SINOPSE: Enfrentando dificuldades para conseguir um emprego formal, o jovem Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) decide entrar no agitado submundo do jornalismo criminal independente de Los Angeles. A fórmula é correr atrás de crimes e acidentes chocantes, registrar tudo e vender a história para veículos interessados.
Era uma vez, quando eu ainda tinha tv a cabo, estava zapeando os canais e não achando nada de interessante para assistir, acabei deixando em um filme com Jake Gyllenhall que começava a filmar acidentes e crimes durante a madrugada de Los Angeles para vender para as emissoras de televisão. E foi assim que vi pela primeira vez “O Abutre”.
“O Abutre” explora o comércio de imagens do jornalismo “verdade”, onde as emissoras compram gravações de crimes, acidentes e desastres de pessoas que fazem disso sua profissão. O filme se passa em Los Angeles, mas poderia ser em qualquer outro grande centro urbano.
“O Abutre” escancara a busca implacável das emissoras pela audiência e a morte, dor e desgraça são os maiores impulsionadores. Um exemplo da vida real foi quando a Record passava de manhã cedo sua cobertura policial e reinava em absoluto e forçou a Globo a entrar mais cedo e passar esse tipo de notícia mais cedo. O resultado: a emissora do Plim Plim passou a liderar a audiência.
Dessa forma, temos Nina (Rene Russo), chefe editorial de uma emissora de televisão que precisa aumentar os números da audiência e vê nos vídeos trazidos por Louis Bloom uma oportunidade de garantir seu emprego. É interessante vê-la trabalhando, guiando os âncoras do telejornal e a equipe de apoio para transformar um crime em um espetáculo televisivo, manipulando inclusive os fatos para que se adequem melhor ao interesse do público.
O nome do filme não podia ser mais apropriado pois como a ave de rapina, essa forma de jornalismo se aproveita da morte e desgraça alheia para se alimentar dos restos, da carniça. E novamente pegando exemplo na vida real: quanto mais sangue, mais audiência, caso contrário, como explicar a proliferação de “Cidades Alertas” e especiais de televisão que bombam quando exploram um crime ou um desastre chocante.
Além de adjetivar esse tipo de jornalismo, a ave carniceira que dá nome ao filme tem como objetivo principal descrever Louis Bloom, pois o personagem é cruel, oportunista e sem escrúpulos, que se beneficia da desgraça, sofrimento e morte alheia presentes em suas filmagens.
Dan Gilroy, diretor e roteirista do filme, potencializa esses traços, dando a Louis Bloom uma sociopatia, um desprezo assustador pelo próximo. Tudo e todos são meras ferramentas, que podem ajudá-lo a conquistar seus objetivos; ou obstáculos a serem eliminados sem nenhum peso na consciência.
Mesmo o fato de Louis Bloom gostar de Nina é cercado de objetivos do que o de apenas iniciar um relacionamento. Bloom não aceita ser rejeitado e ter seus planos obstruídos seja por quem for, até mesmo por alguém que tenha sentimentos.
E é nesses momentos, quando pessoas se colocam no caminho de seus planos, que Louis Bloom se mostra uma pessoa perigosa que não tem remorso ou peso na consciência, desprezando totalmente o próximo. E tudo isso fica bem claro quando ele precisa eliminar a concorrência ou pior ainda, excluir da sua equação de sucesso, pessoas que o ajudaram.
Mas “O Abutre” aborda outro tema além do comércio e da banalização da violência e sofrimento no jornalismo e outros meios de comunicação, que é o acesso as informações por meio da internet. Esse tema foi e é abordado constantemente em outros filmes e mídias, mas nesse longa-metragem em específico ele se torna mais gritante quando vemos que uma pessoa como Louis Bloom, autodidata e altamente inteligente, as consegue de forma fácil e como as utiliza.
E toda essa narrativa de “O Abutre” é conduzida por Dan Gilroy de forma instigante e que os faz querer saber se os planos de Louis Bloom darão certo. Parecido com “Fome de Poder”, esse filme nos faz torcer pelo protagonista, não pela forma doentia e distorcida deles conduzirem seus planos, mas pela persistência deles em realizar seus objetivos.
Falando um pouco da parte técnica do filme, além do roteiro afiado, “O Abutre” possui uma ótima fotografia, principalmente nas cenas noturnas. Essas sequências à noite captam bem a sensação de solidão que as ruas vazias trazem com o ritmo e ação escondidas nas sombras.
Gosto também da trilha sonora pois ela traz uma vibe positiva, o que se mostra um contraponto bem pensado já que Louis Bloom vai se revelando uma pessoa bem ruim à medida que o longa-metragem avança.
Mas o que torna “O Abutre” um filme tão bom é a interpretação de Jake Gyllenhall, que contrastou ao que estamos acostumados a ver dele em outros papéis. A estranheza que o personagem demonstra advém do seu jeito de falar e de se movimentar, sem o balanço dos braços, que dão um aspecto mecânico a ele. Mas o mais impressionante é o olhar que o ator emprega, dando um ar de dissimulação e falta de empatia verdadeira a Louis Bloom. A interpretação de Jake Gyllenhall em “O Abutre” é a melhor de sua carreira na minha opinião, mas que infelizmente foi esnobada pela Academia ao não ser nem indicada ao Oscar de Melhor Ator na época.
Completam o elenco Rene Russo, com uma ótima intepretação; Bill Paxton, fazendo um trabalho competente; e o talentoso Riz Ahmed, no papel que o revelou para o cinema internacional.
O final de “O Abutre” pode revoltar algumas pessoas, mas me faz pensar em duas coisas. A primeira é que a persistência e metas claras podem fazer que objetivos se concretizem, independentemente do teor deles. E a segunda coisa é que muitas vezes não é o mocinho que vence.
Com uma narrativa ágil e instigante, temas como a comercialização da violência e sofrimento nas mídias e o fácil acesso às informações na internet são explorados e expostos para nos entreter e nos alertar; e de brinde ainda temos a melhor atuação da carreira de Jake Gyllenhall.
Por isso, só posso dizer que vale muito a pena assistir “O Abutre”!
Ficha Técnica:
Título Original: Nightcrawler
Título no Brasil: O Abutre
Gênero: Drama, Suspense
Duração: 114 minutos
Diretor: Dan Gilroy
Produção: Michel Litvak, Jake Gyllenhaal, David Lancaster, Jennifer Fox, Tony Gilroy
Roteiro: Dan Gilroy
Elenco: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Riz Ahmed, Bill Paxton, Kevin Rahm, Michael Hyatt, Ann Cusack, Carolyn Gilroy, Michael Papajohn, James Huang, Eric Lange, Kiff VandenHeuvel, Myra Turley, Jamie McShane, Leah Fredkin, Kent Shocknek, Pat Harvey, Sharon Tay, Rick Garcia, Bill Seward
Companhias Produtoras: Bold Films
Distribuição: Open Road Films
