SINOPSE: Rachel Keller (Naomi Watts) é uma jornalista que decide investigar a misteriosa morte de sua sobrinha. Ela percebe a relação da morte dela e de várias outras mortes com um estranho vídeo, que faz com que todas as pessoas que o assistam morram exatamente sete dias depois. Intrigada com a história, ela agora precisa descobrir um meio que impeça que a profecia se realize, já que ela e seu filho Aidan (David Dorfman) assistiram ao vídeo.

O final da década de 1990 foi um período ruim para o cinema de terror, com o público saturado das fórmulas que vinham sendo utilizadas desde o início dos anos 1980.

Foi então que os estúdios de Hollywood perceberam dois movimentos em relação ao terror no Ocidente: o consumo das pessoas por fitas VHS e DVDs de filmes de horror japonês, trazidos por distribuidoras e oferecidos nas locadoras; e a procura por jogos eletrônicos como “Silent Hill”. O que essas mídias tinham em comum? Elas trazem histórias baseadas no medo do invisível, no desconforto constante e no terror psicológico e abstrato, elementos que eram a assinatura do cinema de terror oriental.

A atenção de Hollywood ao J-Horror no final da década de 1990 é reforçada por uma sincronia cronológica: “Ringu” foi lançado no Japão em 1998, seguido por outros filmes como “Audition” em 1999 e “Ju-On” em 2000; enquanto “Silent Hill” chegava aos consoles em 1999.

Mas o que é o J-Horror?

O J-Horror (rótulo dado às produções cinematográficas japonesas de terror), se caracteriza quase em sua totalidade, por tramas que procuram manter um suspense durante quase todo o filme, evitando provocar sustos consecutivos no espectador, sendo estes pontuais. Outra característica são as criaturas sobrenaturais, que quase sempre são onryō, fantasmas presos ao nosso mundo que possuem um forte desejo de vingança, e que normalmente são mulheres, usando roupa branca (cor da vestimenta fúnebre no Japão), e com cabelos longos cobrindo o rosto.

Então, com a procura pelo J-Horror nas locadoras estadunidenses e a aquisição de games de terror oriental; Hollywood mirou seus olhos para o Oriente e em 2002, a DreamWorks Pictures lançava “O Chamado” nos Estados Unidos, remake do filme japonês “Ringu”, de 1998.

Assistindo o reassistindo hoje não parece novidade, mas se lembrarmos que o terror nos cinemas ocidentais das décadas de 1980 e 1990 era dominado por monstros físicos e sustos rápidos (jump scares), “O Chamado” trouxe uma mudança radical, sendo a primeira diferença em relação ao ritmo narrativo.

Se você assistir “Ringu”, perceberá que “O Chamado” é mais acelerado que seu predecessor oriental, porém possui um ritmo mais lento que os filmes de terror da época. A aposta aqui não é sustos e violência gráfica, mas oprimir o espectador com uma atmosfera pesada e um mistério perturbador que vai sendo desvendado ao longo do longa-metragem.

Existe a cena em que a mãe encontra Katie (Amber Tamblyn) com o rosto distorcido e com uma aparência putrefata, mas isso é mostrado em um flash rápido, o suficiente para vermos, mas não o suficiente para pegarmos os detalhes; a não ser que você pause o filme nesse instante. Porém, essa cena rápida nos cinemas, causou desconforto e curiosidade ao mesmo tempo.

O que quero dizer é que se compararmos essa cena em específico com uma morte de qualquer “Sexta-Feira 13 por exemplo, não temos a violência e o sangue mostrados de forma escrachada; mas o vislumbre de um corpo que foi vítima de alguma coisa que causou um terror tão profundo, que distorceu suas feições e causou uma parada cardíaca fulminante.

Se você assistir ou reassistir “O Chamado” perceberá que cenas como essa que mencionei são raras e só aparecem no terço final do filme. O desconforto não está em sangue vindos de talhos profundos, mas em situações estranhas que vão corroborando a história da fita amaldiçoada: a ligação após ver o VHS, a mosca na gravação que ganha vida, a protagonista que gorfa um eletrodo de EEG, visões estranhas, animais enlouquecidos, etc.

Além desses elementos estranhos sendo mostrados em doses homeopáticas, “O Chamado” traz uma atmosfera opressiva, doente e fria, que foi construída à partir de cenas que variam entre o silêncio prolongado e mudanças bruscas de volume, da trilha sonora minimalista e dissonante criada por Hans Zimmer e da fotografia que dá um aspecto doente e frio ao filme.

O resultado da forma como esses elementos foram usados traz um filme claustrofóbico, mostrando os amaldiçoados por terem visto a fita sendo encurralados lentamente, tendo suas esperanças sendo destruídas devagar, ao longo de sete dias.

