SINOPSE: Minissérie que acompanha a história da Easy Company, o 506º Regimento da 101ª Divisão Aerotransportada, desde o treinamento inicial da equipe, em 1942, até o final da 2ª Guerra Mundial. Com um papel primordial para a resolução do conflito, eles foram uma das unidades de maior sucesso na história militar americana.

Em 1998, estreava nos cinemas, aquele que considero o melhor filme de guerra já feito: “O Resgate do Soldado Ryan”. O longa-metragem dirigido por Steven Spielberg e estrelado por Tom Hanks é amplamente elogiado pelo seu rigor técnico, pelo tom realista, pelo seu retrato gráfico da guerra e pela intensidade tanto dos combates quanto dos dramas dos soldados.

“O Resgate do Soldado Ryan” ganhou dezenas de prêmios, sendo seis Oscars em 1999: Melhor Diretor, Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som; e de forma inexplicável, perdendo na categoria de Melhor Filme para “Shakespeare Apaixonado”. O filme é responsável por renovar o interesse em explorar a Segunda Guerra Mundial tanto no cinema; quanto em outras mídias, como jogos eletrônicos, por exemplo.

Steven Spielberg e Tom Hanks ficaram tão fascinados pelo resultado alcançado em “O Resgate do Soldado Ryan”, que quiseram explorar outras histórias sobre a Segunda Guerra Mundial. E desse interesse, surgiu “Band of Brothers” a melhor série de guerra já feita e uma das dez melhores produções da HBO

“Band of Brothers” estreou em 09 de setembro de 2001. E para comemorar os 25 anos da minissérie, resolvi fazer essa resenha.

“Band of Brothers” é baseada no livro de não-ficção de mesmo nome do historiador Stephen E. Ambrose, que narra a história da Companhia “Easy”, 2º Batalhão, 506º Regimento de Infantaria Paraquedista da 101ª Divisão Aerotransportada, do treinamento ainda em solo estadunidense, a sua participação na Frente Ocidental da Segunda Guerra Mundial, do Dia D à ocupação do Kehlsteinhaus (Ninho da Águia).

Steven Spielberg, tom Hanks e o showrunner, Erik Jendresen usaram “O Resgate do Soldado Ryan” como referência, tanto em termos técnicos e dramáticos, para produzir “Band of Brothes”, o que exigiu extensa pesquisa histórica e incríveis US$ 140 milhões de orçamento, sendo US4 125 milhões para produção e US$ 15 milhões para a campanha promocional.

Na parte técnica, basta assistir “Band of Brothers” para perceber que é tão impressionante quanto “O Resgate do Soldado Ryan”. Ouso dizer que a minissérie até supera o filme de 1998, pois não se percebe nenhuma queda de qualidade nesse quesito ao longo de dez episódios.

A precisão histórica de “Band of Brothers” foi uma das maiores preocupações dos responsáveis. Dessa forma, foram feitas pesquisas adicionais para complementar o livro de Stephen E. Ambrose, que serviu de material-base para a minissérie. Uma fonte bastante utilizada foi a autobiografia do soldado da Easy Company, David Kenyon Webster: “Parachute Infantry: An American Paratrooper’s Memoir of D-Day and the Fall of the Third Reich”, que forneceu uma perspectiva crítica de um soldado de infantaria letrado, que acabou servindo para o roteiro do episódio 8, “The Last Patrol”. Cartas e diários de guerra de soldados do 506º Regimento de Infantaria Paraquedista da 101ª Divisão Aerotransportada foram usados para recuperar a linguagem da época, traduzir os sentimentos imediatos após os combates e conseguir detalhes do cotidiano nos acampamentos.

Além disso, a produção de “Band of Brothers” usaram documentos oficiais como Registros de Unidade, que consistem em relatórios diários oficiais do 506º Regimento de Infantaria Paraquedista da 101ª Divisão Aerotransportada; e a livros de registro de baixas e ordenas de ação, para mapear cronologicamente quem foi ferido, promovido ou morto em combates específicos, como o salto na Normandia (Dia D), a Operação Market Garden e o Cerco de Bastogne.

Mas a maior fonte de pesquisa e inspiração foram os veteranos sobreviventes da Easy Company, como Richard Winters, Bill Guarnere, Frank Perconte, Ed Heffron e Amos Taylor. Seus depoimentos aparecem no início e no fim dos episódios de “Band of Brothers” e seus nomes são só são revelados no último episódio, criando assim um impacto emocional muito forte.

