SINOPSE: Quatro década depois de ter escapado do ataque de Michael Myers em uma noite de Halloween, Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) terá que confrontar o assassino mascarado mais uma vez, mas, quando Myers retorna para a cidade de Haddonfield, ela está preparada.
O título de primeiro slasher do cinema varia de acordo de como se classifica esse tipo de personagem; porém é inquestionável que “Halloween”, de 1978, foi o filme que popularizou e definiu as regras e clichês do gênero.
A franquia ficou por muitos anos nas mãos da Dimension Films, até perdê-la em 2015, quando a Miramax retomou os direitos. Em 2016, foi anunciado que Blumhouse Productions e Miramax financiaram um novo filme, com a Universal Pictures distribuindo-o.
Depois de vários nomes serem cogitados, como Mike Flanagan e Adam Wingard, David Gordon Green foi anunciado como diretor e corroteirista do novo filme da franquia, com John Carpenter retornando como consultor do projeto.
É assim, em 2018, chegou aos cinemas “Halloween”.
A primeira decisão foi que “Halloween” seria uma sequência direta do primeiro filme. Segundo os roteiristas, não fazia sentido reiniciar a franquia, já que o longa-metragem de 1978 funciona tão bem; e ao ignorar as sequências e reboots, por mais que tivessem boas ideias, dava-lhes liberdade criativa para reimaginar para onde a narrativa iria.
Dessa forma, o filme começa 40 anos depois que Michael Myers matou cinco pessoas em Haddonfield, onde Aaron (Jefferson Halloween) e Dana (Rhian Reescrita) tentam entrevista-lo para o podcast de true crime deles. Depois de tentativas fracassadas, Aaron mostra a máscara para Michael Myers em uma tentativa de fazê-lo expressar alguma reação. É nesse momento que “Halloween” resgata e potencializa a ideia que John Carpenter teve ao criar o slasher.
John Carpenter sempre pensou em Michael Myers como o mal em estado puro. Essa inspiração veio principalmente quando ele era estudante na Universidade Western Kentucky e visitou uma ala de pacientes psiquiátricos graves. Lá, ele encontrou um garoto de cerca de 12 anos com um rosto extremamente pálido, completamente sem emoção e com um olhar vazio e assustador. Esse aspecto vazio inspirou a ideia de que Michael não era um homem comum, mas a própria personificação do mal.
A experiência de Carpenter inspirou a descrição que o Dr. Samuel Loomis (Donald Pleasence) fez de Michael Myers ao Xerife Brackett (Charles Cyphers) no filme original:
“Conheci-o há quinze anos; disseram-me que não tinha sobrado nada; nenhuma razão, nenhuma consciência, nenhuma compreensão; e até mesmo o mais rudimentar sentido de vida ou morte, de bem ou mal, certo ou errado. Conheci esta criança de seis anos de um rosto branco, pálido, sem emoção, e os olhos mais negros… os olhos do diabo. Passei oito anos tentando alcançá-lo, e depois outros sete a tentando mantê-lo preso, porque percebi que aquilo que vivia por detrás dos olhos daquele menino era pura e simplesmente… o mal.”
Então, a reação quase imperceptível que Michal Myers tem à menção de sua máscara, de virar minimamente o pescoço, causa uma reação em cadeia nos demais internos que estão tomando banho de sol no pátio junto com ele; quase como se uma aura de algo ruim se espalhasse pelo local, fazendo os demais pacientes entrarem em um frenesi de loucura.
Imagino o impacto que o filme de 1978 deva ter causado nas pessoas que o assistiram na época, pois Michael Myers mata sua irmã quando tinha seis anos; fica internado durante 15 anos, sem nunca dizer uma palavra; e quando consegue escapar, volta a matar.
“Halloween” de 2018 consegue resgatar e potencializar a atmosfera misteriosa e assassina que Michael Myers carrega. Uma cena que sempre me chama a atenção quando revejo esse filme é quando ele mata algumas pessoas dentro de suas casas. Michael está na rua, cheia de pessoas fantasiadas, mas por alguma razão, entra em uma residência e mata uma mulher com um martelo; sai do local, atravessa a rua, vai a outro domicílio e degola outra pessoa.
