SINOPSE: O Príncipe Adam (Nicholas Galitzine), caiu na Terra quando criança. Guiado pela Espada do Poder após 15 anos, ele retorna ao seu reino natal, Eternia, sob o domínio do cruel Esqueleto (Jared Leto). Ele deve aceitar seu destino como He-Man e salvar seu planeta.

No final da década de 1970, Mark Ellis, diretor de marketing da Mattel teve a ideia de lançar a própria linha de brinquedos da empresa. Várias ideias foram colocadas na mesa, até que em 1982 foi lançado a linha de brinquedos “Masters of the Universe”. Ellis estava confiante no sucesso de vendas dos bonecos, mas achou que faltava alguma coisa.

Dessa forma, a Mattel encomendou uma série em quadrinhos para mostrar a história dos bonecos, mas ainda estavam preocupados com o fato de terem crianças que não sabiam ler. Dessa forma, foi desenvolvida um desenho animado, para promover a linha de brinquedos. Após a recusa de vários estúdios de animação, entre eles o Hanna-Barbera, a Filmation aceitou produzir “He-man and the Masters of the Universe” (no Brasil, conforme dublagem original, ficou “He-Man e os Defensores do Universo”).

“He-Man e os Defensores do Universo” se tornou um dos desenhos animados mais populares da década de 1980, chegando a ser exibido em 152 emissoras nos Estados Unidos e em mais de 30 países, em 1985.

Em 1987, “Mestres do Universo” chegava aos cinemas, estrelado por Dolph Lundgren como He-Man e Frank Langella como Esqueleto. O live-action não foi bem recebido pelo público se tornando um fracasso comercial. À partir daí vários rumores sobre um reboot circularam, com projetos sendo anunciados e paralisados, deixando um novo filme de “He-Man e os Defensores do Universo” preso no limbo do desenvolvimento de Hollywood.

Uma nova adaptação ficou nesse limbo por quase 40 anos, até que em 2024, chegou o anúncio de que um novo filme seria produzido pela Amazon MGM Studios e Mattel Films. E assim, chegou aos cinemas esse mês “Mestres do Universo”.

O filme começa com o príncipe Adam falando de Eternia, planeta onde existem todas as coisas das lendas e histórias de dormir e onde se localiza o Castelo de Grayskull, que guarda segredos que podem dar a uma pessoa os poderes de um deus. Então vemos o jovem Adam (Artie Wilkinson-Hunt), de apenas 10 anos, treinando com Teela (Eire Farrell), sob a tutela do Mentor Duncan (Idris Elba), onde acaba sendo confrontado pelo seu pai, o Rei Randor (James Purefoy). Então, começa uma invasão ao castelo real pelo exército do Esqueleto (Jared leto). Combates violentos se iniciam, com destaque para Duncan no mano a mano contra Mandíbula (Sam C. Wilson), que acaba derrotado. Para proteger o pequeno Adam e a Espada do Poder, a Rainha Marlena (Charlotte Riley) e a Feiticeira (Morena Baccarin) o enviam para a Terra, planeta-natal de sua mãe. Quinze anos se passam e vemos Adam, agora adulto, vivendo uma vida comum na Terra e em busca da Espada do Poder, que ele perdeu quando caiu no nosso planeta.

E então, à partir desse momento, “Mestres do Universo” vira uma verdadeira galhofa que se estende até o final do filme.

Iniciei o filme empolgado, tanto pela nostalgia quanto pela sequência inicial mostrando a invasão do Esqueleto à Eternia, com ótimas cenas de ação e um nível de violência que passa bem longe do que existia na série animada da década de 1980. Então, essa empolgação foi virando indignação à medida que o filme resolveu focar na comédia que beira a idiotice. Porém, no meio do segundo terço para o final do longa-metragem minha indignação andava lado a lado com o sentimento de diversão.

Tenho visto muitas pessoas, principalmente aquelas que assistiram à série animada revoltados com o que o viram nos cinemas. Mas quando comecei a pesquisar para fazer a resenha e assisti a alguns episódios do desenho, posso dizer que “Mestres do Universo” ou se mantém fiel ao que foi exibido lá na década de 1980 ou faz uma paródia de determinada característica ou elemento existente em “He-Man e os Defensores do Universo”.