As filmagens duraram cerca de dez meses, principalmente no Aeródromo de Hatfield, em Hertfordshire, Inglaterra. Nesse local, vários cenários foram construídos, incluindo réplicas de 12 cidades europeias, entre elas: Bastogne, na Bélgica; Eindhoven, na Holanda; e Carentan, na França. Para a cena de decolagem dos aviões que levavam os soldados para saltarem no Dia D na Normandia, foi escolhido o Aeródromo de North Weald, em Essex. A vila de Hambleden, na cidade inglesa de Buckinghamshire, foi utilizada para retratar o treinamento do 506º Regimento de Infantaria Paraquedista da 101ª Divisão Aerotransportada. Já a vila de Brienz e arredores, no Oberland Bernês; e o Grandhotel Giessbach serviram para ambientar a cidade de Berchtesgaden e o Kehlsteinhaus.

Para a fidelidade histórica dos soldados e tropas mostradas, “Band of Brothers” se destaca como um dos maiores, se não o maior figurino fiel da história da TV; sendo comprados e alugados cerca de 2.000 uniformes militares autênticos. Além disso, foram encomendados mais de 1.200 pares de botas de salto de paraquedista da época e cerca de 500 armas reais e réplicas exatas. O ator e veterano condecorado do Corpo de Fuzileiros Navais na Guerra do Vietnã Dale Dye, que interpreta o Coronel Robert Sink, convenceu Spielberg e demais produtores de “Band of Brothers” a colocar todo o elenco que representava os soldados do 506º Regimento de Infantaria Paraquedista da 101ª Divisão Aerotransportada em um treinamento básico de dez dias no Campo Militar de Longmoor em Hampshire e outro de paraquedismo na RAF Brize Norton. Dessa forma, os atores acordavam às 5h da manhã, corriam quilômetros carregando equipamentos pesados, aprenderam táticas de combate e eram chamados apenas pelos nomes de seus personagens.

Essas e outras decisões culminaram no que se vê quando assiste em “Band of Brothers”: um espetáculo grandioso e único para a TV e streaming, mesmo tendo se passado 25 anos já; que retrata com um realismo que encanta e assusta ao mesmo tempo, as mazelas e o terror dos soldados que lutaram essas batalhas para derrubar o Terceiro Reich.

E já que estamos falando em batalhas, devo dizer que todas as mostradas em “Band of Brothers” são impactantes, com um peso absurdo. Recentemente, falei que quando temos batalhas sendo mostradas em cena, é necessário sentir o peso das mesmas, e que muitas vezes esse impacto é um mix da parte visual e da parte sonora.

Para a parte visual, “Band of Brothers” apresenta um realismo cru, com uso de câmeras na mão, colocando o espectador no meio do caos; baixa abertura de obturador, criando um efeito tremido e explosões pixelizadas; e uma paleta de cores dessaturada:, com tons frios e cinzentos nas sequências de guerra, passando uma sensação de fadiga e desolação.

A edição e a mixagem de som de “Band of Brothers” realizou sessões massivas de gravação de campo, onde capturaram os sons exatos de armamentos reais da Segunda Guerra Mundial em diferentes ambientes. Junte a isso, o belíssimo trabalho de equilibrar a enorme quantidade de efeitos sonoros como explosões, tiros de artilharia, aviões, com a clareza dos diálogos dos soldados em meio ao caos do combate.

O resultado de todo esse esmero na parte visual e sonora é reconhecido como um marco histórico televisivo, trazendo um nível de realismo e imersão, principalmente sonora, só visto no cinema.

E de todas as batalhas mostradas em “Band of Brothers”, a de Bastogne é com certeza a mais impactante de todas. Esse confronto foi crucial no front das Ardenas travado entre 20 e 27 de dezembro de 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, onde cerca de 10 soldados estadunidenses, com destaque para 101ª Divisão Aerotransportada; se viram cercados por 54.000 homens alemães, que contava com algumas das divisões mais bem treinadas do Reich Alemão, como a 26ª Divisão Volksgrenadier, a Divisão Panzer Lehr e a 2ª Divisão Panzer.

