SINOPSE: “O Grito: Origens” lança um olhar cru sobre a sucessão de horrores que atinge todos os que entram em contato com a maldição existente na casa. A série é centrada no investigador paranormal Odajima (Yoshiyoshi Arakawa) e na estrela da televisão Haruka Honjo (Yuina Kuroshima), que é assombrada pelos sons perturbadores de passos em seu apartamento no meio da noite. Logo, os dois então se veem atraídos pela icônica casa amaldiçoada.

“Ju-On” é uma das franquias mais populares do J-Horror. Desde sua criação em 1998, por Takashi Shimizu e Rumiko Takahashi, com o lançamento do curta-metragens “Katasumi e 4444444444” (curta mostrado dentro do telefilme “Gakkô no kaidan Gque”), já temos 9 filmes japoneses (entre eles o crossover com a franquia de sucesso “Ringu” (“O Chamado”): “Sadako vs. Kayako”), 4 longas-metragens estadunidenses, vários quadrinhos e até uma jogo para videogame.

Em 2020, chega “O Grito: Origens”, série coproduzida pela NBC Universal Entertainment Japan e pela Netflix; e conforme o trailer: “É baseado em eventos reais… centrados em uma casa particular. Mas o que aconteceu no local foi mais horrível do que se poderia imaginar.”

Mais para frente, vou comentar sobre a frase acima; mas pode-se dizer que “Ju-On: Origens” é sim baseados em eventos reais, mas não da forma como você esteja imaginando.

A primeira coisa que chama atenção em “Ju-On: Origens” é a crueza de como a perversidade humana é mostrada. Situações como a violência sexual sofrida por Kiyomi (Ririka) vista sem filtros, ou o espancamento de uma criança por M (Tokio Emoto), mesmo que nesse caso só se ouça o choro da menininha e os golpes diferidos pelo assassino, servem para evidenciar a maldade inerente ao ser humano; sendo esse o ponto central da série.

Os filmes, sejam os originais japoneses ou os remakes ocidentais, giram em torno da maldição dos fantasmas de Kayako e Toshio, sendo que qualquer pessoa que entra na casa (ou tem contato com alguém que entrou) é inevitavelmente consumida pela maldição.

Em “Ju-On: Origens” o vetor do mal é a energia maligna criada à partir da fúria e sofrimento de uma vítima de um crime hediondo ocorrido na casa em 1952. A mulher, que acabou se transformando em um espírito rancoroso e raivoso, ao contrário de Kayako, não empreende ataques físicos, mas influencia negativamente as pessoas que entraram ou passaram perto dessa residência.

Conhecida como a Mulher de Branco, a maldição que ela e a casa carregam opera aflorando os sentimentos ruins como rancor, ciúme e perversão, amplificando-os a níveis psicóticos, fazendo com que as pessoas percam a sanidade e cometam atrocidades extremas umas contra as outras.

Dessa forma, “Ju-On: Origens” traz uma maldição, em vários aspectos, muito mais perigosa do que a mostrada nos filmes:

  • O poder de agir de forma direta, como no caso de Tetsuya (Kai Inowaki) e sua mãe, Michiko (Nobuko Sendō); ou pode ser insidiosa, como aconteceu com Kiyomi, Yudai (Koki Osamura) e Keiichi (Ryôta Matsushima). 
  • A capacidade de fazer qualquer um enlouquecer e cometer atos terríveis, já que ela aflora e potencializa sentimentos negativos inerentes ao ser humano.
  • Sua avassaladora e gigantesca força de “contaminação”, não precisando que suas vítimas precisem entrar na casa, bastando estar perto dela ou com alguém que adentrou o local.

Dessa forma, para mostrar todas as tragédias que advém da maldição, “Ju-On: Origins” trabalha um lado psicológico muito forte, trazendo sempre uma atmosfera pesada; mas não priva o espectador de cenas viscerais e gráficas, sendo o ápice o assassinato de Chie (Haruka Kubo) pelo marido, Keiichi.

Porém, mesmo crimes mostrados de forma mais sutis, conseguem causar repulsa, como é caso de crime de 1952, que dá início a toda a maldição: Hiroshi Sunada (Yoshiki Urayama), filho do primeiro proprietário da casa, sequestra uma mulher, prende-a no sótão e a abusa sexualmente, deixando-a grávida; que mata seu captor no dia do parto, mas morre em decorrência do seu filho, que desaparece misteriosamente.