Vamos começar falando da violência existente em “Mestres do Universo” que apesar de não ter sangue, é bem sugestiva, como o empalamento de He-Man em determinado momento do filme. O desenho animado sofreu severas limitações devido a censura existente na televisão estadunidense da época. Para que “He-Man e os Defensores do Universo” pudesse passar foram necessárias algumas mudanças na ideia original, como a troca de humanos por robôs compondo a infantaria do Esqueleto, permitindo assim que He-Man e seus amigos pudessem meter a “porrada”. Quando a luta era contra outra pessoa ou monstro, os socos e chutes foram substituídos por golpes de luta livre e arremessos ao ar. E por mais que o campeão de Grayskull postasse uma espada, o personagem não a usava em combate corpo a corpo.

Dessa forma, mostrar combates mais físicos e com certa dose de violência foi uma forma de criticar a censura imposta a tv estadunidense na década de 1980 e também uma forma de fazer justiça, afinal estamos falando de guerreiros com força e poderes fora da escala normal.

E a não ser que seja birra pura pelo filme, não dá para reclamar dessa parte, pois os combates corpo a corpo são empolgantes e muito bem conduzidos. Logo no começo, a porradaria entre Duncan e Mandíbula já dão um gostinho do cuidado dos realizadores de “Mestres do Universo” com essas sequências. O ápice na minha opinião é quando He-Man invade a Montanha da Serpente e luta com vários capangas do Esqueleto ao mesmo tempo, com distribuição de porrada para todos lado e um nível de violência que supera a mostrada nos filmes da Marvel.

Agora, o mais impressionante é o quanto “Mestres do Universo” é visualmente fiel a “He-Man e os Defensores do Universo”. Tirando algumas exceções, como o visual da Feiticeira e a armadura do Duncan no filme, que quando comparada com a animação mais parece um cospobre, todo o restante está igual ao que vi no desenho animado.

He-Man, Teela, Mekaneck, Fisto, Aríete e Roboto (mais para o final do filme) estão idênticos aos personagens mostrados no desenho animado. Agora, são os vilões que ganharam um upgrade muito legal. Além de manter a identidade visual, os realizadores de “Mestres do Universo” trataram de torná-los assustadores. Homem-Fera virou um monstro que lembra fácil um lobisomem de filme de terror, por exemplo; mas Mandíbula se destaca, pois apesar de manter a aparência da série animada, ele ter dentes humanos à mostra o aproxima de uma criatura saída de um pesadelo.

Uma das grandes críticas de toda adaptação live-action é a falta de fidelidade visual com o material original (e não escalarem The Rock ou Jason Momoa para viverem o super-herói musculoso). Em “Mestres do Universo” essa reclamação não tem como existir, pois como disse, tirando algumas coisas, tudo remete ao desenho animado da década de 1980 nos mínimos detalhes.

A trilha sonora de “Mestres do Universo” é outro ponto positivo, com direito a uma palhinha da música-tema original, mas principalmente a música criada para esse live-action. E sim, “What’s Up” da banda 4 Non Blondes está presente no filme.

Quanto a narrativa, ela conta uma história de origem e não há o que reclamar aqui, pois não existe uma história de origem do He-Man no desenho animado, já mostrando Adam  como o Homem Mais Poderoso do Universo e Defensor dos Segredos de Grayskull.

Mas e quanto ao humor existente em “Mestres do Universo”? A comédia existente deixa esse live-action mais galhofa que “Guardiões da Galáxia” e transforma os personagens em patetas. As piadas e situações “vergonha alheia” vão acontecendo uma atrás da outra e em alguns momentos, quebrando totalmente o clima de aventura que está em curso. E o melhor exemplo da minha afirmação é o combate final entre He-Man e o Esqueleto, com direito a caras e bocas sendo feitas em slow motion.

Esse humor a princípio parece totalmente deslocado, mas quando lembramos do desenho animado e das restrições imposta pela censura da época, percebi que ele faz sentido. “He-Man e os Defensores do Universo” me parece bem idiota quando o assisto hoje, então como emular esse sentimento em um live-action se não com uma comédia que transforma os personagens em patetas e deixam as situações bizarras.

