SINOPSE: A ponto de se aposentar, o detetive William Somerset (Morgan Freeman) pega um último caso, com a ajuda do recém-transferido David Mills (Brad Pitt). Juntos, descobrem uma série de assassinatos e percebem que estão lidando com um serial killer que tem como alvo pessoas que ele acredita representar os sete pecados capitais.

Em 1991, “O Silêncio dos Inocentes” era lançado nos cinemas. O filme dirigido por Jonathan Demme e estrelado por Jodie Foster e Anthony Hopkins consolidaria o gênero de serial killer nos cinemas, ditando regras e influenciando produções até os dias atuais.

Quatro anos depois, o diretor David Fincher e o roteirista Andrew Kevin Walker impactariam novamente o cinema e o gênero de serial killer, com “Se7en”. E nessa resenha vamos tentar explicar por que esse filme se tornou tão icônico.

A abertura de “Se7en” ao ser editada com a técnica conhecida como glitch já rompia com o que estávamos acostumados a ver, com créditos piscantes e tremendo, cortes rápidos e imagens distorcidas. Essa sequência inicial caótica tem como objetivo revelar o tom desconfortável da narrativa e mergulhá-lo na mente do serial killer, antes mesmo do filme começar. Outro objetivo dessa sequência inicial é mostrar John Doe se preparando ou registrando seus crimes, escrevendo e colando fotos em seus diários costurados à mão, ferramentas que aparentemente serão usadas ou o assassino removendo a pele da ponta dos dedos.

Abaixo o vídeo da abertura de “Se7ven” onde é possível ver prenúncios de coisas que irão acontecer no filme como a palavra “grávida” em destaque, os as jogadas do xadrez que compõem o gambito ou John Doe cortando a palavra “God’ de uma nota de dólar.

Após o cartão de visitas perturbador que é abertura, “Se7en” leva o espectador para uma jornada angustiante de loucura, violência, desespero e desesperança cada vez maior. As sensações opressivas e deprimentes permeiam todo o filme. Para isso é utilizada uma paleta de cores escuras, sequências sombrias e pouco iluminadas, cenários e locações sujas e decrépitas. Mesmo a sequência final, apesar de iluminada e ensolarada, se passa em um local deserto e decadente. Outro elemento importante que contribui para esses sentimentos é a chuva constante que cai na cidade.

Além de servir como elemento para criar e aumentar os sentimentos de opressão e desesperança, a chuva em “Se7en” vem carregada de simbolismo. Na geladeira existente na cena do crime da gula, o detetive Somerset descobre um bilhete escondido atrás dela, onde está escrito: “Longo é o caminho, e difícil, que leva do Inferno à Luz”, uma frase do poema épico “Paraíso Perdido” de John Milton. No filme, chove o tempo todo, mas quando John Doe finalmente está prestes a executar os dois últimos assassinatos, o sol surge, representando que sua missão “divina” está completa. Outra simbologia que pode ser feita é em relação a história de Noé e o dilúvio, que ocorre em Gênesis 7, que entre seus versículos, fala que “após sete dias, as fontes do grande abismo se rompem e as comportas do céu se abrem, chovendo por 40 dias e 40 noites” para purificar a Terra de toda a maldade, corrupção e a violência.

Essas e outras referências servem para reforçar o papel que John Doe acredita desempenhar: o de enviado de Deus para punir a sociedade corrompida e indiferente aos pecados capitais que acontecem todos os dias à plena vista de todos. Dessa forma, John Doe pretende cometer assassinatos brutais e chocantes que representem cada um desses pecados, pois em sua mente perturbada, ele tem a visão distorcida que está praticando a justiça divina.

Apesar de aparecer muito pouco em “Se7en”, John Doe se faz presente através de seus crimes, como uma força assassina e implacável, que desafia Mills, Somerset e toda a polícia, se consolidando como um dos mais perigosos serial killers do cinema. Na própria visão de Somerset, John Doe é violento, frio, inteligente e paciente, e alguém assim é extremamente perigoso e que dificilmente será detido ou preso antes de completar seu plano.

Ficar horas e horas com uma pessoa, a ameaçando com uma arma e a forçando a comer até explodir; entrar em uma sexta, se esconder e depois ficar o final de semana no escritório do advogado que é forçado a cortar um pedaço do próprio corpo são exemplos do planejamento, paciência, frieza e violência empregados por John Doe. E mesmo quando a violência não é explicita, “Se7en”, como no crime da Luxúria, temos a plena noção do quão brutal foi, ao mostrar a prótese peniana de couro com uma faca na ponta e vermos o relato do homem que a usou em uma prostituta.

Mas na minha opinião, o ápice do quanto John Doe é uma força fria e assassina é quando a vítima do crime da Preguiça é encontrada: a paciência em manter uma pessoa amarrada a uma cama por um ano inteiro; a frieza e o pouco caso com a condição humana ao tirar uma foto diária nesse tempo todo, somente para registrar a deterioração física e mental da vítima; e ministrar água, alimento e remédios para mantê-la viva para completar essa parte da sua “missão”.

