em nenhum outro. Além disso, Vaniček prometeu que lançará sua versão do diretor, sem censura e sem cortes.
A escolha de Vaniček se mostrou uma decisão acertada por parte de Sam Raimi e Rob Tapert que buscavam um novo filme da franquia “Evil Dead” bastante visceral e desconfortável. O diretor que só utiliza CGI quando realmente necessário (como no caso de Will (George Pullar) depois de transformado em Deadite), incendiou dublês de verdade para que o terror das chamas parecesse de verdade; conduziu gravações exaustivas por cenários claustrofóbicos para captar o desconforto real do elenco; e os atores e atrizes que interpretaram os Deadites tiveram que usar botas que restringiam e deformavam o caminhar deles, além de focar nas contrações musculares faciais e olhares reais deles.
A maquiagem teve peso importante em “A Morte do Demônio: Em Chamas”, principalmente na parte dos ferimentos apresentados, mas no caso dos Deadites, ela se mostrou bem mais simples que nos demais filmes da franquia. Os possuídos tem uma pele pálida e algumas próteses, mas o destaque fica por conta dos olhos, que se assemelha um pouco com o que vimos em “A Morte do Demônio: A Ascensão”. Essa semelhança se deve ao fato da invocação dos demônios serem resultado do Livro dos Mortos encontrado no filme anterior da franquia.
Um detalhe importante: posso estar enganado, mas “A Morte do Demônio: Em Chamas” é o primeiro filme da franquia que não tem a presença do Livro dos Mortos. O que vemos no longa-metragem é uma espécie de diário com várias anotações, citações e imagens extraídas do Naturon Desmonto (ou Necronomicon Ex-Mortis).
Mas se o Livro dos Mortos está ausente, “A Morte do Demônio: Em Chamas” abre espaço para a comédia, algo ausente desde “A Morte do Demônio”, de 2013, que passa longe do filmes protagonizados por Ash Williams, mas que me arrancou boas risadas.
“A Morte do Demônio: Em Chamas” possui duas cenas pós-créditos que podem dar pistas sobre o futuro da franquia. Na primeira vemos um Deadite sobrevivente se arrastando pela rua e encontrando uma mulher dirigindo um jipe vermelho, igualzinho ao que aparece em “A Morte do Demônio”, de 2013). A segunda cena pós-crédito traz de volta um personagem de “A Morte do Demônio: A Ascensão” e levanta algumas perguntas se esses demônios necessitam de corpos físicos.
Mas o futuro não é o tema do próximo capítulo da franquia, pois “Evil Dead: Wrath”, dirigido por Francis Galluppi, será um prequel, se passando em 1972; ou seja, antes dos eventos do primeiro filme, de 1981. Aliás, a confiança no sucesso comercial da franquia é tanto, que “Evil Dead: Wrath” foi confirmado antes da estreia de “A Morte do Demônio: Em Chamas”.
E “A Morte do Demônio: Em Chamas” provou que a franquia está mais viva do que nunca, faturando mais de 200% do seu orçamento de produção em apenas 48 horas: US$ 40 milhões nas bilheterias mundiais para um custo de US$ 20 milhões.
O mais brutal dos capítulos da franquia explora elementos clássicos de “Evil Dead” com originalidade, mas sem fugir do cânone já criado, além de trazer elementos novos e encorpando ainda mais a mitologia existente. Parte de uma história que começou em “A Morte do Demônio: A Ascensão” e que deve se desdobrar no futuro, vale muito a pena assistir “A Morte do Demônio: Em Chamas”!
Ficha Técnica:
Título Original: Evil Dead Burn
Título no Brasil: A Morte do Demônio: Em Chamas
Gênero: Terror
Duração: 111 minutos
Diretor: Sébastien Vaniček
Produção: Rob Tapert, Sam Raimi
Roteiro: Sébastien Vaniček, Florent Bernard
Elenco: Souheila Yacoub, Tandi Wright, Hunter Doohan, Luciane Buchanan, Erroll Shand, Maude Davey, George Pullar, Victory Ndukwe, Keanu Karim, Tapiwa Soropa, Alain Chabat, Greta Van Den Brink, Alyssa Sutherland
Companhias Produtoras: New Line Cinema, Screen Gems, Ghost House Pictures
Distribuição: Warner Bros. Pictures (EUA e Canadá), Sony Pictures (Mundial)