O prazo de sete dias em “O Chamado”, tornou a jornada por respostas e soluções de Rachel, Noah (Martin Henderson) e Aidan mais urgente. Essa contagem regressiva foi uma novidade para a época, pois ao contrário dos filmes de terror da época, existia uma data específica deixando o destino das pessoas amaldiçoadas inevitável. Não existia a imprevisibilidade de quando alguém seria assassinado por em slasher, por exemplo; mas essa certeza da morte após o prazo de uma semana, deixava tudo mais tenso à medida que o tempo passava.

Outra coisa que “O Chamado” trouxe de diferente é a falta de respostas ou a descoberta de informações que muitas vezes deixavam o mistério mais misterioso (sim, estou usando um pleonasmo, mas de forma proposital).

Quem fez a fita? Em “Ringu” é dada uma explicação, mas em “O Chamado” não. O motivo para a gravação estranha ser amaldiçoada é explicada, mas não de forma direta e somente no final do longa-metragem.

A revelação de que é Samara (Daveigh Chase) quem causa as mortes de quem assiste a fita só acontece mais para a frente do filme, mas o roteiro mantém uma aura de mistério em torno dela e algumas revelações que vão sendo feitas a seu respeito, levantaram mais questionamentos na época do seu lançamento. Em uma gravação que mostra Samara em um hospital, vemos que ela não dorme, que imagens parecem ser criadas do nada, e a fala dela onde diz que não sabe porque faz mal aos outros e que isso não vai parar, não explica quem ou o que é Samara.

E o final de “O Chamado” também se revelou uma novidade na época em que foi lançado, pois a maldição que é Samara não foi contida ou parada por Rachel e Aidan, pelo contrário, ela continua e para que mãe e filho se salvassem, foi necessário sacrificar outra pessoa.

Aqui é necessário fazer novamente uma comparação com os filmes de terror da época. Tanto Jason Voorhees, Michael Myers e Freddy Krueger eram mortos ou derrotados no filme que tinha sido lançado, pois isso estava no roteiro. O retorno deles para uma continuação se dava por uma decisão comercial que exigia uma solução criativa que desfazia o encerramento anterior.

Em “O Chamado” é revelado que Samara e sua maldição não foram contidas e que a morte grotesca daqueles que assistiram ao filme amaldiçoado vai continuar. Ou seja, o roteiro desse filme determina que o mal não pode ser parado; o que foi na minha opinião, a maior diferença em relação aos filmes de terror que eram feitos no Ocidente.

“O Chamado” recebeu críticas de quem tinha assistido “Ringu”, principalmente pelo ritmo acelerado que o remake adotou quando comparado ao filme japonês; e alguns críticos, muito provavelmente acostumados a fórmula do cinema de terro de época, o acharam entediante. Porém, os espectadores em sua grande maioria deram uma resposta extremamente positiva, que resultou em US$ 249,3 milhões de arrecadação nas bilheterias mundiais para um orçamento de produção de US$ 48 milhões. O longa-metragem permaneceu por quase 15 anos como o remake de terror de maior bilheteria da história, sendo desbancado somente em 2017, por “It: A Coisa”.

Além disso a crítica especializada elogiou muito “O Chamado”, considerando o filme como uma bem-vinda novidade no saturado cinema de terror da época. No Rotten Tomatoes, atualmente o longa-metragem tem 72% de aprovação e nota 7,1/10 no IMDb.

O sucesso de “O Chamado” abriu caminho para remakes de vários outros filmes de terror asiáticos e japoneses como “O Grito” (2004), “Água Negra” (2005), “Pulse” (2006), “Espelhos do Medo” (2008) e muitos outros. Mas seu legado vai muito além dos remakes, aumentando exponencialmente o interesse por filmes e histórias de terror asiáticas originais e a implementação de vários elementos narrativos do terror oriental em produções totalmente ocidentais.

Como disse, para quem assiste ou reassiste hoje “O Chamado” pode achá-lo bem comum; mas isso é fruto de seu próprio sucesso, que transformou o terror psicológico algo atrativo aos olhos do Ocidente; se tornando um precursor e um ícone como “A Bruxa de Blair”, “O Exorcista” e “Halloween”, por exemplo; pois como os títulos citados, sedimentou e popularizou um determinado gênero do cinema de terror e influenciando até os dias atuais diversas produções.

Dessa forma, digo que vale muito a pena assistir “O Chamado”!

