SINOPSE: Dez anos se passaram desde que o brilhante, mas perigosíssimo Dr. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) escapou da prisão e agora está solto pela Europa. A agente do FBI Clarice Sterling (Julianne Moore), que entrevistou o Dr. Lecter antes que ele fugisse nunca esqueceu o assassino. O bilionário Mason Verger (Gary Oldman) também não se esqueceu de Hannibal. Vítima que conseguiu sobreviver ao ataque do psicopata e ficou terrivelmente desfigurado, Verger se torna um obcecado pela vingança e percebe que, para fazer com que o Dr. Lecter seja descoberto, terá que usar como isca a própria Clarice Sterling.

Em 1991, “O Silêncio dos Inocentes” era lançado. O filme definiria e popularizaria os serial killers na indústria cinematográfica, e passados 35 anos de sua estreia, continua ditando regras e influenciando produções sobre esses assassinos, sejam nos cinemas, televisão ou streamings.

“O Silêncio do Inocentes” foi um sucesso de bilheteria, arrecadando US$ 272,7 milhões (para um orçamento de US$ 19 milhões), arrancado elogios da crítica especializada e levando as cinco principais estatuetas do Oscar de 1992: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Adaptado. Aliás, é o único longa-metragem de terror a ganhar a categoria de Melhor Filme do Oscar (apesar de não o considerar um longa-metragem de terror).

Diante de tanto sucesso, era de se esperar que a MGM e os produtores dariam continuidade às histórias de Hannibal Lecter e Clarice Starling. Dessa forma, em 2001 chegava aos cinemas “Hannibal”, sequência direta de “O Silêncio dos Inocentes” e que adapta o terceiro livro de mesmo título escrito por Thomas Harris.

“Hannibal” tem uma dinâmica diferente de “O Dragão Vermelho” e “O Silêncio dos Inocentes”, pois fazem dez anos que Dr. Lecter fugiu e vamos acompanhar sua liberdade após um incidente envolvendo a agente Clarice Starling.

O estopim dessa história é o resultado desastroso de uma operação do FBI, onde Clarice Starling não tendo outra alternativa, mata uma chefe do tráfico de drogas. O problema é que essa criminosa carregava um neném em um suporte preso à frente de seu corpo no momento que é alvejada e morta.

Diante da repercussão da mídia, o bilionário Mason Verger, vê uma oportunidade de atrair Hannibal Lecter e assim executar seu plano de vingança. Então, usando sua fortuna e sua influência política, Verger consegue que Clarice volte a caçar Dr. Lecter, enquanto manipula nas sombras para que a agente do FBI fracasse e assim a deixe vulnerável, fazendo com que o psicólogo canibal saia das sombras finalmente.

Aqui, acredito que precise fazer uma análise dos três personagens principais de “Hannibal”: Clarice Starling, Mason Verger e Hannibal Lecter.

No caso de Clarice Starling, “Hannibal” deixa bem claro que a personagem se consolidou como uma agente do FBI, calejada e experiente a ponto de dormir momentos antes de uma grande operação de risco; e respeitada mesmo que à força, por seus pares dentro e fora do Bureau, com exceção de Paul Krendler (Ray Lyotta) que é um completo p@u no furico. Muitos não gostaram da escolha de Julianne Moore para o papel, depois da recusa de Jodie Foster em retornar, mas a verdade é que a atriz confere uma postura de seriedade e integridade que Clarice Starling adquiriu após os anos que se passaram desde a captura de Buffalo Bill.

Clarice Starling continua sendo alvo de assédio em variados graus pelos homens e até mesmo ridicularizada, como é caso de Paul Krendler, porém a personagem, agora mais experiente, consegue lidar de forma descontraída diante dos galanteios e de forma incisiva quando recebe cantadas ofensivas e olhares famintos.

Voltando à atriz, gosto do que Julianne Moore fez e trouxe para a personagem, e por mais que Clarice Starling e Jodie Foster sejam um tanto inseparáveis devido ao que vimos em “O Silêncio dos Inocentes”, não senti aversão dela ter assumido o papel. Se Julianne Moore tivesse trazido uma interpretação ruim até poderia entender as reações indignadas de algumas pessoas para sua escalação, mas não é o caso aqui, pois a atuação da atriz pode não ser brilhante, mas entrega muito bem o que a história pede.

