SINOPSE: A vida da família Miller muda drasticamente quando Jamie (Owen Cooper), de 13 anos, é preso sob a acusação de assassinar uma colega de escola. Seu pai, Eddie (Stephen Graham), luta para compreender o que aconteceu, enquanto a psicóloga Briony Ariston (Erin Doherty) tenta desvendar a mente do garoto. O inspetor Luke Bascombe (Ashley Walters) lidera a investigação, determinado a descobrir a verdade por trás do crime. À medida que o caso avança, segredos são revelados e a linha entre inocência e culpa se torna cada vez mais tênue.
Assistindo as premiações voltadas para séries, uma tem dominado nas categorias voltadas para minissérie de drama: ”Adolescência”.
A primeira coisa que é preciso falar é que os criadores da série, Jack Thorne e Stephen Graham, não se basearam em um caso real específico, com a inspiração vindo de crimes verdadeiros cometidos por jovens. Em entrevista, Stephen Graham disse: “Houve um caso em que um garoto, supostamente, esfaqueou uma garota. Fiquei chocado. Pensei: ‘O que está acontecendo? Que tipo de sociedade estamos criando em que um menino mata uma menina com uma faca? Qual é o gatilho por trás disso?’ E então isso aconteceu de novo. E de novo. Quis lançar luz sobre isso e perguntar: Por que isso está acontecendo? O que há por trás? Como chegamos até aqui?”
“Adolescência” se passa em uma cidade da Inglaterra, então o começo já é bem chocante, quando a polícia invade a casa da família Miller e prende Jamie, de apenas 13 anos, por homicídio doloso (quando existe intenção). Isso porque a lei inglesa permite que crianças a partir dos 10 anos sejam julgadas e punidas por crimes. Essa legislação teve início em 1993, quando Robert Thompson e Jon Venables, ambos com 10 anos, raptaram, torturaram e mataram James Bulger, um menino de dois anos, em um shopping de Liverpool.
A minissérie é bem visceral, como costumam ser produções inglesas desse gênero, então ver a força policial agindo em relação a Jamie como um possível assassino é um soco no estômago. Esse tom mais crú e duro, permeia todos os quatro episódios tornando assistir “Adolescência” uma experiência bastante inquietante.
Cada episódio mostra uma faceta desse caso abominável, onde vemos a prisão de Jamie, a investigação do inspetor Luke Bascombe (Ashley Walters), a avaliação psicológica de Jamie e finalmente a família Miller tendo que lidar com essa situação.
No primeiro episódio vemos todo o processo inicial de prisão de Jamie e conhecemos um pouco o sistema inglês e os cuidados especiais que um caso envolvendo um menor de idade precisa ter. Aqui temos o choque inicial de todos os envolvidos além da família Miller. Aqui ficamos com uma dúvida se Jamie realmente assassinou uma conhecida de sua escola ou é inocente, devido ao medo e a confusão que o personagem transmite. Mas a convicção do inspetor Bascombe de que Jamie cometeu o crime é inabalável, graças a um vídeo feito por uma câmera de segurança.
O segundo episódio mostra o inspetor Bascombe agora tentando entender as motivações de Jamie, abordando as vidas virtuais dos adolescentes. Aqui são levantadas questões relevantes como pais e adultos pouco conhecem ou desconhecem totalmente o que os adolescentes fazem na internet e sobre a toxicidade das redes sociais que culminaram no assassinato brutal da adolescente.
O terceiro episódio mostra Jamie alguns meses depois do assassinato, recluso em uma instituição, enquanto aguarda o julgamento. Então temos a psicóloga Briony Ariston (Erin Doherty) fazendo uma segunda avaliação psicológica com Jamie. E aqui durante um episódio bastante tenso, uma dúvida bastante grande surgiu: Jamie tinha algum transtorno ou estava fingindo?
E o último episódio e mais pesado na minha opinião, mostra Eddie e sua família lidando com as consequências do crime cometido por Jamie. Stephen Graham entrega uma atuação poderosa e carregada de emoção. Eddie viu a gravação da câmera de segurança e isso só piora as coisas, pois não existe dúvidas, então ele tenta achar explicações enquanto se culpa por se sentir ausente e omisso na vida do filho.
Muito se fala da atuação de Owen Cooper, que vem ganhando todas as premiações, mas na minha opinião o destaque é Stephen Graham que no último episódio de “Adolescência” traz uma interpretação poderosa que mostra um pai tentando se manter forte pela sua família, enquanto internamente é uma pessoa destruída emocionalmente. Admito que foi a parte mais difícil de assistir e a que mais me emocionou.
Mas o que mais chama atenção em “Adolescência” além da história bem conduzida mas que já teve o tema explorado em outras produções é a forma como a minissérie foi gravada: totalmente em plano-sequência, que é uma técnica cinematográfica onde algo é filmado em uma unica tomada contínua, sem cortes, exigindo grande coordenação da equipe e ensaios.
Cada episódio de “Adolescência” é gravado em plano-sequência e isso é espetacular, ainda mais com a duração de cada capítulo. Ao utilizar essa técnica temos a sensação de estarmos acompanhando em tempo real os eventos mostrados além de criar uma imersão profunda para o espectador.
Outro detalhe, é que a câmera é colocada muito próxima do rosto dos atores e atrizes, principalmente nos momentos mais tenso, com o objetivo de criar intimidade e desconforto em algumas situações.
A minissérie da Netflix aborda um crime que ainda nos choca, apesar de estar acontecendo cada vez mais e traz à luz, como outras produções, como o ambiente da internet e das redes sociais podem ter relação direta com tais atos. Mas o que mais impressiona é o plano-sequência utilizado de forma espetacular durante episódios de quase uma hora, além da interpretação incrível de Stephen Graham.
Por esses motivos, digo que vale a pena assistir “Adolescência”.
Ficha Técnica:
Título Original: Adolescence
Título no Brasil: Adolescência
Gênero: Drama
Temporadas: 1
Episódios: 4
Criadores: Jack Thorne, Stephen Graham
Produção: Jo Johnson
Direção: Philip Barantini
Roteiro: Jack Thorne, Stephen Graham
Elenco: Stephen Graham, Ashley Walters, Faye Marsay, Mark Stanley, Christine Tremarco, Owen Cooper, Amélie Pease, Hannah Walters, Jo Hartley, Fatima Bojang, Kaine Davis, Amari Bacchus, Erin Doherty
Companhias Produtoras: Warp Films, It’s All Made Up Productions, Matriarch Productions, Plan B Entertainment, One Shoe Films
Transmissão: Netflix
