SINOPSE: Ainda extremamente marcado pelo trauma que sofreu quando criança no Hotel Overlook, Dan Torrance (Ewan McGregor) se tornou um adulto traumatizado e alcoólatra. Sem residência fixa, ele se estabelece em uma pequena cidade, onde consegue um emprego no hospital local. Mas a paz de Dany está com os dias contados quando ele encontra Abra (Kyliegh Curran), uma adolescente iluminada. Ao reconhecer instintivamente que Dan compartilha seu poder, Abra o procura, desesperada para que ele a ajude contra a impiedosa Rose Cartola (Rebecca Ferguson) e seus seguidores do grupo Verdadeiro Nó, que se alimentam da Iluminação buscando a imortalidade.

Stephen King detém o recorde de escritor contemporâneo com o maior número de obras adaptadas, com mais de 70 filmes e séries baseadas em suas histórias, com uma boa parte delas não sendo boas. Mas dentro desse vasto catálogo de adaptações, existem filmes e séries que são muito elogiadas pelo público, pela crítica e pelos fãs. “Doutor Sono”, lançado em 2019, é a adaptação cinematográfica do livro homônimo de Stephen King. Sequência direta de “O Iluminado”, filme de 1980.

Nessa resenha, vou tentar dizer porque você deveria assistir “Doutor Sono”; porque ele está entre as melhores adaptações de uma história de Stephen King e porque é melhor que “O Iluminado”.

O Iluminado” é considerada a melhor adaptação de uma obra de Stephen King, mas na minha opinião pelos motivos errados. Muito desse status adquirido reside no fato do filme ser dirigido por Stanley Kubrick e estrelado por Jack Nicholson. Kubrick é responsável por dirigir, produzir e roteirizar obras-primas do cinema como “2001” e “Laranja Mecânica”. Já Jack Nicholson é um dos atores mais talentosos da Sétima Arte, com dois Oscars de Melhor Ator e tantas outras premiações, com um currículo recheado de papéis marcantes, entre eles, o Coringa em “Batman”, de 1989.

Graças à direção de Stanley Kubrick, “O Iluminando” é tecnicamente impecável e narrativamente muito bom. Quanto à atuação de Jack Nicholson, é simplesmente espetacular. Ou seja, a união dos talentos de Kubrick e Nicholson tornam “O Iluminado” em um filme que está em um seleto grupo de obras-primas do cinema.

O problema de “O Iluminado” reside no fato de Stanley Kubrick ter achado a escrita da obra homônima fraca e reescrito o roteiro, alterando muitas coisas. Entre as mudanças está Wendy Torrance sendo retratada como uma mulher fraca, passiva e histérica, o oposto de como ela é mostrada na obra de King. No livro, Jack Torrance é um homem lutando contra seus demônios e o hotel maligno o corrompe lentamente enquanto que no longa-metragem o personagem parece louco desde começo, com a progressão para a insanidade ficando um tanto nublada. Mas para mim a maior mudança e que é motivo da minha maior reclamação em relação ao filme de Stanley Kubrick é que ele altera muito do terror sobrenatural presente no livro, chegando a ignorar completamente a parte que o Overlook acorda em definitivo e consome completamente Jack Torrance.

Então, na minha opinião, “O Iluminado” possui um primor técnico ímpar, com uma boa história de terror, mas como adaptação em relação ao livro homônimo é bem ruim, ignorando muitos elementos que tornam dessa história em uma das melhores e mais assustadoras de Stephen King.

Mas por que essa introdução sobre “O Iluminado”, se a resenha não é sobre ele? Porque “Doutor Sono” é uma adaptação melhor que o filme de Stanley Kubrick por ser mais fiel ao material original utilizado e outros motivos.

A direção e o roteiro de “Doutor Sono” são de Mike Flanagan que se declarou fá de Stephen King e possui experiência em adaptar obras do escritor com fidelidade, como “Jogo Perigoso”. O filme não é 100% fiel ao livro homônimo, mas as alterações ou inibições em relação ao material original são poucas e ao contrário do que Kubrick fez em “O Iluminado”, não alteraram radicalmente a narrativa. Aliás, é bom que se diga que “Doutor Sono” é como assistir as páginas do romance de tão próximo que o longa-metragem está do livro.

Por traduzir com bastante fidelidade as páginas do livro, a duração de “Doutor Sono” pode assustar um pouco. Mas duas coisas precisam ser ressaltadas desse fato: a primeira é como o romance de Stephen King mostra uma narrativa rica, pois foi necessário um corte final de duas horas e meia para transportar quase tudo para as telonas e telinhas; e a segunda é que não causa cansaço ou enfado, mesmo o longa-metragem possuindo 152 minutos.