John Doe está no controle da situação todo o tempo, mostrando um planejamento prévio e profundo, pois todas as pistas encontradas são deixadas por ele para que sua “missão” prossiga. E mesmo quando a polícia descobre onde ele mora, ele não se desespera.

Quando John Doe finalmente resolve confrontar Mill e Somerset, descobrimos que ele é interpretado por Kevin Spacey, cujo nome foi retirado dos créditos iniciais e assim criar o mistério em torno da identidade do assassino. E no pouco tempo de tela que Kevin Spacey tem em “Se7en”, ele entrega uma atuação incrível e poderosa onde toda a frieza, inteligência, e descaso pela vida alheia é finalmente associada a uma pessoa. John Doe é educado e calmo e no seu único momento de descontrole é quando ele fala das pessoas que assassinou e da apatia e cegueira da sociedade para os crimes capitais que acontecem todos os dias.

“Se7en” inova também ao deixar o serial killer como um total mistério. Além da sua explicação do porquê comete os assassinatos, John Doe é o que esse pseudônimo significa no sistema jurídico, policial e hospitalar dos EUA. Para explicar melhor esse ponto, posso usar uma declaração do roteirista Andrew Kevin Walker: “Há muito mal por aí, e nem sempre você terá a satisfação de entender o porquê e essa é uma das coisas que mais assusta as pessoas em relação aos assassinos em série”.

Na outra ponta temos Somerset e Mills tentando prender John Doe em uma combinação de opostos. Somerset é metódico, organizado e pessimista em relação a humanidade e quanto a uma resolução dos assassinatos; Mills é impulsivo, desorganizado e crê que prenderá John Doe. Essa diferença entre eles evidencia o quanto ambos foram expostos a “sujeira” existente na cidade e em seus trabalhos.

Morgan Freeman interpreta de forma magistral o detetive Somerset e entrega um personagem saturado e cansado pela exposição à violência, impunidade e indiferença para com o ser humano. A interpretação e a pessoa de Morgan Freeman emprestam a sabedoria e a elegância ao personagem que contrastam fortemente com sua descrença por dias melhores e de que a justiça realmente será feita.

Brad Pitt mostrava sua versatilidade, fugindo do estereótipo de protagonista romântico que ele possuía na época, ao interpretar o detetive David Mills, trazendo uma pessoa carismática, mas impulsiva. Nas próprias palavras do ator: “Mills é um idiota bem-intencionado que fala antes de realmente saber do que está falando”.

Essa dinâmica contraditória entre os detetives foi reforçada ao modificarem o roteiro para adequá-lo aos seus estilos de atuação: tornando Mills mais prolixo e o diálogo de Somerset foi reduzido, o tornando mais preciso e direto. Essas diferenças nas personalidades dos personagens os colocam em linhas divergentes, mas também complementares.

O final de “Se7en” na época foi um verdadeiro soco no estômago, pois até onde me lembro, foi a primeira vez que o vilão vencia de forma tão brutal, algo que a New Line Cinema tentou mudar. Porém, qualquer desfecho diferente seria anticlímax, devido a tudo que foi visto antes do confronto final.

“Se7en” é fortemente influenciado por “Silêncio dos Inocentes”, mas ao trazer uma história mais sombria, que escancara a violência e evidencia claramente o vilão no controle de tudo que acontece, acabou criando sua própria estética que seria e é copiada até os dias atuais.

Hoje, ao pensar no meu Top 3 de filmes de serial killers, “Se7en” está no mesmo nível de “O Silêncio dos Inocentes” como os melhores filmes com essa temática.

Diante disso, digo que vale muito a pena assistir “Se7en” e que é um filme obrigatório não só para os aficionados desse gênero para os fãs da Sétima Arte!