Principais Diferenças entre “O Chamado” e “Ringu”

  • Em “Ringu” a entidade se chama Sadako, enquanto que em “O Chamado” ela ganhou o nome de Samara.
  • “Ringu” é mais lento, com a passagem do tempo sendo mostrada mais devagar; e é mais sutil, principalmente na questão dos eventos paranormais que acontecem a medida que os dias passam, com alguns só existindo no remake, como a mosca ou o eletrodo que sai da boca de Rachel.
  • Em “Ringu”, o telefonema após assistir a fita só acontece uma vez e em um local específico. Em “O Chamado”, a ligação ocorre em qualquer lugar, sempre após o VHS ter sido visto.
  • A frase “Sete dias”, dita por Samara em “O Chamado”, não é ouvida em “Ringu”.
  • “Ringu” apresenta Sadako mais parecida com um espírito tradicional do folclore japonês (yurei), enquanto que em “O Chamado”, Samara tem um visual mais marcado por maquiagem e presença física agressiva.
  • Em relação a aparição da entidade, Sadako quase não aparece em “Ringu”, enquanto que Samara tem uma presença maior em “O Chamado”.
  • Em “Ringu” é explicado que Sadako nasceu com poderes paranormais capazes de matar somente com o pensamento. Já em “O Chamado” em nenhum momento é explicado se Samara possui poderes, mas existe insinuações de que existe algo de “errado”.
  • Em “O Chamado”, Samara ficou sete dias viva dentro do poço antes de morrer, explicando porque o prazo dado às pessoas que viram a fita. Em “Ringu”, os sete dias não possuem uma explicação explícita. Aliás, é em “Ringu 2” que ficamos sabendo que Sadako ficou 30 anos viva dentro do poço, sobrevivendo graças aos seus poderes e sua raiva.
  • Em “Ringu”, Reiko (Nanako Matsushima) demonstra uma vulnerabilidade maior, contando bastante com a ajuda do ex-marido Ryuji (Hiroyuki Sanada). Em “O Chamado”, Rachel é mais determinada, investigativa e independente.
  • O desfecho em “Ringu” reforça a responsabilidade coletiva e familiar de passar a maldição, com o sacrifício de um ente querido e próximo de Reiko e Yoichi (Rikiya Otaka). O final de “O Chamado” é mais niilista, com a suposição de que Rachel irá passar a maldição para qualquer um.

Sequências de “O Chamado”

O Chamado 2 (2005)

SINOPSE: Após os eventos que aterrorizaram Rachel Keller (Naomi Watts) e seu filho Aidan (David Dorfman), os dois tentam deixar para trás as lembranças de Samara (Daveigh Chase) e sua fita de vídeo amaldiçoada. Eles se mudam para a pequena comunidade litorânea de Astoria, no estado de Oregon, onde pretendem recomeçar a vida. Porém, após a ocorrência de um crime local que tem uma fita de vídeo envolvida, Rachel descobre que Samara está atrás dela e de seu filho.

Após o sucesso do primeiro filme Hideo Nakata, diretor de “Ringu” e “Ringu 2”, foi chamado para comandar “O Chamado 2”. Porém mesmo Nakata trazendo a fotografia sombria e a ambientação de seus filmes japoneses, falhou em construir a tensão e o mistério tão característico do J-Horror.

“O Chamado 2” abandona toda a estrutura de narrativa lenta dos originais japoneses e mais moderada do primeiro filme, e se volta a um ritmo semelhante aos longas-metragens tradicionais de terror ocidentais, onde somos bombardeados por uma sucessão de eventos, um atrás do outro.

Sem o ritmo lento que criava o mistério e a inevitabilidade da tragédia que vinha dos sete dias, “O Chamado 2” se perdeu completamente, porque também não tem sustos, tão comuns de um filme de terror clássicos; dessa forma não cria nem tensão e nem medo.

O roteiro é bastante confuso, como a explicação nada esclarecedora à respeito das origens e da natureza estranha de Samara.

Tem algumas coisas boas em “O Chamado 2” como a perseguição de Samara a Rachel dentro do poço e a participação de Sissy Spacek, nossa eterna Carrie, como Evelyn.

O Chamado 3 (2017)

No final da década de 2010, Hollywood resolveu revisitar suas franquias de J-Horror, e assim, 12 anos depois chegava aos cinemas “O Chamado 3”. A ideia parecia interessante: como a maldição da Samara se comportaria em um mundo digital; com a gravação amaldiçoada estando disponível no fácil acesso da internet.