É verdade que “Doutor Sono” possui um ritmo narrativo mais cadenciado, além do fato que não vai agradar fãs de filmes de terror mais convencionais e com muitos jump scares. O longa-metragem de Mike Flanagan aposta no jogo de gato e rato entre Dan e Abra e Rose Cartola e seu séquito do Nó Verdadeiro, criando um clima de tensão que vai crescendo a cada nova jogada desses personagens.

A vantagem do ritmo mais lento e da duração um pouco maior que o normal de “Doutor Sono” é poder desenvolver os personagens com calma, os apresentando com detalhes e assim criando a tão almejada conexão entre eles e os espectadores. Dessa forma, acompanhamos Dan Torrance, ainda criança, logo após os eventos no Overlook Hotel, sendo ensinado a lidar com as assombrações famintas desse local maligno, pulando para um Dan adulto, alcoólatra e violento (como seu pai), indo para Frazier, onde encontra um recomeço, alcançando a sobriedade e conseguindo um emprego em um asilo e por causa de sua Iluminação vira o Doutor Sono. Vemos também o desenvolvimento de Abra, desde criança até o início da adolescência, tendo que lidar e esconder sua Iluminação, que é muito mais forte que a de Dan, de todos, inclusive de seus pais, que desconfiam de que ela é diferente.

Em paralelo, de forma cadenciada, conhecemos a história de Rose Cartola e dos integrantes do Nó Verdadeiro, um grupo de “vampiros” que sugam a Iluminação de outras pessoas, principalmente crianças, para viverem centenas e até milhares de anos, como é o caso do Vovô Flick. Alguns pontos são interessantes à medida que a história desse grupo é contada. O primeiro fato é que eles também são Iluminados sendo que Rose Cartola é bastante poderosa, chegando a bater de frente com Dan e Abra quando turbinada. O segundo ponto é que a Iluminação pode ser consumida e garantir a longevidade de outros Iluminados (será que funcionaria com pessoas normais?). O terceiro ponto é a preferência por crianças que possuem essa força, que ao contrário do adultos, ainda não “sujaram” sua Iluminação com a comida, bebida, drogas e outros elementos do mundo moderno. E pelo mundo “estar seguindo em frente”, surgem cada vez menos Iluminados, o que tem tornado escassa a “comida” do Nó Verdadeiro, tornando a morte deles algo cada vez mais próximo.

E por essa escassez de Iluminados, Rose Cartola e o Nó Verdadeiro são vilões perigosos, pois a forma para extrair essa energia de suas vítimas é através da tortura e dor. Assistindo ao filme, não tive a impressão desses “vampiros” de que eles gostam da tortura em si, com exceção de Barry, mas tratam essa violência empregada como um meio necessário. Agora, fica bem claro nos olhares, nas feições e nos movimentos deles, a avidez. E esse desejo intenso não é somente pela fome que eles sentem, mas como uma forma de saciar a abstinência, como drogados que não controlam seu vício.

E assim, os personagens vão sendo desenvolvidos e a trama vai sendo armada de forma calma, cadenciada, criando um sentimento de expectativa e tensão para quando Iluminados, puros e corrompidos, finalmente se encontrarem. E esse embate se mostra em um jogo de gato e rato que vai se alternando entre eles, onde o predador tenta devorar a presa, mas com a caça disposta e matar seu caçador.

“Doutor Sono” possui vários personagens interessantes que incrementam a narrativa, mas os pilares do filme são Dan, Abra e Rose Cartola. Dan Torrance é interpretado por Ewan McGregor e sua interpretação é competente, sem falhas, entregando o necessário para dar vida ao personagem. Kyliegh Curran surpreende com sua atuação, entregando de forma que convence que estamos vendo uma adolescente corajosa, impetuosa demais a ponto de torná-la descuidada e até mesmo ingênua perante a ameaça que é o Nó Verdadeiro.

Agora o destaque é Rebecca Ferguson que dá um show de interpretação e dá vida a uma vilã incrível. Por trás da beleza, sensualidade e sorrisos de Rose Cartola, esconde-se uma mulher ardilosa, inteligente, implacável e violenta, que fará de tudo para garantir a sua sobrevivência e a de seu grupo. A atriz mostra que além de bela tem talento de sobra, se destacando em todas as produções que faz parte.

Tecnicamente, Mike Flanagan não está no nível de Stanley Kubrick e até mesmo diretores que adaptaram outras obras de Stephen King, como Andy Muschietti e Frank Darabont, possuem  direções mais inspiradas. Porém, Flanagan se propôs a contar uma boa história e da forma mais fiel possível. E esses objetivos, ele conseguiu com louvor em “Doutor Sono”.

