SINOPSE: Quatros anos após o fim da Guerra Civil Estadunidense, o Capitão Jefferson Kyle Kidd (Tom Hanks) viaja através do Texas oferecendo notícias do mundo para as pessoas. Em uma de suas viagens ele se depara com Johanna (Helena Zengel), uma menina de 10 anos que foi criada pela tribo Kiowa. Determinado a levá-la até seus familiares, os dois embarcam em uma jornada pelo hostil território pós-guerra, forçando-os a lidarem com as difíceis escolhas sobre o futuro.

 

Essa deve ser a quarta vez que começo essa resenha. A maior dificuldade em escrevê-la se deve ao fato de como colocar em palavras o que senti assistindo “Relatos do Mundo”. E depois de várias tentativas, resolvi simplesmente me guiar pelos sentimentos que esse filme me fez sentir.

Começamos “Relatos do Mundo” acompanhando a jornada do Capitão Jefferson Kyle Kidd, que após o fim da Guerra da Secessão, vai de cidade em cidade ler as principais notícias para as pessoas, com o objetivo de informá-las e entretê-las. O cenário que vemos é um país ainda dividido, com os sulistas tendo que aceitar a derrota para os “azuis”.

No Texas, a situação é um pouco mais complicada, pois o estado ainda não faz parte da União por não aceitar as emendas constitucionais como o abolicionismo e a reparação ao negros por todos os anos de escravidão. Dessa forma encontramos um cenário caótico, onde a violência espreita cada canto, onde pessoas honradas precisam viver e sobreviver com pessoas que se entregam ao desespero e a maldade.

Nesse recém construído Estados “Unidos”, encontramos juntos com o Capitão Kidd outra vítima desse caos: Johanna, uma menina de 10 anos e órfã duas vezes. A partir daí o que segue é uma jornada de redenção e esperança para os dois protagonistas.

“Relatos do Mundo” é um faroeste parecido com outros que já assisti, pois veremos várias situações que já foram exploradas em tantos outros filmes do gênero: a animosidade entre sulistas e ianques, pessoas que se tornam violentas por se encontrarem abandonadas após o fim da guerra e outras que com o caos em que o país se encontra, viram a oportunidade de praticar a maldade contida em seus corações. Estamos diante do sangrento e duro Velho Oeste Estadunidense.

A própria relação entre o Capitão Kidd e Johanna não é algo inédito. Pelo contrário, esse tipo de história já vimos em centenas de outros filmes como “Gran Torino” com Clint Eastwood ou “Logan” com Hugh Jackman.

Então como posso ter tanta dificuldade para escrever sobre “Relatos do Mundo” se ele é tão clichê, tanto em retratar o Velho Oeste Estadunidense como em trazer uma história de um homem e uma criança que se encontram e criam um vínculo afetivo? A resposta que posso dar é como esse filme conseguiu entrar na minha cabeça de forma a sentir de forma tão intensa as emoções que o permeiam.

Em “Relatos do Mundo” senti raiva, apreensão, dor e  alegria . Ri e chorei muito, mas muito mesmo nos momentos tanto de tristeza quanto de felicidade.

“Relatos do Mundo” não reinventa a roda, utilizando todas as ferramentas narrativas do faroeste e do drama para construir com maestria impressionante uma história onde duas pessoas destruídas e perdidas pela violência do mundo em que vivem buscam encontrar um novo começo. O diretor Paul Greengrass vai direto ao ponto em “Relatos do Mundo”: o de emocionar os espectadores. E esse objetivo ele alcança como pouquíssimos diretores, mesmo os mais consagrados e premiados, conseguiram.

Mas essa história só ganha esses contornos emocionais incríveis graças a dupla de atores que interpretam o Capitão Kidd e Johanna.

Tom Hanks dispensa apresentações. O premiadíssimo ator já é um expert em interpretar personagens inesquecíveis: Forrest Gump, Chuck Noland, Paul Edgecomb e o Xerife Woody (voz). O Capitão Jefferson Kyle Kidd com certeza entra nesse seleto hall de pessoas fictícias que amaremos como se fossem de verdade.

Com seu estilo “vozão”, Tom Hanks consegue diferenciar o Capitão Kidd de Walt Kowalski de Clint Eastwood ou Logan de Hugh Jackman. Os três personagens são homens honrados que carregam cicatrizes profundas em suas almas, mas enquanto os protagonistas de “Gran Torino” e “Logan” são pessoas irascíveis e rabugentas, o protagonista de “Relatos do Mundo” é amável e acessível desde o primeiro momento em que aparece em tela.

O Capitão Jefferson Kyle Kidd viu e vivenciou todos os horrores e o sangue da Guerra Civil Estadunidense, fazendo com que não conseguisse voltar para sua esposa mesmo após quatro anos após o fim do conflito. Mas mesmo com todos os fantasmas que ele carrega, o personagem vivido por Tom Hanks é capaz de entender o sentimento das pessoas a sua volta, seja ao ler uma notícia divertida e emocionante para uma plateia irritada ou distribuir sorrisos e gestos gentis a uma menina que só tem motivos para desconfiar das pessoas. E somente o talento de um ator como Tom Hanks poderia criar tamanha nuance para o Capitão Kidd.

