SINOPSE: Após matar os últimos assassinos de sua família, Frank Castle (Jon Bernthal) tenta abandonar sua guerra contra o crime e viver em paz. No entanto, seus planos são interrompidos quando a matriarca do crime Ma Gnucci (Judith Light) coloca um preço por sua cabeça, atraindo assassinos e o forçando a lutar para sobreviver e proteger um bairro tomado pela violência.
Em 2015, a Netflix em parceria com a Marvel, lançava a série do “Demolidor”, que se tornou uma das mais vistas na plataforma da Tudum. Em 2016, na segunda temporada da série do Demônio de Hell,s Kitchen, Frank Castle foi introduzido. Sua participação foi tão bem recebida que a Netflix bancou uma produção do personagem.
E em 2017, “Justiceiro” chegava na Netflix e o sucesso de audiência foi absurdo, rivalizando em números com “Demolidor”. Mesmo com notas ruins no Rotten Tomates e Metacritic, a série do anti-herói gerou mais de 24 milhões de visualizações no primeiro trimestre de 2019.
Porém, assim como “Demolidor”, “Justiceiro” foi cancelada após duas temporadas devido ao fim do acordo da Netflix com a Marvel. Em 2025, a Marvel Television trouxe de volta o Homem Sem Medo e junto com ele, Frank Castle, em uma participação especial poderosa e impactante.
Esses poucos minutos de Frank Castle em “Demolidor: Renascido”, foram suficientes para que os espectadores quisessem mais. E assim, esse ano, chegou ao Disney+, o especial “O Justiceiro: A Última Morte”.
A primeira coisa que vale ressaltar em “O Justiceiro: A Última Morte” é que não é uma série, mas um especial de cinquenta minutos. Minha opinião é que cabia uma duração maior, algo em torno de 90 minutos, dentro do que esse especial propõe, sem perder o ritmo.
“O Justiceiro: A Última Morte” possui dois momentos bem distintos: o primeiro que mostra o conflito mental e emocional de Frank Castle após matar os assassinos de sua família e a outra parte, de ação violenta e frenética.
A primeira metade do especial mostra Frank Castle sem rumo, uma vez que sua jornada de vingança terminou com a morte dos integrantes da família Gnucci. Então, sem um propósito e lidando com seu luto que não foi amenizado com a morte dos algozes de sua esposa e filhos, Castle enfrenta seu maior inimigo: a solidão.
E aqui fiquei com a forte impressão que Frank Castle sempre soube que isso aconteceria: que mesmo levando sua vingança à cabo, não diminuiria sua dor pela perda daquela que mais amava. Na cena emocionante do cemitério, onde ele visita o túmulo de sua esposa e filhos, vemos que sua solidão e tristeza são ainda maiores agora que não há quem caçar.
Então, depois de visitar os túmulos de sua esposa e filhos, Frank Castle resolve voltar para seu apartamento. Nesse momento, acaba sendo abordado por Ma Gnucci, explicando que entende sua solidão e dor, pois sente a mesma coisa.
Ma Gnucci explica que sua família também foi assassinada; e sabe que a vingança não acabará com seu sofrimento, mas é tudo que lhe resta. Então informa que colocou uma recompensa em dinheiro para quem matar a pessoa que ceifou a vida de seus filhos, e que exatamente as 18:47, todos os bandidos da região irão caçar o assassino, o carrasco da família Gnucci: Frank Castle.
Mas apesar da ameaça, Frank entra em seu apartamento, resignado, esperando que o matem e assim acabar com seu sofrimento. Mas ao ouvir vizinhos e pessoas inocentes sendo atacados, roubados e sendo vítimas de crimes piores, Castle libera toda sua fúria e parte para sentar a porrada na bandidagem.
A associação é instantânea dessa parte do especial com “John Wick”, principalmente o terceiro filme, onde o Baba Yaga é excommunicado e tem sua cabeça colocada a prêmio pela Alta Cúpula. Porém, a ação visceral e suja apresentada em “O Justiceiro: A Última Morte” me lembrou muito “The Raid” ou “Operação Invasão”, longa-metragem de ação indonésio e um tão bom quanto qualquer produção da franquia “John Wick”.
Fiz a associação de “O Justiceiro: A Última Morte” com “The Raid”, não somente porque parte da pancadaria se passa em apartamentos e corredores de um prédio, mas porque existe uma coreografia mais ágil que aproxima essas sequências de ação do filme indonésio. Uma justificativa para isso talvez resida em Jon Bernthal que apresenta uma agilidade maior, e é bem menos desengonçado, que Keanu Reeves.
Mas independentemente das associações, a segunda metade de “O Justiceiro: A Última Morte” é frenética, com sequências de ações empolgantes, bem coreografadas e bastante violentas. E foi nesse ponto que entendi por que fazer um especial, já que pelo tempo de duração, ele poderia aparecer como um episódio da segunda temporada de “Demolidor: Renascido”.
