SINOPSE: Uma grande explosão fez com que Tóquio fosse destruída em 1988. Em seu lugar foi construída Neo Tóquio, que, em 2019, sofre com atentados terroristas por toda a cidade. Kaneda e Tetsuo são amigos que integram uma gangue de motoqueiros que disputam rachas violentos com gangues rivais. Em um desses confrontos, Tetsuo acaba ferido em um encontro com uma estranha criança com poderes e acaba sendo levado pelo exército, liderados pelo coronel Shikishima. A partir de então Tetsuo passa a desenvolver poderes inimagináveis, o que faz com que seja comparado ao lendário Akira. Paralelamente, Kaneda se interessa por Kei, uma garota envolvida com um grupo que tenta localizar Akira.
Em um domingo de 1990, folheando o caderno B, dedicado ao lazer, do principal jornal da cidade que resido até hoje, vi o seguinte título da reportagem principal sobre cinema (ou algo próximo disso): “‘Akira’ chega aos cinemas brasileiros provando que desenho animado não é somente coisa de criança”.
“Akira” chegava ao Brasil dois anos depois de sue lançamento no Japão e quatro anos antes de “Cavaleiros do Zodíaco”, que escancarou as portas do nosso país para o anime e fez com que nos apaixonássemos por essas animações nipônicas. Até por isso, e isso lembro bem, “Akira” era considerado um filme de animação ou um desenho animado, pois os brasileiros e o mundo não consumiam com frequência animes.
Da minha parte, com 12 anos, consumidor de desenhos animados e quadrinhos, fiquei curioso e querendo muito ver “Akira”. Acabei indo sozinho, pois meu grande parceiro de cinema, o meu pai, não quis ir. Isso exigiu certa malandragem na hora de entrar na sala, devido à classificação recebida por seu conteúdo: esperar a sessão começar, pagar uns trocados para o lanterninha e entrar escondido.
Porém, toda essa “engenharia” valeu a pena, pois “Akira” mudou minha forma de pensar sobre as animações e foi uma das melhores experiências da minha vida dentro de uma sala de cinema. Até hoje assisto e ainda me impressiono ele, classificando-o como o MELHOR ANIME JÁ FEITO E O MELHOR QUE JÁ ASSISTI.
A história de “Akira” começa com uma explosão com a força equivalente à uma bomba atômica que devasta Tóquio em 1988. Trinta e um anos depois, vemos Neo Tóquio, uma cidade construída ao lado do que sobrou da cidade antiga, onde uma conspiração pelo controle dela e guerras de gangues se chocam com forças divinas que ameaçam destruir tudo novamente.
Veja que mencionei que a explosão que destruiu Tóquio em 1988 teve a força de um artefato nuclear e não dizendo que foi causada por uma bomba atômica, pois ao longo do anime descobrimos que o que desencadeou a devastação da cidade tem a ver com uma criança.
“Akira” traz uma história que mostra uma cidade onde a tecnologia e seus avanços andam lado a lado com a degradação e o caos dos que ficam à margem. Isso fica muito claro aos vermos os carros ou os equipamentos utilizados nos experimentos do exército para criar suas cobaias dotadas dos “poderes de Deus”, e até mesmo a moto de Kaneda, que contrastam diretamente com ruas sujas e escuras, a pobreza evidente das classes mais baixas, instituições essenciais falidas, como a escola da gangue de Kaneda, e a violência das gangues e a guerra entre as forças armadas e os rebeldes.
Esse cenário mostrado em “Akira”, em minhas pesquisas, é considerado por muitos o que definiu o Cyberpunk como o vemos. Claro que antes do anime, Ridley Scott tinha lançado “Blade Runner”, porém o filme flopou em sua estreia em 1982 e só ganhou seu status de cult muitos anos depois. Talvez o próprio “Blade Runner” tenha inspirado Katsuhiro Otomo a criar “Akira”, tanto na ambientação quanto na trama envolvendo o despertar do “poder de Deus”.
Analisando as informações que pesquisei para escrever essa resenha, tenho a opinião que “Akira” também reflete a condição socioeconômica do Japão no final dos anos 1980. O país nipônico vivia o auge da sua bolha econômica, com yenes jorrando por todos os lados e com taxas de crescimento muito superiores ao dos demais países do mundo. A cidade onde moro até hoje está entre as três maiores colônias de japoneses no Brasil, então assisti a muitos vídeos gravados de programas de TV e comerciais e ficava maravilhado com a tecnologia e como eles viviam lá. Mas ao mesmo tempo ficava sabendo de histórias sobre a violência desse mundo brilhante e tecnológico da época, com gangues, a própria Yakuza, prostituição, drogas, suicídio. E muito da violência, prostituição e utilização e drogas era perpetrada por adolescentes.