O grande vilão de “Hannibal” é Mason Verger, interpretado pelo camaleônico e talentosíssimo Gary Oldman. Mason foi a quarta vítima e a única a sobreviver a Hannibal Lecter. A aparência grotesca reflete a índole do personagem, pois ao contrário de Buffalo Bill que possuía um sério transtorno mental (ele achava que era transsexual e por isso cometia seus crimes), Mason é o puro suco da maldade e repugnância, já que ele aproveitava da fragilidade e inocência das crianças de um abrigo criado por sua família para molestá-las sexualmente e que, graças aos bilhões de dólares e proteção política que ele possuía, foi protegido e inocentado de qualquer acusação.

Mason Verger é o monstro no sentido literal da palavra, e que ao contrário de Hannibal Lecter, existe na vida real. O personagem precisa executar seu plano de vingança não somente para revidar as cicatrizes e problemas de saúde que seu encontro com o psicólogo canibal causou, mas também recuperar sua “dignidade”, já que mesmo sendo uma pessoa tão poderosa e influente foi enganado facilmente por alguém que ele julga inferior. É isso mesmo, Mason Verger pode até entender a ameaça que Dr. Lecter representa, mas ainda assim, ele vê nosso “anti-herói” como alguém abaixo dele.

E dessa forma, chegamos ao nosso “anti-herói”, Hannibal Lecter. Estou o classificando assim porque mesmo que ele execute suas vítimas com toques de crueldade, ele só mata os grosseiros e os que ameaçam sua liberdade.

A morte do “commendatore”, que é como Hannibal Lecter chama o inspetor Renaldo Pazzi (Giancarlo Giannini) deve-se à sua liberdade que está ameaçada; a de Mason Verger acontece por sobrevivência e por perceber que foi um erro deixa-lo vivo; e a de Paul Krendler é porque ele é o estereótipo máximo da grosseria, ou como disse antes: um verdadeiro p@u no furico.

Aliás, para reforçar esse sentimento de anti-heroísmo, de justiceiro de Hannibal Lecter, basta ver que Mason Verger não é morto, mas desfigurado para espelhar sua alma, seu interior podre e monstruoso.

Em “Hannibal” vemos algumas características do personagem que em “O Silêncio dos Inocentes” ficam na superfície ou são somente citadas, devido ao tempo em tela. A primeira que me chama atenção é o teatralismo, a necessidade de tornar seus crimes em espetáculos. Existe um requinte, um planejamento nos seus atos que tornam seus assassinatos dramáticos. Basta ver a morte do inspetor Pazzi, encenando o enforcamento de um de seus descendentes ou o jantar servido para Clarice Starling onde o prato principal é o próprio Paul Krendler.

Outra característica é o conhecimento da alta culinária de Hannibal Lecter, ao escolher os ingredientes e o modo de preparo das refeições que prepara. Afinal, não é porque você é um canibal, que precisa comer qualquer coisa. E é nesse ponto que faço uma observação: desde “O Silêncio dos Inocentes”, nos deparamos com a alcunha de Hannibal “Canibal” Lecter, porém, tanto no filme de 1991 quanto em “Hannibal”, não o vemos comer nada de procedência humana. Existe um insight no final do longa-metragem, onde sua marmita de viagem mostra um pedaço de cérebro, reforçando a ideia.

Mas se a parte do canibalismo não é mostrada, a crueldade empregada por Dr. Lecter fica evidente e para isso “Hannibal” não poupa nossos olhos da violência gráfica explícita. Eviscerações, pessoas sendo destroçadas por animais e até uma craniotomia completa, com direito a exposição de cérebros, vísceras e muito sangue.

Esse foi um ponto que muitos criticaram: o excesso de violência, transformando o filme nesses momentos em um terror gore. Algumas queixas são de que essas cenas eclipsaram o charme e o requinte de Hannibal Lecter. Minha opinião é que em “O Silêncio dos Inocentes” essa violência que o Dr. Lecter é capaz de exercer ficou mais no campo da imaginação (mesmo a cena em que ele foge, só temos o resultado dos seus atos). Era preciso justificar toda a preocupação e medo que o personagem exalava e dessa forma o grafismo nessas sequências foram necessárias. Além do mais, é interessante ver a mente analítica de Hannibal Lecter trabalhando, mostrando todos os passos e cuidados para executar seus assassinatos.

