SINOPSE: Um casal (Tatiana Maslany e Rossif Sutherland) resolvem passar um tempo em uma cabana remota para comemorar seu aniversário. A esposa resolve ficar mais alguns dias no local após a partida do marido. O que ela não esperava era que a data de comemoração se transformaria em uma corrida pela sobrevivência, ao descobrir que terá que enfrentar uma presença sinistra que revela o passado arrepiante da cabana.

O terror nos cinemas vem revelando novos diretores que tem trazido um novo fôlego para o gênero, com filmes elogiados e bem avaliados. Entre os mais promissores temos os irmãos Philippou, responsáveis por “Fale Comigo” e “Faça Ela Voltar”; Zach Cregger, que dirigiu “Noites Brutais” e “A Hora do Mal”; e Osgood Perkins, com “Maria e João: O Conto das Bruxas” e “Longlegs”.

Devido ao sucesso de crítica e financeiro, esses diretores têm ganhado uma autonomia maior e até mesmo completa em seus projetos, como Zach Cregger que terá total liberdade criativa para dirigir o próximo filme da franquia “Resident Evil”.

Osgood Perkins parece ter ganhado carta branca também após o sucesso de crítica e financeiro de “Longlegs”. E dessa forma, em 2025 chegava “Keeper” aos cinemas estadunidenses. No Brasil, o novo filme do diretor só chegou esse mês e ganhou o título de “Para Sempre Medo”.

“Para Sempre Medo” tem como objetivo causar estranheza e desconforto no espectador, algo que Osgood Perkins costuma empregar em suas produções, como podemos ver nos dois filmes dele que citamos acima. Então vemos alguns artifícios como câmeras nos rostos dos atores e atrizes, gerando closes que ocupam toda a nossa visão; ou ângulos diferentes como os utilizados para filmar Liz (Tatiana Maslany) que aparece nos cantos da tela  com algo cobrindo o resto, que acho que tinha o objetivo de criar uma sensação claustrofóbica. Além desses enquadramentos de câmera, podemos ver uma miscelânea de outras técnicas para criar essa imersão estranha e perturbadora como sobreposição ou distorção de imagens e diálogos desconexos.

Ao terminar de assistir “Para Sempre Medo” saí com uma opinião e antes de escrever essa resenha, esperei a emoção baixar para analisar melhor o filme. Repassei o que vi e apesar de achar que alguns elementos fazem sentido acabei mantendo meu pensamento.

O arquiteto alemão Ludwig Mies van der Rohe disse uma vez que “menos é mais”, para defender a ideia de que às vezes a simplicidade, funcionalidade e eliminação de adornos desnecessários geram maiores e melhores resultados. “Para Sempre Medo” caminha no sentido inverso dessa citação.

“Para Sempre Medo” tem muitas situações que não fazem muito sentido, como a cena do bolo empata-foda ou Liz dizer que ama Malcolm (Rossif Sutherland), ter uma crise pelo que falou quando ele não está vendo e logo em seguida estar sorridente novamente. Nesse ponto, acho que faltou um aprofundamento dos personagens, que poderiam vir no formato de flashbacks, para que esses momentos fossem mais bem assimilados, como mostrar um relacionamento passado abusivo ou algum trauma, principalmente no que se refere a Liz. Mas situações como ela e Malcolm entrelaçando as mãos e trocando olhares apaixonados e depois vermos expressões de dúvida e desconforto com a situação ficam sem contexto.

Além disso, temos muitos diálogos sem nexo nenhum ou que possuem um sentido muito profundo e que não consegui captar. O resultado ou é a falta de interesse do espectador com a sequência mostrada ou a geração de sensações diferentes daqueles que “Para Sempre medo” queria causar. Um exemplo é quando Liz se tranca no banheiro com medo e ao invés de gerar esse sentimento, acabamos sentindo incredulidade ou vontade de rir, quando Malcolm bate na porta perguntando se ela está bem e manda: “Você não está grávida não né?”

E já que falamos em Malcolm, é válido dizer que sua forma esquisita de agir é explicada no terço final de “Para Sempre Medo”, porém tudo nele parece tão artificial em exagero que fica difícil criar expectativa e apreensão por causa dele.

A dublagem para o português de “Para Sempre Medo” pode ter tirado bastante do que Tatiana Maslany e Rossif Sutherland tentaram transmitir, mas mesmo assim, eles me pareceram bem mecânicos em suas interpretações. E no caso da atriz é mais evidente porque lembro dela de outras produções, principalmente na série “Orphan Black”, e sei que ela pode muito mais do vi nesse filme.

Associados a esses fatores, a execução das cenas que visam criar confusão, desconforto ou tensão não alcançam seus objetivos. Fiquei muitas vezes confuso, mas porque não percebi a importância da sequência. Meu desconforto se deu pelo excesso dessas partes. E a tensão e o suspense são nulos, seja em cenas mais discretas como focar no teto escuro como se algo fosse sair de lá (e que nunca saiu), seja na revelação do que habita a casa.

Mas “Para Sempre Medo” não é de todo ruim, pois na parte final quando é revelada a história de origem do que habita a casa e das motivações de Malcolm, a narrativa flui muito bem, porque é contada de forma simples e sem os excessos que vimos nos dois primeiros terços do longa-metragem.

As próprias criaturas possuem um design interessante e a falta de uma explicação clara para o que eles são as torna mais estranhas e misteriosas. Mas depois da bagunça que foi “Para Sempre Medo” até chegar nessa parte do filme, o resultado ou é desinteresse, incredulidade ou até mesmo vontade de rir. Inclusive, gostaria de acreditar que Osgood Perkins deve ter percebido isso enquanto fazia o corte final do filme, pois o desfecho de “Para Sempre Medo” desbanca para a comédia. Se ele pensou isso, foi uma das poucas coisas que acertou no longa-metragem.

Fui com boas expectativas para assistir esse filme, pois o material promocional me passou um clima perturbador e de estranheza, com o objetivo de criar uma experiência diferente dentro do gênero cinematográfico de terror. Porém, devido a “carta branca” dada ao diretor, o longa-metragem se mostrou mau-executado e exagerado, indo na contramão da ideia do arquiteto alemão Ludwig Mies van der Rohe, onde o mais foi menos e resultando em uma experiência em que o perturbador virou maçante e o estranho ficou bem esquisito.

Dessa forma, digo que não vale a pena assistir “Para Sempre Medo”.

Ficha Técnica:

Título Original: Keeper

Título no Brasil: Para Sempre Medo

Gênero: Terror Psicológico, Folk Horror (Terror Psicológico)

Duração: 100 minutos

Diretor: Osgood Perkins

Produção: Chris Ferguson, Jesse Savath

Roteiro: Nick Lepard

Elenco: Tatiana Maslany, Rossif Sutherland, Glen Gordon, Birkett Turton, Logan Pierce, Eden Weiss, Cassandra Ebner, Tess Degenstein, Erin Boyes, Claire Friesen, Christin Park, Gina Vultaggio

Companhias Produtoras: Wayward Entertainment, Big Rodeo Films, Oddfellows Pictures

Distribuição: NEON, Diamond Films

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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