Curiosidades

  • O tom sombrio e deprimente de “Se7en” se deve porque Andrew Kevin Walker escreveu o roteiro do filme quando estava extremamente deprimido, pois após se formar na universidade, não conseguiu entrar na indústria do cinema por vários anos.
  • Andrew Kevin Walkerse inspirou em suas próprias experiências, quando mudou-se para os subúrbios da Pensilvânia, onde testemunhou crimes e os pecados capitais acontecendo nas ruas.
  • Denzel Washington foi a primeira escolha para viver David Mills, mas recusou o papel pois achou o roteiro sombrio demais.
  • O papel de William Somerset foi oferecido para Al Pacino, Gene Hackman, Robert Duvall e Harrison Ford. Porém todos recusaram.
  • Antes de Kevin Spacey ser escolhido para interpretar John Doe, o papel foi oferecido para Michael Stipe do R.E.M, Val Kilmer e Ned Beatty (esse último era a escolha do diretor).
  • A decisão de não inserir o nome de Kevin Spacey nos créditos iniciais foi proposital e assim manter a identidade de Doe em segredo no período que antecedeu a estreia.
  • Além disso, Kevin Spacey foi dispensado de qualquer turnê de divulgação de “Se7en”, aumentando ainda mais o mistério em torno de John Doe.
  • Existe uma forte simbologia por trás dos números mostrados no filme. O número das casas e imóveis da rua por onde onde andam Mills e Somerset assim que se conhecem: todos começam com 7. O telefone que Mills atende para ser avisado sobre a descoberta da primeira vítima de John Doe ocorre aos 7 minutos iniciais; e ao 7minutos finais, Somerset diz a Mills que John Doe vencerá se for morto.
  • O número 5 é associado no filme ao pecado da Ira, que por sua vez é associado a David Mills. O apartamento onde ele mora é o 5A e o nome e sobrenome do personagem possuem 5 letras.
  • O pecado da Inveja é associado a John Doe, mas outro pecado pode ser associado ao serial killer: o Orgulho. O apartamento que a polícia invade e pertence a Doe tem a numeração 6.
  • Durante uma cena de perseguição, Brad Pitt se cortou bem feio no para-brisa de um carro enquanto corria. O ferimento exigiu cirurgia, o que normalmente atrasaria as filmagens. No entanto, eles incluíram o acidente no roteiro, alegando que Doe havia atacado Mills e machucado seu braço, assim não precisariam usar truques de câmera para disfarçar o curativo.
  • Na cena da morte por Gula, caixas inteiras de baratas foram despejadas no ator Bob Mack, que pesava cerca de 220kg na época. Além disso, ele precisava usar próteses desconfortáveis por até 10 horas seguidas.
  • O ator Gene Borkan, que interpretou a vítima da Cobiça, ficou coberto de líquidos por tanto tempo que ele realmente ficou colado no chão do escritório de seu personagem. Também foi solicitado a se despir e ficar parado, amarrado com arame a uma cadeira em uma poça de sangue falso congelante.
  • A  escalação do ator Michael Reid MacKay para interpretar a vítima do pecado da Preguiça se deveu por ele ser pequeno e pesar na época 43 quilos e assim passar a impressão mais realista de uma pessoa atrofiada por estar um ano deitado. Para a aparência que vemos no filme o ator passou por mais de 14 horas na cadeira de maquiagem tendo dezenas de próteses aplicadas à seu corpo. Os atores que interpretam os policiais da SWAT que o encontram não foram informados de que ele deveria estar vivo, então suas reações quando ele tosse são completamente genuínas.
  • A cena do interrogatório do homem que mata uma prostituta por estar sob a mira de John Doe, precisava que o personagem estivesse confuso, assustado e exausto. Para isso, o ator Leland Orser se preparou inspirando e expirando rapidamente para que seu corpo ficasse excessivamente saturado de oxigênio. Ele também mal dormiu por vários dias, para conseguir a aparência desorientada de seu personagem.
  • A equipe de produção se esforçou ao máximo para criar o apartamento de John Doe, tanto que os cadernos escritos por ele foram escritos de verdade, levando 2 meses para serem feitos, ao custo de US$ 15 mil.
  • A New Line Cinema não estava contente com o final de “Se7en” e exigiu que ele fosse alterado para algo mais convencional que chegou a ser gravado: uma perseguição de carro, onde John Doe fazia Tracy de refém. No final, Mills mataria Doe e salvaria sua esposa.
  • David Fincher bateu o pé e ganhou o apoio de Brad Pitt para que o final que vemos em “Se7en” fosse filmado. Pitt ameaçou não gravar e abandonar o filme caso outro desfecho fosse para o corte final do filme.
  • Na famosa cena da caixa, não é mostrada a cabeça da vítima. Muitos alegam ter visto, pois antes da morte de John Doe, um flash rápido é mostrado e isso acabou criando essa ideia. A prótese da cabeça da vítima seria utilizada em “Contágio”.
  • O final de “Se7en” foi filmado de duas formas. Em uma delas após a morte de John Doe, a tela simplesmente ficaria preta e os créditos subiriam. Mas em sessões testes, os espectadores acharam pesado demais esse desfecho, o que acabou o excluindo do corte final.
  • O filme “Presságios de um Crime” veio de uma tentativa do estúdio de fazer uma sequência. No início, a produção se chamaria “Ei8gth” e eles tentaram trazer Morgan Freeman para reprisar seu papel. Como perceberam que esse projeto nunca funcionaria como uma sequência, mudaram o título, nomes de personagens e ofereceram os papéis para outros atores. Foi um fracasso.

Ficha Técnica:

Título Original: Seven

Título no Brasil: Se7en: Os Sete Crimes Capitais

Gênero: Suspense, Thriller

Duração: 130 minutos

Diretor: David Fincher

Produção: Arnold Kopelson, Phyllis Carlyle

Roteiro: Andrew Kevin Walker

Elenco: Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow, Richard Roundtree, R. Lee Ermey, John C. McGinley, Kevin Spacey, Julie Araskog, John Cassini, Reg E. Cathey, Peter Crombie, Richard Portnow, Richard Schiff, Mark Boone Junior, Hawthorne James, Michael Massee, Leland Orser, Pamala Tyson, Richmond Arquette, Bob Mack, Gene Borkan, Michael Reid MacKay, Cat Mueller, Heidi Schanz, Andrew Kevin Walker, George Christy

Companhias Produtoras: Arnold Kopelson Productions

Distribuição: New Line Cinema

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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