O que levou Michael Myers a tomar essas decisões? Por que escolher determinadas casas e determinadas pessoas, sendo que ele tinha toda uma rua cheia delas para matar?
Esse mistério é o que faz de Michael Myers o maior slasher do cinema de terror. E esse mistério vem de seu silêncio. Ao nunca ouvir sua voz, milhares de teorias são formadas ao seu redor. Teorias que John Carpenter e David Gordon Green deixam sem confirmação, pois apesar de alguns grunhidos baixos de dor em alguns poucos momentos, Michael não fala; e assim suas ações ficam sem resposta nenhuma.
Jason Voorhees mata por quase ter se afogado quando criança no acampamento e por ver sua mãe sendo decapitada; Freddy Krueger era um assassino de crianças (que depois virou pedófilo) e foi queimado vivo pelos pais da cidade, e que voltou para aterrorizar as pessoas nos sonhos; Leatherface possuía forte deficiência cognitiva e um misto de lealdade e submissão à sua família.
Todos esses slashers tinham algum motivo, mas Michael Myers não tem uma razão. As sequências após o filme original, descartadas para esse longa-metragem, até colocam teorias, mas a verdade é que todas possíveis explicações ficam no campo da conjectura, já que ele próprio não fala e não expressa reações para chegarmos à alguma conclusão. E se ele faz o que faz de acordo com o que veio a ser cogitado em “Halloween: Kills”, sequência desse filme, então Michael Myers é pior que todos os outros slashers, porque ele simplesmente mata por matar.
O silêncio e a forma de Michael Myers se movimentar mecânica, calma e precisa; ganham o toque final especial: a máscara que ele usa: branca e sem expressão, que deixam seus olhos na escuridão, lhe dando um ar ainda maior de mistério e malignidade.
Nick Castle retorna ao papel de Michal Myers 40 anos depois de interpretá-lo no filme original, para as sequências em que o personagem está sem máscara e para gravar os sons de respiração do assassino. Nas demais cenas, James Jude Courtney, que se encaixava no perfil que David Gordon Green buscava: mais de 60 anos, 1,91 m e 91 kg,foi contratado para dar vida ao slasher. O porte físico de Courtney garantia a imponência ameaçadora que Michael Myers possui e os maneirismos do assassino foram criados a partir da fusão da atuação de Nick Castle em 1978 e a adição de movimento felino.
“Halloween” de 2018 trouxe de volta Jamie Lee Curtis para dar vida a Laurie Strode, mas não mais como a final girl indefesa, e sim como uma mulher traumatizada e paranoica que se preparou durante 40 anos para o retorno de Michael Myers. Essa mudança em Laurie Strode é uma novidade em relação a outros filmes desse gênero e em geral, o que confere ao filme uma expectativa enorme para o que aconteceria quando Myers e Strode se encontrassem novamente.
Uma mudança na relação entre Michael Myers e Laurie Strode foi feita para “Halloween” de 2018: a de que eles não são irmãos, ideia introduzida em “Halloween 2”, de 1981 e que passou a ser explorada nas demais sequências e reboots. Os roteiristas sentiram que esse motivo tornava Myers menos assustador, já que davam um propósito a ele e assim, ignoraram intencionalmente esse aspecto da história. No filme, a neta de Laurie, Allyson (Andi Matichak) explica como sua vida foi impactada pela onda de homicídios de Michael 40 anos antes; e quando um amigo insinua que ouviu dizer que Michael era irmão de Laurie, Allyson responde: “Não, não era irmão dela. Isso foi algo que as pessoas inventaram.”
Porém, ao ignorar essa ideia, fico com a sensação de que foi criado um furo em relação ao filme de 1978: por que então Michael Myers ficava espionando Laurie durante o dia de Halloween?
