SINOPSE: Reunindo-se após a morte trágica de um deles, quatro amigos de faculdade resolvem realizar uma caminhada através dos bosques escandinavos. No entanto, eles acabam se perdendo e percebem que estão sendo perseguidos por um mal antigo que ainda espreita na escuridão.

O Folk Horror, ou Horror Folclórico, vive um forte ressurgimento desde a última década, consolidando-se como um dos subgêneros mais influentes do cinema e da literatura de terror.

Nos cinemas, o Folk Horror ganhou força com os aclamados “A Bruxa”, de Robert Eggers; e Midsommar, de Ari Aster. Na literatura, vive-se um boom de novas obras do gênero, sendo que no Brasil temos lançamentos editoriais inéditos, como a tradução clássica de “O Homem de Palha”, de Robin Hardy, lançado esse ano no Brasil, pela editora O Grifo; e “O Ritual”, de Adam Neville, que chega ao nosso país em 2027 pela mesma editora.

Adam Nevill é um escritor inglês de terror sobrenatural, que ficou conhecido mundo agora por seu livro de Folk Horror, “The Ritual”, lançado em 2011. Seu terceiro romance é bem avaliado e ganhou o Prêmio Britânico de Fantasia, em 2012; e vencedor da Lista de Leitura da Rússia, em 2013.

O que chamou minha atenção e me fez querer assistir “O Ritual” foi o lançamento do livro homônimo no Brasil para 2027, e a enxurrada de críticas positivas que o romance de Adam Neville recebeu após a notícia de sua publicação; pois se fosse pela sinopse e pelo trailer, a adaptação cinematográfica não se destaca muito.

Após um assalto a uma conveniência que resulta na morte de Rob (Paul Reid); Lucas (Rafe Spall), Phil (Arsher Ali), Hutch (Robert James-Collier) e Dom (Sam Troughton) resolvem fazer uma caminhada pela trilha Kungsleden, no norte da Suécia, em memória do amigo morto.

Os problemas para os amigos começam quando Dom machuca o joelho e Hutch sugere atravessar a floresta em vez de seguir a trilha marcada. Esse plot me incomodou porque a decisão partiu de pessoas adultas, que deveriam ser mais responsáveis, e foi tomada por um capricho e não por uma emergência. Ou seja, o gatilho para o que viria a seguir, faz mais sentido quando estamos vendo um filme de terror com adolescentes.

“O Ritual” foi filmado nas montanhas dos Cárpatos, na Romênia, o que ajudou para criar a atmosfera claustrofóbica, opressiva e abandonada que o filme transmite. Fiquei impressionado como a floresta muda de um verde exuberante para árvores secas e galhos pontiagudos, me passando a sensação de que quanto mais dentro os amigos entram, mais corrompida ela se torna.

E esse é o grande trunfo de “O Ritual”: a atmosfera que transmite o perigo por estarem desbravando um local corrompido por algo. Além da própria floresta, existe uma progressão de sinais que segue na mesma medida que os amigos se aprofundam nesse local.

Essa progressão de eventos e a construção dos cenários, até o terço final, são muito bem executados e entregam a atmosfera proposta pela trama de “O Ritual”. Em muitos momentos o filme me lembrou bastante “A Bruxa de Blair”, se fosse filmado sem parecer um found footage. A cabana onde os amigos se abrigam da chuva, os ideogramas nórdicos e os objetos ritualísticos encontrados pela floresta me arremataram diretamente ao longa-metragem da Bruxa de Burkittsville.

Como disse, “O Ritual” consegue prender a atenção com sua atmosfera e sua progressão de eventos, até o terço final. Nesse momento, é revelado um vilarejo onde as pessoas veneram uma divindade ancestral.

Com relação à seita, esperava que despertasse mais medo e desespero, algo parecido ao que vi em “Midsommar”; mas o que foi apresentado é um grupo de pessoas estranhas que não transmite nenhum dos sentimentos ditos.

Mas se a seita e a forma dos integrantes dela agirem se mostrou bem broxante, pelo menos a revelação do que você na floresta salvou o final de “O Ritual”. A criatura cultuada pelos habitantes do vilarejo apesar de não ser nomeado no filme, parece ser Mödr: um filhote bastardo de Loki com uma jötunn. Como todo bom deus antigo que se preze, é egocêntrico e arrogante, necessitando que as pessoas a adorem. Então, se o escolhido se ajoelhar e encostar a cabeça no chão perante Mödr, ela é poupada e recompensada; e caso recuse se prostrar diante dele, é empalado nos galhos das árvores.

O desfecho é uma perseguição do único sobrevivente do grupo de amigos, que foi escolhido por sua enorme culpa, mas não se ajoelhou. O final mostra a limitação de Mödr e revela porque o mundo não tem conhecimento dele.

“O Ritual” apresenta todas as características de uma história de Folk Horror: cenários rurais e isolados, seitas ou comunidades que compartilham crenças rígidas e violentas, rituais ancestrais, o ceticismo que é quebrado diante de situações que desafiam a lógica e a natureza que assume o papel de uma força viva sombria.

Seguir essa cartilha não foi o problema, afinal, às vezes é melhor fazer o básico do que inventar. O problema é a conclusão do filme, que precisava transmitir mais desespero e impotência, ainda mais depois da boa construção de uma atmosfera de mistério e apreensão antes do clímax.

Mas para ser justo, preciso colocar uma boa parcela de culpa nos personagens. Os amigos não possuem carisma e tanto faz se eles morrem ou não. Aliás, o que eles passaram foi merecido, já que tomaram a decisão mais burra possível só para atender as birras de uma pessoa mimada. Do lado da seita, os integrantes até parecem estranhos, mas não assustam com sua aparência e nem com suas atitudes.

Como disse, assisti “O Ritual” mais pela curiosidade em relação ao livro, que só poderei ler em português, daqui um ano; do que realmente pelo filme em si. Admito que vi alguns youtubers e perfis de Instagram voltados para o terror, que falaram muito bem dele; o que me influenciou um pouco a querer vê-lo.

Existem títulos cinematográficos de Folk Horror bem melhores, como “A Bruxa”; “Midsommar”; e o “O Homem de Palha”, de 1973; mas vale a pena assistir “O Ritual”; desde que você desconsidere boa parte do hype que algumas pessoas colocaram em cima e vá sem muita expectativa; e quem sabe, acabe tendo uma ótima experiência.

Ficha Técnica:

Título Original: The Ritual

Título no Brasil: O Ritual

Gênero: Terror Folclórico

Duração: 95 minutos

Diretor: David Bruckner

Produção: Jonathan Cavendish, Richard Holmes

Roteiro: Joe Barton

Elenco: Rafe Spall, Arsher Ali, Robert James-Collier, Sam Troughton, Paul Reid, Maria Erwolter, Hilary Reeves, Francesca Mula, Matthew Needham

Companhias Produtoras: The Imaginarium

Distribuição: Amazon Prime Video

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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