A bomba atômica mencionada no início de “Akira” é o temor e cicatriz profunda deixada pelos ataques nucleares a Hiroshima e Nagasaki no final da Segunda Guerra Mundial. E dessa forma, temos na figura do Coronel Shikishima a busca para entender e controlar uma força que pode garantir a segurança do Japão perante as outras nações. E não é isso que vemos quando um país declara ter armamentos de destruição em massa, pois o fato de possuir tais artefatos garante o medo sem a necessidade de usá-las.
Porém, ao não entenderem com o que estavam lidando em 1988, essa força explode de forma descontrolada e destrói a cidade, obrigando o exército e o governo do Japão a esconderem suas pesquisas e Akira, com medo de serem retaliados e atacados por outras nações. Essa parte não é tão bem explorada no anime, mas fica bem claro no mangá, quando Akira desperta pela segunda vez.
Então, 31 anos depois temos um cenário onde o controle pelo “poder de Deus” está entre a busca mesquinha de políticos que querem serem os novos reis e imperadores do Japão, focada na figura do político Nezu; e a manutenção do status quo e a preservação e sobrevivência do país, encabeçada pelo Coronel Shikishima.
Aqui vejo uma quebra de expectativa em relação aos militares nesse tipo de história. O coronel Shikishima quer manter o controle sobre a cidade, mas com a ideia de preservação, de sobrevivência. Seus diálogos demonstram isso e até quando eles encontram Tetsuo, ele diz que precisam entender esse poder para que os erros do passado não sejam cometidos e adverte o Doutor Ōnishi de que o adolescente deve ser morto, caso ele saia do controle. Porém, o doutor em sua sede por conhecimento que beira à loucura, não segue os protocolos e uma nova ameaça de nível divino paira sobre Neo Toquio.
“Akira” é protagonizado pelos adolescentes Kaneda e Tetsuo, parceiros de gangue e amigos desde a época do orfanato. Kaneda é o típico adolescente rebelde e desajustado, como diria a Chichi de “Dragon Ball”, cujo o único objetivo é consumir drogas e azarar as meninas, andar na sua motona foda demais e sentar a porrada na gangue dos palhaços. Sem perspectiva de vida, é o que Kaneda faz todas as noites até o acidente de Tetsuo causado por Takashi, uma criança de aparência envelhecida dotadas de poderes telecinéticos.
Como visto na descrição acima, Kaneda não é um herói convencional, mas o seu objetivo em parar Tetsuo, tem haver com a amizade que os dois cultivaram desde crianças, que beira a irmandade. É claro que Kaneda não perde a oportunidade de diminuir seu amigo, que mesmo com poderes que beiram o divino, continua sendo o menor da turma e o mais desajeitado, precisando de um irmão mais velho para cuidar dele. E como uma família, problemas entre parentes, são resolvidos entre os seus.
Kaneda também representa a insensatez da adolescência e o sentimento de imortalidade que todos já tivemos ao passar por essa fase, pois ao se colocar em situações muito fora da sua realidade, como a de insultar e enfrentar seu amigo com poderes inexplicáveis, ele se acha intocável e incapaz de morrer.
Já Tetsuo, que considero o verdadeiro protagonista do anime, é a representação da infância traumática e como essas cicatrizes psicológicas podem tornar uma pessoa perigosa. Tetsuo é abandondado pelo pai em um orfanato, onde passa a ser espancado pelas outras crianças, crescendo e se sentindo inferior pelos amigos, pois acha que as brincadeiras e provocações feitas por eles menosprezam seu potencial. Então quando ele desperta seu “poder divino” tudo isso transborda, o tornando uma bomba-relógio. Afinal se o poder absoluto corrompe absolutamente, o que ele pode fazer a uma pessoa tão traumatizada e com sentimentos tão negativos dentro de si? O resultado é o que vemos em “Akira”.
Com o tempo, Tetsuo começa a ser consumido pelo poder dentro dele, ao ponto em que essa “força divina” extravasa os limites de seu corpo e toma controle de si mesmo, tornando-o desse poder. Aqui vejo uma reflexão: uma energia que pode ser creditada a Deus ou alguma entidade onipotente, precisa ser respeitada pois a mera consciência humana não pode controla-la sem o devido respeito.