E mais uma vez fico indeciso em como continuar a resenha. O Motivo dessa indecisão é porque minha cabeça pensa em milhares de palavras para falar da atriz-mirim que interpreta Johanna. E como menos é mais e seguindo meus sentimentos, PRECISO dizer que o que Helena Zengel fez em “Relatos do Mundo” é ESPETACULAR!

Nos trailers, já tinha notado que essa menina tinha algo especial, mas quando Johanna aparece pela primeira vez em cena, com um olhar assustado e dizer: “Eu quero ir para casa.”, percebi que Helena Zengel é uma dessas prodígios que tem tudo para marcar seu nome na história do cinema. A sua expressão e sua primeira fala foi tão poderosa que se o Capitão Kidd não a ajudasse e a protegesse, eu faria.

Helena Zengel fala muito pouco durante os 119 minutos do filme, e quando fala é em uma língua que poucas pessoas entendem. Mas mesmo que Johanna fosse muda, ainda sim compreenderíamos e sentiríamos tudo que a personagem transmite, pois a expressividade da atriz-mirim é absurda.

Helena Zengel consegue com sua expressão corporal e facial transmitir uma empatia pela sua personagem que me fez rir nas situações engraçadas (quando Johanna come pó de café) e sorrir junto com ela, além é claro, de me emocionar nos momentos delicados.

Johanna é órfã duas vezes. A primeira vez ocorre quando os índios massacraram sua família e a levaram para viver com eles. E a segunda vez é quando os “azuis” matam toda a tribo Kiwoa onde ela cresceu após seu rapto. Uma personagem tão sofrida como Johanna poderia ser algo muito difícil para qualquer ator ou atriz, mas Helena Zengel a interpreta de forma tão fluída e natural que é como se ela tivesse anos e anos de experiência cênica e não só dez anos de idade.

Todos os momentos de Helena Zengel são INCRÍVEIS, mas se tivesse que destacar alguns, eu diria que sua primeira aparição no filme é um deles. O segundo é quando o Capitão Kidd após ouvir Johanna falar em alemão, pergunta se ela se lembra de algo mais, e sua expressão fala por si só. O terceiro ensejo é quando ela diz para o Capitão Kidd que “para seguir em frente, primeiro você deve se lembrar”. E a cena que mais me emocionou durante todo o longa-metragem é quando ambos os protagonistas então se olhando e Johanna diz “Capitão, Johanna vai?”

O talento de Helena Zengel é tão absurdo que ela se tornou uma das atrizes mais jovens a ser indicada ao Globo de Ouro. Com 12 anos, Zengel empata com Haley Joel Osment, indicado por “O Sexto Sentido”, e Kirsten Dunst, por “Entrevista com o Vampiro”. Me tornei fã dessa menina e quero muito, muito, muito ver outros trabalhos dela.

Tinha assistido “Relatos do Mundo” antes de estrear na Netflix. Porém quis assistir de novo para poder escrever essa resenha e saber se tudo que senti da primeira vez aconteceria de novo. O resultado é que me emocionei mais que meu primeiro contato com o filme.

“Relatos do Mundo” é clichê em todos os aspectos e simples em sua mensagem. Mas em sua simplicidade, esse filme consegue transmitir com uma força inexplicável toda a carga emocional que a história possui. “Relatos do Mundo” fala de sentimentos, da redenção de pessoas destruídas por tragédias que encontram uma na outra a chance da felicidade!

“Relatos do Mundo” é um daqueles filmes que vou querer ver quantas vezes forem possíveis. E em todas as vezes me emocionarei tanto ou mais como da primeira vez que o assisti.

O ano de 2021 apenas começou e tem muito filme bom, tanto no streaming, na tv e no cinema (se o Covid permitir) para assistir, mas “Relatos do Mundo” colocou um verdadeiro Everest a ser escalado para alcançar o topo.

Se vale a pena assistir “Relatos do Mundo”? Vou responder a essa pergunta dizendo que ”Relatos do Mundo” é, até o momento, O MELHOR FILME de 2021!

Ficha Técnica:

Título Original: News of the World

Título no Brasil: Relatos do Mundo

Gênero: Drama

Duração: 119 minutos

Direção: Paul Greengrass

Produção: Gary Goetzman, Gail Mutrux, Gregory Goodman

Roteiro: Paul Greengrass, Luke Davies

Elenco: Tom Hanks, Helena Zengel, Michael Covino, Fred Hechinger, Neil Sandilands, Thomas Francis Murphy, Mare Winningham, Elizabeth Marvel, Chukwudi Iwuji, Ray McKinnon, Bill Camp

Companhias Produtoras: Perfect World Pictures, Playtone, Pretty Pictures

Distribuição: Universal Pictures, Netflix

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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