“Demolidor: Renascido” tem uma classificação indicativa para maiores de 18 anos no Brasil (TV-MA nos EUA), o que permite alta carga de violência e conteúdo explícito; mas “O Justiceiro: A Última Morte” me pareceu muito mais brutal. Então apartar as histórias faz sentido, para “O Justiceiro: A Última Morte” não precisar ser contida nesse ponto.
Falando agora do aspecto técnico, a ação é brutal e sem freio vista em “O Justiceiro: A Última Morte” foi feita com efeitos práticos. Além disso, John Bernthal fez todas as sequências de porradaria e tiroteiro, inclusive a que Frank Castle tem as pernas em chamas. Isso imprimiu à essas sequências uma visceralidade incrível e a sensação de que tudo que estamos vendo pode realmente acontecer em uma situação tão extrema.
A única cena de ação em que Jon Bernthal não faz é uma sequência de luta onde Frank é atirado de um telhado para outro, realizada por um dublê e a utilização de efeitos especiais para colocar o rosto de Bernthal. O resultado é bastante tosco e confirma que quando bem empregados, efeitos práticos são insuperáveis.
Aliás, é preciso tirar o chapéu para John Bernthal, não somente por fazer as cenas frenéticas de ação, mas por sua atuação, que entrega um Frank Castle sombrio: assombrado por memórias do seu tempo de serviço militar e pela dor de ter perdido a família para a violência do crime organizado. Para compor o personagem apresentado nesse especial, Bernthal consultou e treinou com militares veteranos e fez um extenso trabalho de pesquisa. Nas palavras do próprio ator:
“Existe uma condição psicológica chamada anomia que afeta muitos veteranos, especialmente os das Forças Especiais: uma sensação de desespero absoluto, de ruptura com os pilares da sociedade em que você acreditava. É aí que eu queria começar com o Frank. Sempre me perguntei: como você continua? O que você faz quando matou a última pessoa? O que você faz quando ficou anos em espiral, consumido pela ferida de ter a família arrancada de você? Quando não sobrou mais ninguém para pagar?”
Desde sua escolha para viver o Justiceiro, mais de dez anos atrás, John Bernthal se mostrou a escolha perfeita, se tornando indissociável ao personagem, assim como acontece com Charlie Cox e o Demolidor e Vincent D’Onofrio e o Rei do Crime. Como disse o diretor desse especial, Reinaldo Marcus Green: “Não existe especialista maior no personagem de Frank Castle do que Jon Bernthal.”
O final de “O Justiceiro: A Última Morte” traz um Frank Castle que entende que a única coisa que sobrou para ele é continuar aplicando sua justiça implacável e definitiva contra os criminosos. Gosto de pensar também que Castle percebe que é a única defesa contra a maldade para aqueles que estão à margem da sociedade e assim, do seu jeito, está fazendo algo altruísta e não somente liberando toda sua fúria contra a bandidagem.
“O Justiceiro: A Última Morte” termina com a possibilidade de um segundo especial, já que Ma Gnucci consegue escapar juntamente com Barry, um homem misterioso e muito forte que trabalha como braço-direito dela. O ator Jamal Lloyd Johnson confirmou em entrevista que ele é na verdade o Barracuda, um ex-militar sádico e brutal que ingressa no crime após voltar da guerra e que rivaliza em igualdade com o Justiceiro em habilidades de combate.
Se houver um segundo especial, espero que façam algo com uma duração maior, quem sabe um longa-metragem de 90 minutos. Acredito que os responsáveis por “O Justiceiro: A Última Morte” são capazes de fazer algo com um corte maior, sem perder a essência do que fizeram até agora.
Esse especial é a prova que podem ser feitas boas produções fora da fórmula bilionária da Marvel, com uma história que deu uma complexidade emocional ainda maior a Frank Castle e ação visceral e sem freio. Então, diante do que foi exposto, só posso dizer que vale muito a pena assistir “O Justiceiro: A Última Morte”.
Ficha Técnica:
Título Original: The Punisher: One Last Kill
Título no Brasil: O Justiceiro: A Última Morte
Gênero: Ação, Policial, Super-Herói
Duração: 51 minutos
Diretor: Reinaldo Marcus Green
Produção: Kevin Feige, Louis D’Esposito, Brad Winderbaum, Sana Amanat, Jon Bernthal, Reinaldo Marcus Green, David Chambers
Roteiro: Jon Bernthal, Reinaldo Marcus Green
Elenco: Jon Bernthal, Deborah Ann Woll, Jason R. Moore, Judith Light, Kelli Barrett, Andre Royo, John Douglas Thompson, Nick Koumalatsos, Colton Hill, Mila Jaymes, Eduardo Campirano, Mugga, Dónall Ó Héalai, Jamal Lloyd Johnson, Rafael R. Green, Roe Rancell, Dominick Mancino, Joseph Devito, Henry Corvino, David Manuele
Companhias Produtoras: Marvel Television
Distribuição: Disney+