Lembro que quando assisti a “Band of Brothers” pela primeira vez, tinha um home theater acoplado ao DVD, e quando chegou no episódio da Batalha de Bastogne, foi algo impressionante, comparado à primeira meia hora de “O Resgate do Soldado Ryan”. Os flashes das explosões, o som das mesmas que vinham da artilharia pesada dos alemães, o cenário desolador e gelado da floresta; tudo aquilo ficou gravado na minha mente e até hoje lembro com espanto, admiração e terror por retratar um combate tão brutal e desigual entre exércitos.

Pesquisando sobre minissérie me deparei com o trabalho hercúleo para recriar o cerco de Bastogne. Foram utilizados pinheiros reais que foram fixados no chão do hangar do Aeródromo de Hatfield, para dar a textura e o aroma natural de uma floresta. Somou-se 250 árvores artificiais que foram construídas com casca de árvore de verdade colada para garantir o máximo de realismo. Essas árvores falsas foram criadas para as cenas de bombardeio, onde elas explodiam e se despedaçavam de forma controlada e segura para os atores. No núcleo delas tinham cargas pirotécnicas controladas e lascas feitas de cortiça leve, espuma e papelão, que quando estruídas simulavam os estilhaços letais que aconteceram na guerra real. Para completar a ilusão, toda essa floresta interna foi coberta com cerca de 150 toneladas de neve artificial.

Mas o que faz de “Band of Brothers” tão especial não é somente a primorosa quase irretocável parte técnica, mas a combinação dessa com o drama humano profundo que ela transmite. A recriação do que o 506º Regimento de Infantaria Paraquedista da 101ª Divisão Aerotransportada passou na Segunda Guerra Mundial só se mostra uma história perfeita porque retrata de forma contundente e emocionante a jornada dos soldados que fizeram parte dele.

“Band of Brothers” significa literalmente “banda de irmãos” ou “grupo de irmãos”. Essa expressão que dá nome à minissérie e ao livro de Stephen E. Ambrose tem origem na frase no Discurso do Dia de São Crispim, na peça Henrique V (1599), de William Shakespeare: “We few, we happy few, we band of brothers” (em tradução livre: “Nós poucos, nós felizes poucos, nós bando de irmãos”). Na obra, o rei inglês encoraja seus soldados antes da Batalha de Agincourt, afirmando que aqueles que lutassem e derramassem sangue ao seu lado se tornariam seus irmãos para sempre.

E é disso que “Band of Brothers” se trata: que os soldados, que eram desconhecidos entre si até o alistamento e o treinamento inicial, se tornam bandos de irmãos à medida que as batalhas sangrentas da Segunda Guerra Mundial vão forjando laços inquebráveis entre eles.

Acho difícil assistir a “Band of Brothers” e não se conectar com os soldados do 506º Regimento de Infantaria Paraquedista da 101ª Divisão Aerotransportada. A minissérie vai mostrando de forma progressiva e bastante coesa, homens que iniciam sua jornada encantados e esperançosos por irem a uma guerra contra o Grande Vilão do Século XX, onde o brilho em seus olhos e a ambição de conquistarem grandes feitos, de se tornarem heróis, é o que os motiva. Mas à medida que um conflito do porte da Segunda Guerra Mundial cobra seu preço, em sangue, sofrimento e dor; esses mesmos soldados perdem a esperança inclusive de voltarem vivos, onde a morte os espera a cada momento e a recompensa é se tornar uma estatística brutal e inclemente. Diante de um cenário desses, a amizade entre eles é o que lhes dão forças, pois muitas vezes, o que resta para eles é somente isso: uns aos outros.

Li uma vez que nenhum laço de amizade é mais poderoso do que aquele forjado no campo de batalha. E é justamente sobre isso que “Band of Brothers” trata: de pessoas e dos sentimentos que eles sentem e exprimem ao longo de anos de conflitos e mortes.

Mas “Band of Brothers” não trata só de sentimento tristes como “Nada de Novo no Front”, mas de momentos alegres onde os soldados se divertem, sorriem, se inspiram e inspiram uns aos outros.

Toda vez que assisto a “Band of Brothers”, me sinto inspirado pela liderança do Major Richard “Dick” Winters (Damian Lewis), me divirto com as travessuras do Técnico de 4ª Classe George Luz (Rick Gomez), de me contagiar pelo companheirismo do Segundo-Tenente Carwood Lipton (Donnie Wahlberg), por exemplo.

Cada personagem traz sua carga emocional que vai mudando a cada episódio, e cada um deles consegue me cativar a ponto de querer fazer parte desse grupo de soldados, desse grupo de irmãos.