E Akira? Como Nezu diz: ele é a sombra que paira sobre a cidade. Essa “ausência” é proposital e necessária de certa forma. Proposital, pois aos termos Akira como uma sombra, confere a ele um status divino, o ser supremo que não é visto mais é sentido em cada momento, em cada canto. E necessário, pois o mangá estava sendo desenvolvido quando o anime foi feito, exigindo um final diferente. Akira aparece nos momentos finais do longa-metragem animado, sendo invocado por seus amigos paranormais: Takashi, Massaru e Kyoko, para levar Tetsuo e eles para um lugar onde possam viver sem preocupações.
Por isso que é comumente dito que o anime adaptou somente metade da obra original, pois no mangá, Akira é libertado de sua prisão, completamente inteiro, vive entre as pessoas e em um determinado momento, ao ver um amigo sendo morto, libera seu poder avassalador, destruindo a cidade, para depois ser encontrado por Tetsuo, onde vão viver mais algumas situações até o verdadeiro clímax.
Mas independentemente do pouco tempo de tela, quando Akira aparece fica bem claro que ele se tornou mais que uma criança dotada poderes, mas a própria energia criadora do universo, amansando Tetsuo instantaneamente, como se ele não fosse nada. Akira, na minha opinião, se tornou a própria Força Divina, ou se preferir: Deus; enquanto que Tetsuo é seu agente mais poderoso, o Big Bang que dará origem a um novo universo.
E assim, chegamos a outra reflexão filosófica: o homem sempre tentou se igualar ao seu criador, mas será que estamos prontos para abrirmos as portas da onisciência e da onipotência? Será que estamos prontos para liberar 100% da nossa consciência, de nos tornarmos energia pura, como diria Einstein?
“Akira” possui personagens e uma narrativa complexa que fez com que Steven Spíelberg e George Lucas o declararem inviável economicamente nos cinemas fora do Japão. Mas essa complexidade narrativa associada a momentos frenéticos de ação e situações grandiosas que espelham o tamanho do problema ao lidar com forças desconhecidas, tornam o anime instigante.
Essas narrativas mais densas são comuns em animes pois faz parte da sociedade japonesa esse cunho mais filosófico e crítico. Dessa forma, “Akira” hoje cairia no baldão de outras produções animadas da época e atuais. Porém sua narrativa intercala muito bem esses temas com momentos de ação muito bons como poucos animes conseguiram.
Mas além da sua qualidade narrativa, sua qualidade técnica se destaca dos outros animes, o colocando em um patamar que mesmo atualmente, nenhuma animação japonesa ou do mundo conseguiu superar.
Esse primor técnico se deve a obsessão do criador de “Akira”, Katsuhiro Otomo, pela perfeição. O anime idealizado por Otomo custou um bilhão de yenes, cerca de US$ 10 milhões, algo totalmente fora dos padrões orçamentários da época. Mas diante dos rios de dinheiro que a economia japonesa gerava e do potencial da história, os investidores pensaram: por que não?
E esse bilhão de yenes foi bem gasto, pois quando assistimos “Akira” hoje é impressionante como sua qualidade técnica salta aos olhos e bate de frente com muitas animações atuais. Porém, algumas informações, tornam esse anime um ponto fora da curva.
O primeiro ponto é que “Akira” é 100% feito à mão. Então cada detalhe que você vê, como as milhares de janelas nos prédios (que sempre foi algo que me chamou a atenção), foi fruto do trabalho árduo e milhares de horas de cera de 70 animadores, que ficaram conhecidos como Akira Team. Isso resultou em nada mais, nada menos que 160 mil telas de acetato, que era o dobro do que era utilizado em um anime padrão. O grande desafio dessa manufatura foi a sequência em que Tetsuo perde o controle dos seus poderes e se transforma em uma massa amorfa tecno-orgânica.
E o CGI? Existe sim a utilização do CGI, mas para algumas sequências específicas, onde Katsuhiro Otomo achou que se fosse feita à mão, não ficaria realista. As sequências em questão é o aparelho que o Doutor Ōnishi usa para medir o poder de suas cobaias.