“Halloween” de 2018 tem um total de 17 mortes, muito mais que os cinco assassinatos cometidos por Michael Myers no filme de 1978, o que é ironizado por Dave (Miles Robbins), ao dizer que atualmente acontecem coisas muito piores.
A quantidade maior de mortes além e ser uma regra de uma sequência de filme slasher, serve também para renovar a ameaça que Michael Myers representa nos dias atuais. Mas apesar do número maior, “Halloween” de 2018 não escracha os assassinatos na tela, preferindo mostrar a violência subentendida muitas vezes, como a cena em que Myers deixa cair os dentes de uma de suas vítimas no chão, deixando claro o suficiente o nível de brutalidade que o slasher é capaz de empregar.
Para substituir o Dr. Loomis, “Halloween” de 2018 apresenta o Dr. Ranbir Sartain (Haluk Bilginer), um ex-aluno do psiquiatra de Michael Myers, que ao contrário de seu mentor, tem uma obsessão em descobrir os motivos que levam Myers a fazer o que faz.
“Halloween” de 2018 não trabalha com a violência gráfica como motor narrativo, como costuma ser em filmes slashers, mas visa criar a sensação de tensão e medo nos espectadores, sendo algo que faz de forma perfeita e, para alguns fãs mais fervorosos vai soar como blasfêmia, melhor que o filme de 1978. E para chegar nesse resultado, o longa-metragem foca na figura de Michael Myers e no que se esconde por trás de seus olhos vazios.
“Halloween” de 2018 não foca somente nas mortes brutais que Myers causa, mas em todas as consequências trágicas que ele causa com seus atos assassinos. E nesse ponto, Jamie Lee Curtis está incrível ao mostrar uma Laurie Strode treinada para combate, resultado de seu medo em reencontrar o Bicho-Papão. A final girl de Curtis nesse filme é talvez a mais complexa dentro a vasta lista de filmes slashers.
“Halloween” de 2018 foi um sucesso moderado de crítica; mas um sucesso de bilheteria, arrecadando US$ 260 milhões mundo afora para um custo de produção e marketing de US$ 85 milhões. Isso levou os envolvidos a solicitarem a David Gordon Green a fazer mais dois filmes: “Halloween Kills” e “Halloween Ends”, para encerrar a jornada de Michael Myers nos cinemas.
Em “Halloween Kills”, sequência direta desse filme, o Delegado Frank Hawkins (Will Patton) dá uma explicação sobre Michael Myers fazer o que faz, que ganha um ar sobrenatural no complemento de Laurie Strode; porém o que mais me impacta é ver Myers, ao final dessa continuação, vendo a cidade pela janela do seu quarto; mas me parece que na verdade ele está se observando pelo seu reflexo, tentando ele mesmo se entender dentro de seus olhos negros e vazios.
“Halloween” de 2018 atualizou e potencializou o medo que Michael Myers representa no cinema slasher, mostrando que o mistério que o rodeia é muito mais assustador que fazer jorrar sangue na tela.
Dito tudo isso, é claro que vale muito a pena assistir “Halloween” de 2018; e blasfemando novamente aqui, mas sendo minha opinião sincera, digo que é o melhor filme já feito da franquia!
Ficha Técnica:
Título Original: Halloween
Título no Brasil: Halloween
Gênero: Terror
Duração: 109 minutos
Diretor: David Gordon Green
Produção: Malek Akkad, Jason Blum, Bill Block
Roteiro: Jeff Fradley, Danny McBride, David Gordon Green
Elenco: Jamie Lee Curtis, Judy Greer, Sophia Miller, Andi Matichak, Haluk Bilginer, Will Patton, Rhian Rees, Jefferson Hall, Toby Huss, Virginia Gardner, Dylan Arnold, Miles, Drew Scheid, Jibrail Nantambu, Michael Harrity, Omar Dorsey, Charlie Benton, Christopher Allen Nelson, James Jude Courtney, Nick Castle
Companhias Produtoras: Miramax, Blumhouse Productions, Trancas International Films, Rough House Pictures
Distribuição: Universal Pictures