E apesar da cena inicial digna de um filme da franquia “Premonição”; “O Chamado 3” começa bem, mostrando o professor Gabriel Brown (Johnny Galecki) encontrando uma das fitas amaldiçoadas e conduzindo um estudo universitário sobre a gravação e Samara. Embora a ideia de migrar a maldição da fita VHS para o formato digital/online seja interessante, a abordagem é rasa, pois não se aprofunda mais nesse tema. O grupo de “investigadores” mais parece um clube tecnológico ou culto genérico, sendo o professor Gabriel a maior prova disso, pois claramente não sabe o que está fazendo.

E então, se não bastasse as ideias da pesquisa científica e a migração da gravação amaldiçoada para o mundo digital serem mal desenvolvidas, elas simplesmente são esquecidas ao longo da trama; para dar lugar a uma investigação sobre o passado da Samara e sua mãe.

E além de mostrar a falta de continuidade com a trama inicial do próprio filme, ele descontinua a história dos filmes anteriores, principalmente “O Chamado 2”, ignorando toda a explicação confusa sobre a origem da Samara, para algo mais terreno e abominável. A partir daí, “O Chamado 3” fica previsível em sua trama e na resolução dos mistérios apresentados.

E o desfecho resolve relembrar do que foi mostrado no começo e mostra a viralização do vídeo amaldiçoado pela internet; o que renderia uma trama muito melhor se fosse desenvolvida ao longo de todo “O Chamado 3”.

Curiosidades

  • Baseada no filme “Ringu”, Samara é um onryō, um tipo de yūrei, que na cultura japonesa, são almas que morreram de forma trágica, violenta ou injusta (como assassinatos, traições ou suicídios) e retornam cheias de ódio, rancor ou ciúme, punindo tanto os responsáveis quanto os desavisados que cruzam seu caminho.
  • O filme original, “Ringu”, é uma adaptação de um livro escrito por Koji Suzuki e publicado em 1991. O livro acabou tendo cinco continuações, “Spiral”, “Loop”, ”S” e “Tide”, além de uma coletânea de contos intitulada “Birthday”.
  • A mudança do nome da entidade de Sadako para Samara veio da história “Compromisso em Samarra“, contada pelo britânico W. Somerset Maugham, onde um homem encontra a própria Morte em um mercado e foge para a cidade de Samarra.
  • A árvore com folhas vermelhas que aparece na cabana é um bordo japonês, cujos frutos se chamam samara; uma coincidência que ajudou no batismo da antagonista no Ocidente.
  • O papel de Rachel Keller foi oferecido inicialmente para Jennifer Connelly, Gwyneth Paltrow e Kate Beckinsale, mas todas recusaram antes de Naomi Watts assumir o personagem.
  • Não há créditos de abertura em “O Chamado”.
  • Alguns frames do vídeo amaldiçoado foram inseridos no próprio filme, de forma subliminar. Além disso, sutis imagens de círculos, nas suas mais diversas formas, estão presentes no decorrer do filme, como no logotipo da DreamWorks, no início.
  • Várias referências visuais a filmes dirigidos por Alfred Hitchcock estão presentes, como “Janela Indiscreta”, “Psicose” e “Trama Diabólica”.
  • O diretor Gore Verbinksi usou um filtro verde-azulado nas filmagens para criar um sentimento de angústia e estranheza, já que a cor geralmente é associada a doença e causas não-naturais.
  • Todos os sets de filmagem eram iluminados de modo que os atores tinham pouquíssima ou nenhuma sombra. A ideia era dar ao público um sentimento inconsciente de que algo estava errado e que as regras racionais de existência estariam sendo quebradas.
  • Ao apertar alguns botões no menu principal do DVD original de “O Chamado”. o disco parava de responder os comandos do controle remoto e a fita maldita era passada inteiramente, sem cortes, não sendo possível pausar ou tirar da sequência, exceto se você desligasse o aparelho. Quando a fita chegava ao fim, podia-se ouvir um telefone tocando na própria televisão, e então o menu voltava ao normal.
  • A campanha de marketing antes da estreia de “O Chamado” consistiu em deixar fitas VHS sem nenhuma identificação nos para-brisas de carros e exibição do vídeo na televisão como se fossem gravações reais e misteriosas, sem aviso de que se tratava de uma propaganda.

Ficha Técnica:

Título Original: The Ring

Título no Brasil: O Chamado

Gênero: Terror

Duração: 115 minutos

Diretor: Gore Verbinski

Produção: Walter F. Parkes, Laurie MacDonald

Roteiro: Ehren Kruger

Elenco: Naomi Watts, Martin Henderson, David Dorfman, Daveigh Chase, Brian Cox, Shannon Cochran, Jane Alexander, Lindsay Frost, Amber Tamblyn, Rachael Bella, Pauley Perrette

Companhias Produtoras: MacDonald/Parkes Productions, BenderSpink

Distribuição: DreamWorks Pictures

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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