Uma coisa que gostei bastante foi como Mike Flanagan conseguiu conectar seu filme com o “O Iluminado”, seja utilizando técnicas ou aproveitando elementos alegóricos do filme de Stanley Kubrick, sem perder o foco na fidelidade em relação ao material original. Além disso, Flanagan corrige o que para mim foi o maior erro de Kubrick em relação ao livro homônimo de Stephen King, mesclando e adaptando os finais existentes nas páginas de “Doutor Sono” e “O Iluminado”. O resultado é uma sequência sobrenatural, um clímax tenso e assustador, mostrando o embate definitivo entre Dan, Abra e Rose Cartola e as consequências de acordar em definitivo o Overlook e os espíritos famintos do hotel.

Tecnicamente, “O Iluminado” é melhor que “Doutor Sono”; porém do ponto de vista da fidelidade, o longa-metragem de Mike Flanagan é melhor e mais divertido. Muito se fala em essência da história e nesse ponto, “Doutor Sono” adapta muito bem o que as páginas do livro trazem: uma história que fala de redenção e recomeço, envolta em uma batalha com elementos sobrenaturais e com criaturas e lugares malignos e famintos.

Por tudo que foi dito aqui, vale a pena assistir “Doutor Sono”!

Curiosidades

  • Logo no começo do filme vemos o logotipo utilizado e a trilha sonora de “O Iluminado” de Stanley Kubrick.
  • Ainda no início de “Doutor Sono” vemos cenas recriadas  de “O Iluminado” como o garoto Danny Torrance andando de triciclo pelos corredores do Hotel Overlook e parando na frente do quarto 237, local em que o fantasma de Lorraine Massey atormenta a criança e seu pai, Jack Torrance.
  • Já adulto, Danny Torrance busca um recomeço e chega a Frazier, no interior de Nova Hampshire. O ponto do ônibus é na Elm Street, em homenagem a franquia “A Hora do Pesadelo” (“A Nightmare on Elm Street” em inglês).
  • Existe uma conexão direta com “A Torre Negra”. O local onde uma das vítimas do Nó Verdadeiro é torturada e morta é um terreno abandonado das Indústrias LaMerk que, na série fantástica de Stephen King, é uma empresa sob a influência de forças do mal. A Corporação Tet, por sua vez, é o oposto, servindo às forças do bem. Em “Doutor Sonos” as empresas seguem esses papéis: a Tet é responsável por levar Danny até a cidade onde encontrará melhora, enquanto a LaMerk fornece o espaço para uma criança ser brutalmente assassinada.
  • A cena da viagem de carro de Danny e Abra pelas montanhas é conduzida com os mesmos enquadramentos que Stanley Kubrick usou para abrir seu filme em 1980.

Diferenças Entre o Filme e o Livro

  • Enquanto no filme Abra Stone e Dan Torrance não tem nenhum laço familiar, no livro Dan descobre que a mãe de Abra é sua irmã, resultado de uma traição de Jack Torrance com outra mulher. Dessa forma a menina é sobrinha de Dan.
  • No longa, Momo é mencionada rapidamente quando a mãe de Abra diz que irá visitá-la e pergunta para sua filha se ela irá sobreviver ao câncer. No livro, Momo é Concetta Reynolds, a bisavó de Abra e tem um papel relevante na história, já que sabe que o pai de Lucy é Jack Torrance e sabe do poder da pequena Abra.

  • No filme, Billy Freeman e o pai de Abra morrem no conflito contra o Nó Verdadeiro, enquanto que no livro ambos seguem vivos até o final.
  • No filme, o combate derradeiro com Rose Cartola acontece no Overlook Hotel. Porém, no livro Dan e Abra enfrentam A líder do Nó Verdadeiro no mirante do hotel, uma vez que ele é destruído por um incêndio no romance “O Iluminado”.

Ficha Técnica:

Título Original: Doctor Sleep

Título no Brasil: Doutor Sono

Gênero: Suspense, Terror

Duração: 152 minutos

Diretor: Mike Flanagan

Produção: Trevor Macy, Jon Berg

Roteiro: Mike Flanagan

Elenco: Ewan McGregor, Rebecca Ferguson, Kyliegh Curran, Carl Lumbly, Zahn McClarnon, Emily Alyn Lind, Bruce Greenwood, Jocelin Donahue, Cliff Curtis, Robert Longstreet, Carel Struycken, Alex Essoe, Zackary Momoh, Jacob Tremblay, Henry Thomas, Roger Dale Floyd, Dakota Hickman, Selena Anduze, James Flanagan, Catherine Parker, Met Clark, Violet McGraw,

Companhias Produtoras: Warner Bros. Pictures, Intrepid Pictures, Vertigo Entertainment

Distribuição: Warner Bros.

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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