Mas o que “Hannibal” tem de mais legal é a presença maior de Hannibal Lecter em tela. Se em “O Silêncio dos Inocentes” ele se consolidou como o maior e um dos mais queridos vilões do cinema, nesse longa-metragem essas ideias são reforçadas. Por mais que ele seja um psicopata; sua inteligência, sua educação e seu requinte são encantadores e ver isso por mais tempo do que meros 16 minutos é muito gratificante.

Tenho um tique (ou um problema mental, hehehehehe) que quando os vilões são muito bons, começo a sorrir quando eles aparecem e até dou risada de suas falas. Isso acontece com Sukuna, vilão do anime “Jujutsu Kaisen”. Com Hannibal Lecter não foi diferente.

Falando rapidamente do ponto de vista técnico, “Hannibal” é um pouco inferior que “O Silêncio dos Inocentes”, sem algumas sacadas geniais que o diretor Jonathan Demme teve, como por exemplo os atores falando diretamente para a câmera e assim “quebrar a quarta parede”. Mas compensa em outros pontos, como uma fotografia muito linda, principalmente a parte que se passa em Florença, a presença de vários antagonistas e claro o roteiro bem escrito e esplendorosamente executado por Anthony Hopikins.

“O Silêncio dos Inocentes” é um filme melhor que “Hannibal” quando analisado do ponto de vista técnico, mas “Hannibal é mais legal” que “O Silêncio dos Inocentes” porque tem muito mais Hannibal Lecter!

E sem rodeios dessa vez, encerro a resenha dizendo que vale muito a pena assistir “Hannibal”!

Curiosidades

Atenção: existe spoiler entre as curiosidades, por isso, siga por conta e risco.

  • Jonathan Demme, diretor de O Silêncio dos Inocentes, preferiu se afastar desta continuação por considerar a história muito violenta.
  • Jodie Foster, que interpretou Clarice Starling no primeiro filme, decidiu não participar desta sequência por não concordar com os rumos tomados por sua personagem.
  • Os direitos de filmagem de “Hannibal” foram vendidos a Dino de Laurentiis por US$ 10 milhões, o mais alto valor já pago na época para adaptar um livro para o cinema.
  • Gary Oldman passava até seis horas na cadeira de maquiagem para se transformar em Mason Verger. O processo envolvia a aplicação minuciosa de próteses de silicone para recriar o rosto desfigurado, incluindo a remoção das pálpebras e lábios.
  • O final do livro “Hannibal” segundo Ridley Scott era infirmável e por isso foi alterado para o filme. A mudança teve aprovação do escritor Thomas Harris.
  • No final do livro Clarice aceita comer um pedaço do cérebro de Paul Krendler, rejeita sua vida no FBI e abraça um lado mais sombrio, aceitando o amor de Hannibal, tornando-se amantes. Anos depois, Barney (ex-enfermeiro do hospital psiquiátrico) avista o casal em uma ópera em Buenos Aires, na Argentina, vivendo uma vida sofisticada.

Ficha Técnica:

Título Original: Hannibal

Título no Brasil: Hannibal

Gênero: Suspense, Terror

Duração: 125 minutos

Diretor: Ridley Scott

Produção: Dino De Laurentiis, Martha De Laurentiis, Ridley Scott

Roteiro: David Mamet, Steven Zaillian

Elenco: Anthony Hopkins, Julianne Moore, Gary Oldman, Ray Liotta, Frankie R. Faison, Giancarlo Giannini, Francesca Neri, Željko Ivanek, David Andrews, Francis Guinan, Robert Rietti, Enrico Lo Verso, Ivano Marescotti, Fabrizio Gifuni, Marco Greco, Hazelle Goodman, Terry Serpico, Boyd Kestner, Peter Shaw, James Opher, Don McManus, Danielle de Niese, Mark Margolis, Ajay Naidu, Bruce MacVittie

Companhias Produtoras: Metro-Goldwyn-Mayer, Universal Pictures, Dino De Laurentiis Company, Scott Free Productions

Distribuição: MGM Distribution Co., United International Pictures

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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