SINOPSE: Rachel (Camila Morrone) e Nicky (Adam DiMarco) estão noivos e prestes a se casar em uma semana, na casa dos pais dele. Porém, Rachel começa a pressentir que algo de ruim vai acontecer no dia do casório.

O sucesso de “Stranger Things” catapultou os irmãos Duffer, criadores da série, para o estrelato e nomes de destaque dentro da Netflix. Ao término da jornada de Eleven e Cia., vários lançamentos da plataforma do Tudum têm os irmãos Duffer associados ao projeto de alguma forma, gerando hype, como “Algo Horrível Vai Acontecer”.

Um produtor executivo tem a função de garantir a execução do projeto, cuidando do cronograma, logística, orçamento, administração do set, entre outros, sendo responsável por encontrar jeitos de conciliar a visão criativa do diretor ou showrunner com os recursos disponíveis. Como James Wan, os irmãos Duffer usam sua experiência para gerir o projeto e com seus nomes ajudam a captar recursos financeiros. Essa função não exclui as pessoas que a exercem de atuarem na parte criativa dos filmes e séries, algo que pode ou não ter acontecido em “Algo Horrível Vai Acontecer”, minissérie da Netflix.

Mesmo nos materiais promocionais, “Algo Horrível Vai Acontecer” veio cercado de segredos, só revelando que no dia do casamento de Rachel o título da minissérie vai se concretizar e deixa uma pergunta no ar: Nick é a pessoa certa? Os primeiros episódios reforçam esse mistério e jogam uma camada de estranheza ao mostrarem várias situações e comportamentos insólitos dos familiares do noivo. E mesmo que as devidas explicações sejam dadas, o clima de que existe algo errado permanece, deixando o espectador com a pulga atrás da orelha.

É interessante como a minissérie brincou com a minha percepção, onde consegui perceber duas quebras de perspectivas bem trabalhadas, criando assim três ciclos narrativos bem construídos. Comecei achando que seria uma história sobrenatural; então assistindo aos primeiros episódios pensei que Rachel estava se envolvendo com pessoas piradas e depois entrei de cabeça em uma história de terror envolvendo uma maldição.

Como disse, os irmãos Duffer são produtores executivos de “Algo Horrível Vai Acontecer”, mas a presença deles levanta dois pontos: se eles participaram da parte criativa da minissérie, isso demonstra uma versatilidade deles, pois a narrativa da minissérie é completamente diferente do que vi em “Stranger Things”; agora se os irmão Duffer só atuaram para garantir os meios necessários para que a produção saísse do papel, então é preciso destacar o talento em criar histórias de Haley Z. Boston, que acredito ser a verdadeira.

Haley Z. Boston roteirizou alguns episódios de “Vingança Sabor Cereja” e assina a história do episódio quatro, de “O Gabinete de Curiosidades”. Dessa forma, podemos perceber que a showrunner de “Algo Ruim Vai Acontecer” possui algumas assinaturas como o debate de questões sociais sem deixar em segundo plano o terror existente. Em “The Outside”, um dos melhores episódios da antologia de Guilhermo del Toro, acompanhamos uma mulher desajeitada e pouco atraente que anseia ser igual às mulheres do seu trabalho envolto em um body horror. Em “Algo Ruim Vai Acontecer” a discussão é sobre o amor à primeira vista: se ele é o determinante para contrair matrimônio, quais os perigos e revelações desconfortáveis ficam ocultos diante de um sentimento tão fulminante. E para reforçar essa advertência, a minissérie coloca Rachel diante do dilema fatal de que se Nick não for seu verdadeiro amor, ela morrerá.

“Algo Horrível Vai Acontecer” manteve minha atenção sempre alta em relação à história, sem quedas bruscas no ritmo narrativo, algo bastante difícil mesmo para minisséries. Sempre tem algo interessante, por menor que seja, acontecendo no tempo certo. Porém, perto do fim, a discussão que ocorre entre Rachel e Nick, apesar de ocorrer na hora certa dentro da trama, na minha opinião, foi esticada além do necessário, como que para encher o tempo do episódio. Mas mesmo com esse prolongamento, o choque de ideias e posicionamento dos personagens é bastante relevante e revela muito sobre eles.

Falando um pouco dos personagens, os integrantes da família Cunningham são uma miscelânia de indivíduos excêntricos: Portia (Gus Birney) é completamente alienada, vivendo uma vida fútil; Victoria (Jennifer Jason Leigh) é a matriarca que possui planos de morrer dentro de sua casa; Boris (Ted Levine) é o esposo conformado e o pai que faz vistas grossas para o que ocorre debaixo do seu teto; e Julian (Jeff Wilbusch) é o primogênito que sofre até os dias atuais com um trauma que sofreu quando criança (e que tem relação com o passado de Rachel).

Com relação aos protagonistas, achei Nick um tanto fraco e que só se mostra relevante perto do fim, quando suas mentiras e sua personalidade verdadeira aparece. E sem precisar falar muito: Rachel é o motor de “Algo Horrível Vai Acontecer”, segurando e movimentando muito bem a narrativa.

O desfecho de “Algo Horrível Vai Acontecer” é sangrento e revoltante, pois Rachel diante da morte ou salvar a família Cunningham, se mantém firme em seu altruísmo, enquanto aqueles que diziam que a amam e a ajudam durante a minissérie, se revelam lobos em peles de ovelhas, dispostos a sacrificarem a protagonista, mesmo que o objetivo seja a sobrevivência de entes queridos. Até por isso, o destino de Rachel é catártico e justo, premiando toda sua jornada.

Não vou me estender mais, para não revelar mais do que posso ter revelado. Porém, posso dizer que comecei assistindo essa minissérie por curiosidade e acabei com minha atenção presa até o final. Boas doses de humor e um terror psicológico que flerta um pouco com o gore, fazem da discussão sobre o amor verdadeiro e se conhecemos os nossos escolhidos para passar toda a vida juntos divertida e interessante, sem cair em pieguices que tal enredo costuma enveredar. Por isso, digo que vale a pena assistir “Algo Ruim Vai Acontecer”!

Ficha Técnica:

Título Original: Something Very Bad Is Going to Happen

Título no Brasil: Algo Horrível Vai Acontecer

Gênero: Terror, Drama

Temporadas: 1

Episódios: 8

Criadores: Haley Z. Boston

Produtores: Haley Z. Boston, The Duffer Brothers, Hilary Leavitt, Andrea Sperling, Weronika Tofilska

Diretores: Weronika Tofilska, Axelle Carolyn, Lisa Brühlmann

Roteiristas: Haley Z. Boston, Alex Delyle, Kate Trefry, Ben Bolea, Alana B. Lytle, Isaac Sims

Elenco:

Camila Morrone, Adam DiMarco, Gus Birney, Karla Crome, Sawyer Fraser, Jeff Wilbusch, Ted Levine, Jennifer Jason Leigh, Amanda Fix, Zlatko Burić, Victoria Pedretti, Josh Hamilton, Logan Miller

Companhias Produtoras: Too Much Blood Productions, A Dog’s Dream, Upside Down Pictures

Transmissão: Netflix

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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