Sorrir, rir, se revoltar, se solidarizar, se entristecer, chorar. São tantas emoções que sinto ao longo dos episódios e às vezes no mesmo episódio, que fico encantando como “Band of Brothers” é mais que uma minissérie, mas um estudo, uma fotografia vívida de um evento tão extremo que é a guerra, que testa e quebra a humanidade dos soldados; mas é capaz de recompor essa mesma humanidade quando esses mesmos soldados estão unidos, quando são irmãos.

Chorei em muitos momentos, seja por tristeza, por revolta; mas também de alegria, principalmente no final, quando o Major Winters informa aos seus soldados que a Segunda Guerra Mundial acabou e que eles vão voltar para casa. A separação é iminente, mas eles jamais estarão sós, pois o que foi forjado entre esses soldados é mais forte que qualquer obstáculo. O que foi forjado é irmandade.

“Band of Brothers” merece todos os prêmios e elogios que recebeu e recebe até hoje. Merece estar no local de destaque que conquistou com méritos entre as melhores produções para a TV, streaming, e até mesmo do cinema, de todos os tempos.

“Band of Brothers” é mais que tiros, explosões, sangue e morte. É resiliência, esperança, alegria; que vem do espírito criado entre o bando de irmãos.

Se vale a pena assistir “Band of Brothers”? Nem preciso responder a essa pergunta.

Mas vou responder mesmo assim. Vale demais assistir “Band of Brothers”!

Ficha Técnica:

Título Original: Band of Brothers

Título no Brasil: Band of Brothers

Gênero: Drama de Guerra

Temporadas: 1

Episódios: 10

Criadores: Steven Spielberg, Tom Hanks

Produtores: Steven Spielberg, Tom Hanks, Gary Goetzman, Tony To, Erik Bork, Erik Jendresen, Stephen E. Ambrose, Mary Richards

Diretores: Phil Alden Robinson, Richard Loncraine, Mikael Salomon, David Nutter, Tom Hanks, David Leland, David Frankel, Tony To

Roteiro: Erik Jendresen, Tom Hanks, John Orloff, E. Max Frye, Graham Yost, Bruce C. McKenna, Erik Bork

Elenco: Kirk Acevedo, Eion Bailey, Michael Cudlitz, Dale Dye, Dexter Fletcher, Rick Gomez, Scott Grimes, Colin Hanks, Frank John Hughes, Damian Lewis, Ron Livingston, James Madio, Ross McCall, Neal McDonough, Rene L. Moreno, David Schwimmer, Matthew Settle, Douglas Spain, Richard Speight Jr., Shane Taylor, Donnie Wahlberg, Rick Warden, Marc Warren, Nicholas Aaron, Doug Allen, Jamie Bamber, Philip Barantini, George Calil, Ben Caplan, Michael Fassbender, Craig Heaney, Nolan Hemmings, Peter Youngblood Hills, Mark Huberman, Robin Laing, Mark Lawrence, Matthew Leitch, Rocky Marshall, Tim Matthews, Peter McCabe, Phil McKee, David Andrews, Bill Armstrong, Jonie Broom, Doug Cockle, Alexis Conran, Dominic Cooper, Marcos D’Cruze, Tony Devlin, Jimmy Fallon, Simon Fenton, Iain Fletcher, Tom George, Ezra Godden, Stephen Graham, Luke Griffin, Tom Hardy, Matt Hickey, Andrew Howard, Nigel Hoyle, Lucie Jeanne, Corey Johnson, Marc Ryan-Jordan, Wolf Kahler, John Light, Joseph May, James McAvoy, Stephen McCole, Hugo Metsers, Benjamin Montague, Hans Georg Nenning, David Nicolle, Kieran O’Brien, Rebecca Okot, Jason O’Mara, Peter O’Meara, Oscar Pearce, Simon Pegg, Ben Peyton, Andrew Lee Potts, Dave Power, Luke Roberts, Iain Robertson, Toby Ross Bryant, Bart Ruspoli, Alex Sagba, Simon Schatzberger, Andrew Scott, Graham Seed, Adam Sims, Anatole Taubman, Stephen Walters, Jack Wouterse, Paul Williams, Jonathan Young

Companhias Produtoras: Playtone, DreamWorks Television, HBO Entertainment

Transmissão: HBO Max

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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