Nesse caso, não é mostrado nenhum tipo de violência contra a mulher; porém a simples compreensão de que ela foi sequestrada, mantida presa e violentada por um longo período é de embrulhar o estômago.

E esse crime tão perverso, tão absurdo; explica a força e  malignidade da maldição de “Ju-On: Origins”.

“Ju-On: Origins” possui uma linha narrativa mais linear que os filmes originais, mas também trabalha com visões e até viagens no tempo; que é explicada devido ao colapso do espaço-tempo dentro da casa resultante da força da maldição gerada.

Essas conexões entre o passado e o futuro geram um paradoxo temporal que envolve a Kiyomi da década de 1990 e o filho da mulher mantida em cativeiro em 1952. Dizer que tudo que é mostrado nesses momentos faz sentido logo de cara, seria mentir. Eu mesmo precisei rever a série e pesquisar as possíveis explicações para alguns eventos que acontecem nesse encontro espaço-temporal.

E já que estou falando em conexões, chegou a hora de explicar a questão de “Ju-On: Origens” ser baseada em eventos reais; que não tem ligação com algo paranormal documentado; mas em crimes reais para criar os que são perpetrados pelos personagens na série.

Os crimes e tragédias mostrados ao fundo nas televisões em “Ju-On: Origens” são reais e que chocaram o Japão e o mundo entre as décadas de 1980 e 1990. A seguir, com a ajuda da IA, estão os principais crimes e tragédias anunciados nos noticiários da série e possível relação com a casa.

1. O Assassinato de “Sakura” (Caso Real: Junko Furuta, 1988)

  • O que passa na TV: Um telejornal relata que o corpo de uma adolescente foi encontrado dentro de um tambor de concreto e que três jovens foram presos pelo crime. Na série, ela é chamada de Sakura. 
  • O Caso Real: Uma referência direta ao trágico sequestro, tortura extrema e assassinato de Junko Furuta em 1988, um dos crimes mais cruéis da história do Japão.
  • Relação com a casa: Este noticiário passa exatamente no período em que a estudante Kiyomi é levada à força para a casa amaldiçoada, onde sofre um estupro coletivo planejado por seus colegas. A violência extrema cometida contra as mulheres no mundo real ecoa diretamente dentro das paredes da casa, mostrando que a maldição se alimenta e se manifesta através da perversão humana.

2. O Assassino de Crianças “M” (Caso Real: Tsutomu Miyazaki, 1988–1989)

  • O que passa na TV: O rádio e as televisões mencionam ao longo de alguns episódios a busca e posterior captura do assassino de crianças conhecido como “M”.
  • O Caso Real: Baseado em Tsutomu Miyazaki, um serial killer e canibal japonês que sequestrou e assassinou quatro meninas entre 1988 e 1989.
  • Relação com a casa: A casa de Ju-On é essencialmente um local focado na quebra do ciclo familiar e na violência contra crianças (a origem de tudo envolve o sumiço e morte de bebês e crianças). A presença desse assassino nos noticiários sincroniza o horror que está acontecendo do lado de fora com o horror psicológico sofrido pelos personagens que entram na residência.

3. O Assassinato da Mulher Grávida em Nagoya (1988)

  • O que passa na TV: É anunciado o bizarro e cruel assassinato de uma mulher grávida que teve seu abdômen cortado.
  • O Caso Real: Um crime real não solucionado que aconteceu em Nagoya em 1988, onde o assassino retirou o feto da mãe e colocou um telefone antigo dentro do útero cortado.
  • Relação com a casa: Esta é a conexão mais direta e assustadora da série. A maldição original da casa (que começou em 1952) nasceu quando o proprietário trancou uma mulher grávida no sótão, estuprou-a e, posteriormente, ela foi assassinada e seu bebê desapareceu. Anos depois, em 1995, a maldição faz com que o morador Keiichi Masaki enlouqueça e recrie o mesmíssimo crime, atacando sua esposa grávida e extraindo o feto. Além disso, o telefone da casa é um condutor frequente de desgraças na série.