Até mesmo o Esqueleto não escapa disso, mas é uma forma de manter o personagem fiel ao material original, que não podia ser vilanesco demais na época de 1980; então o antagonista do He-Man no filme faz piadas bestas e cria situações idiotas, igual ao que via no desenho animado.

Aliás, vale destacar que o Esqueleto é a melhor coisa de “Mestres do Universo”, tanto visualmente quanto sua personalidade. Com uma combinação de efeitos práticos (o figurino e maquiagem) e CGI (usado para criar o rosto do vilão), sua aparência remete à aparência do clássico vilão da década de 1980, mas o moderniza também. E a atuação de Jared Leto associado ao roteiro trazem um personagem egocêntrico, prepotente e caricato. Como li um comentário no Instagram e acabei concordando: Esqueleto está um divo.

Mas vamos retornar ao humor existente no filme. Como disse no começo, inicialmente estava indignado com o que estava vendo, porém, mais ou menos da metade para o final, sentia um misto de indignação e diversão. Era algo como “Não acredito nisso que estou vendo”, mas rindo e me divertindo.

As piadas são bobas, como a do Roboto dizendo que se sente exposto por ser transparente e as pessoas colocarem as mãos na cintura e rirem, como acontecia no desenho; e as situações vexatórias são frequentes, mas tudo isso é proposital para relembrar o que acontecia em “He-Man e os Defensores do Universo”. E por mais indignação que sentisse, comecei a me divertir muito com essa vergonha alheia.

Porém o futuro de “Mestres do Universo” está em xeque devido ao seu desempenho nas bilheterias. As últimas informações é que o live-action arrecadou apenas US$ 87 milhões mundialmente. Diante de um orçamento de produção estimado em cerca de US$ 170 milhões a US$ 200 milhões, o filme se mostra um fracasso comercial, já que precisaria faturar entre US$ 400 milhões e US$ 500 milhões para cobrir os custos e gerar lucro.

Essa bilheteria é tanto fruto da rejeição das pessoas que assistiam o desenho animado e queriam algo mais super-heróico, quanto ao baixo apelo em captar novos espectadores com uma animação que nunca fez parte da infância deles.

Os planos da Amazon MGM Studios era iniciar uma franquia e uma das cenas pós-créditos deixa em aberto o espaço para uma certa Princesa do Poder e o surgimento do mentor do Esqueleto. E dependendo da performance de “Mestres do Universo com o aluguel digital e a procura na Amazon Prime Vídeo e MGM+, um segundo filme possa ainda vir a acontecer.

Visualmente, é o live-action mais fiel em relação ao material original que já vi. Acrescente a isso, ótimas cenas de ação, um Esqueleto inspirado e um humor que tem a intenção de transformar esse live-action em vergonha alheia, e o resultado é que me revoltei e me diverti em medidas iguais. Concluindo: “Mestres do Universo” é tão ruim que é bom, e é por isso que vale a pena assistí-lo.

Ficha Técnica:

Título Original: Masters of the Universe

Título no Brasil: Mestres do Universo

Gênero: Super-Herói, Fantasia, Comédia

Duração: 140 minutos

Diretor: Travis Knight

Produção: Todd Black, Jason Blumenthal, Robbie Brenner, DeVon Franklin

Roteiro: Chris Butler, Aaron Nee, Adam Nee, David Callaham

Elenco:

Nicholas Galitzine, Artie Wilkinson-Hunt, Camila Mendes, Eire Farrell, Idris Elba, Jared Leto, Alison Brie, James Purefoy, Charlotte Riley, Morena Baccarin, Jóhannes Haukur Jóhannesson, Jon Xue Zhang, Sam C. Wilson, Sasheer Zamata, Christian Vunipola, Christiaan Bettridge, James Wilkinson, Kojo Attah, James Apps, Hafþór Júlíus Björnsson, Stephen Adentan, Arun Bassi

Companhias Produtoras: Metro-Goldwyn-Mayer, Mattel Studios, Escape Artists

Distribuição: Amazon MGM Studios, Sony Pictures

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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