“Akira” precisou criar cores que na época não existiam, por causa das cenas noturnas que vemos. Dessa forma o anime utilizou 327 cores, sendo que sessenta foram criadas para o filme animado. O vermelho da moto de Kaneda é um dessas cores e ficou conhecida como vermelho Akira.
Um anime padrão primeiro tem suas cenas desenhadas e depois dubladas, com os dubladores se virando para encaixar as falas. Além disso, para economizar muitas vezes a boca é a única parte que se mexe, com todo o restante ficando estático. Katsuhiro Otomo inverteu esse processo, trazendo primeiro os dubladores para gravarem o roteiro e somente depois os animadores darem vida às cenas e aos personagens. Isso conferiu uma sincronia perfeita entre movimentos labiais e falas, além do fato de que toda a expressão facial dos personagens se movimenta.
Algo que ajudou muito em dar movimento aos milhares de acetatos desenhados e colorizados à mão foi a utilização da técnica Quick Action Recorder, inédita para animações em geral. Essa técnica permitia que os animadores vissem antes do produto final como ficaria a movimentação, podendo assim corrigir possíveis erros e acrescentar coisas. Essa mesma tecnologia permitiu que “Akira” fosse gravado a 24 quadros por segundo, algo que só era utilizado até então em longas-metragens de Hollywood.
A trilha sonora marcante queria estabelecer uma mistura de modernidade com as tradições japonesas, e para isso Shoji Yamashiro utilizou de instrumentos clássicos do Japão e sintetizadores.
Essas e outras particularidades, associadas e narrativa complexa e frenética, fizeram de “Akira” um sucesso absoluto. No Japão ele arrecadou 750 milhões de yenes somente na estreia, praticamente cobrindo o custo de produção. No mundo, o anime gerou US$ 49 milhões, algo sem precedentes, ainda mais quando estamos falando de uma época em que animes eram algo bastante restrito ao território japonês.
Mas além do dinheiro, “Akira” teve um impacto cultural enorme, revolucionando a animação mundial, popularizando o anime no Ocidente, influenciando diversas produções como “Matrix” e definindo muitos dos pilares do Steampunk. Muito se fala de “Ghost in the Shell”, mas o mangá e posteriormente o anime, só se tornariam um marco mundial desse gênero graças a popularidade de “Akira”.
Rompendo com as barreiras culturais e econômicas que o mundo tinha em relação ao anime, e redefinindo e criando pilares, esse anime possui uma qualidade técnica que é insuperável até hoje e sua narrativa frenética e complexa ainda instigam e encantam multidões fãs de animações. Por esse e outros muitos motivos que “Akira” é melhor anime já feito e melhor que já assisti!
Curiosidades e Extras:
- A cena em que Kaneda desliza com sua motona foda demais, é uma das mais copiadas de todos os tempos. A seguir temos um vídeo em que essa sequência foi referenciada em outros animes:
- A seguir o making of original de “Akira”, com áudio em japonês e legendas em inglês.
- E para quem não manja nem de japonês e nem de inglês, temos um making of da produção de “Akira” com legendas em português, exibido no programa “Lanterna Mágica”, da TV Cultura, em 1989.
Ficha Técnica:
Título Original: Akira
Título no Brasil: Akira
Gênero: Anime, Cyberpunk
Duração: 124 minutos
Diretor: Katsuhiro Otomo
Produção: Ryōhei Suzuki, Shunzō Katō
Roteiro: Katsuhiro Otomo, Izo Hashimoto
Elenco: Mitsuo Iwata, Nozomu Sasaki, Mami Koyama, Tarō Ishida, Tesshō Genda, Mizuho Suzuki, Tatsuhiko Nakamura, Fukue Itō, Kazuhiro Shindō, Yuriko Fuchizaki, Masaaki Ōkura, Takeshi Kusao, Hiroshi Ōtake, Masato Hirano, Yukimasa Kishino, Yukimasa Kishino, Kōichi Kitamura, Tarō Arakawa, Yukimasa Kishino, Masato Hirano, Kayoko Fujii, Masami Toyoshima, Yuka Ōno, Kōichi Kitamura, Michihiro Ikemizu, Kazumi Tanaka, Issei Futamata, Yōsuke Akimoto, Kōichi Kitamura, Yukimasa Kishino, Masayuki Katō, Masato Hirano, Taro Arakawa, Michihiro Ikemizu
Companhias Produtoras: Tokyo Movie Shinsha Co., Ltd.
Distribuição: Toho (atualmente é possível assistir na Netflix)