4. O Ataque de Gás Sarin no Metrô de Tóquio (1995)

  • O que passa na TV: Imagens reais de plantões jornalísticos cobrindo o pânico nas estações de metrô de Tóquio devido a um ataque químico.
  • O Caso Real: O ataque terrorista perpetrado pelo culto apocalíptico Aum Shinrikyo em março de 1995, que liberou gás sarin nas linhas de metrô, matando várias pessoas e ferindo milhares.
  • O ano de 1995 é o auge da podridão e loucura na linha temporal da série (com o arco da destruição da família Masaki e a derrocada final de Kiyomi). A atmosfera de “fim dos tempos” e a malícia invisível do gás que sufoca a população do lado de fora funcionam em perfeita simbiose com a energia invisível e sufocante da maldição que destrói a mente de quem mora na casa.

5. O Assassinato de Kobe (1997)

  • O que passa na TV: Um breve relato ao fundo sobre a cabeça de uma criança que foi encontrada deixada na frente do portão de uma escola.
  • O Caso Real: O terrível caso dos assassinatos infantis de Kobe em 1997, cometidos por um estudante de 14 anos que se autodenominava “Seito Sakakibara”.
  • Relação com a casa: Em 1997, os investigadores sobrenaturais tentam realizar um ritual final para quebrar a maldição, mas falham miseravelmente, resultando em mais mortes brutais dentro da residência. A menção ao crime de Kobe reforça a tese central de Ju-On: Origins: a casa amaldiçoada não opera de forma isolada do mundo; ela é um epicentro ou um reflexo amplificado da maldade pura e da violência que parece brotar espontaneamente na própria sociedade japonesa ao longo das décadas.

Nesse ponto, meu lado nerd, criou três teorias que queria compartilhar aqui.

A primeira teoria e que a série explora amplamente, é que a própria natureza humana possui um lado ruim, maligno; e dessa forma, a casa só alimenta sentimentos negativos levando as pessoas a cometeram atos depravados e insanos.

A segunda teoria é que esses crimes noticiados pela TV, são resultado da maldição da casa, que ao longo de décadas foi se espalhando para além de suas paredes, em um processo de simbiose: alimentando os desejos e sentimentos ruins das pessoas e se nutrindo e se fortalecendo com as tragédias resultantes.

E a terceira teoria é a de que novas maldições estejam surgindo; uma vez que entre as vítimas desses crimes hediondos e tragédias anunciadas pela TV, muitos devem ter morrido alimentados por sentimentos de fúria, frustração e outros.

O final de “Ju-On: Origens” é parecido com o dos filmes, mostrando que a maldição é imparável; como evidenciado no destino de Haruka (Yuina Kuroshima) em 1997, pelas mãos de Hiroshi Sunada; e na fala de Toshiki (Atsuki Yamada), em estado vegetativo, para Kimie (Kana Kurashina). Mas o desfecho da série traz uma novidade mais sombria: de que a força maligna que habita a casa quer se propagar e ser conhecida, como fica bem claro ao vermos o desfecho da história de Yasuo (Yoshiyoshi Arakawa).

“Ju-On: Origins” é a melhor produção entre tantas da franquia “Ju-On”, pois trouxe uma experiência intensa de tensão psicológica e medo, não vindo de jump scares, mas de que o mal apresentado não é fruto de uma casa amaldiçoada, mas da natureza humana; algo que nenhum filme, original ou remake, conseguiu até então.

E dessa forma, por tudo que foi escrito, que digo que vale muito a penas assistir “Ju-On: Origens”!

Ficha Técnica:

Título Original: Ju-On: Origins

Título no Brasil: O Grito: Origens

Gênero: Terror Psicológico, Mistério

Temporada: 1

Número de episódios: 6

Criação: Hiroshi Takahashi, Takashige Ichise

Produção: Takashige Ichise, Mikihiko Hirata, Toshinori Yamaguchi, Kazutaka Sakamoto

Direção: Sho Miyake

Roteiro: Hiroshi Takahashi, Takashige Ichise

Elenco: Yoshiyoshi Arakawa, Yuina Kuroshima, Ririka, Koki Osamura, Seiko Iwaido, Kai Inowaki, Ryushin Tei, Yuya Matsuura, Kaho Tsuchimura, Takemi Fujii, Ryota Matsushima, Haruka Kubo, Shinsuke Kato, Nana Yanagisawa, Atom Shukugawa, Yura Anno, Tokio Emoto, Nobuko Sendo, Kana Kurashina

Companhia(s) produtora(s): NBCUniversal Entertainment Japan, Netflix

Transmissão: Netflix

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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