SINOPSE: O avião 815 da Oceanic Airlines cai em uma ilha deserta e logo um grupo de passageiros precisa lutar para sobreviver. Mas o que começa como uma luta pela sobrevivência rapidamente se transforma em um enigma complexo: a ilha guarda segredos, forças sobrenaturais e mistérios que desafiam tanto os personagens quanto o público.

“Lost” estreou nos EUA em 22 de setembro de 2004, pela rede de televisão ABC. Seu episódio de estreia teve cerca 18,6 milhões de telespectadores e a primeira temporada teve média de 16 milhões de pessoas que assistiram pela tv.

Hoje com dezenas de plataformas de streamings é simples assistir séries e filmes e o acesso fácil à internet propicia que uma produção ganhe a atenção das pessoas ao redor do mundo muito rapidamente.

Dessa forma, em uma época onde a internet não era tão acessível como hoje e onde a TV era a principal, e de certa forma, a única forma de se ver séries, “Lost” mostrou sua força narrativa, conquistando as pessoas ao fazer números de audiência dessa magnitude, principalmente no horário nobre estadunidense.

No Brasil “Lost” estreou em março de 2005 no canal pago AXN, mas foi em 5 de fevereiro de 2006, com a exibição do episódio duplo de estreia  na Rede Globo, que a série se tornaria um fenômeno aqui também.

Dessa forma, blogs foram criados para falar dos episódios assim que passavam e era o foco das rodas de conversas de quem assistiu a série. Revistas e especiais foram produzidos. Pessoas assinavam tv a cabo (algo caro já naquela época) ou compravam como eu, DVDs ou Blue-rays para não terem que esperar uma nova temporada na Globo. Tudo isso para saciar nossa ansiedade e curiosidade, para criar teorias e tentar explicar o que era a ilha e o que acontecia nela.

E como aconteceu coisa nessa ilha!

Os primeiros episódios já foram o cartão de visitas do que seria a estadia dos sobreviventes da queda do Oceanic 815 na ilha: uma criatura de fumaça, pessoas mortas andando pela ilha, passageiros que voltaram a andar e até um urso polar!

“Lost” foi uma criação de Jeffrey Lieber, J. J. Abrams e Damon Lindelof, sendo que o segundo é o nome mais conhecido dos cinéfilos e consumidores de séries. Mas tenha Damon Lindelof em mente pois já já falo da sua importância para o sucesso de “Lost”.

Abrams, Lieber e Lindelof trouxeram mistérios que foram bem dosados na narrativa. Existia o plot principal da temporada e outros segredos que eram revelados a conta gotas e que ao longo das temporadas iriam compor o cenário completo.

A aparição Christian (John Terry), pai de Jack (Matthew Fox) na ilha ou o pé de uma estátua gigante na praia vista por Sayid (Naveen Andrews), Sun (Kim Yoon-jin) e Jin (Daniel Dae Kim) são exemplos de situações insólitas que seriam explicadas em temporadas posteriores. A escotilha de aço que John Locke (Terry O’Quinn) descobre e é o plot principal das duas primeiras temporadas vai sendo construído devagar, revelando o necessário para atender nossa curiosidade, mas ao mesmo tempo aumentando-a.

O que estou tentando explicar é que “Lost” brincava com nossa expectativa ao jogar mistérios que se sucediam a cada episódio e mesmo quando explicava alguma coisa, essa revelação gerava novas perguntas. A série também brincava com a percepção do espectador, como por exemplo os Outros, que somos levados a pensar uma coisa e o que são é algo bastante inesperado.

Para quem é ansioso demais ou gosta de tramas mais simples essa brincadeira com nossa expectativa e percepção pode não agradar, mas “Lost” conquistou uma grande maioria que gosta de narrativas complexas e vários mistérios que irão se conectar de alguma forma.

“Lost” possui alguns furos de roteiro, mas o que chama atenção é que os criadores planejaram toda a história da série antes dela ser aprovada por algum canal de TV. E para mim o maior exemplo disso são duas ossadas humanas encontradas por Jack, Kate (Evangeline Lilly) e John em uma caverna na primeira temporada, apelidadas de Adão e Eva, e que na temporada final tem suas origens reveladas.

Escotilhas e bunkers escondidos, um botão que precisa ser apertado a cada 108 minutos, os Outros, Iniciativa Dharma, o Monstro de Fumaça, os números de Hurley (Jorge Garcia) e o que significam, Jacob. Muitos mistérios que ao longo de seis temporadas foram sendo revelados e definiram o motivo do por quê os 48 sobreviventes caíram na ilha.

Você não leu errado, e isso pode soar um spoiler bem grande, mas nada em “Lost” é jogado, pois tudo tem um significado e a queda do Oceanic 815 e os sobreviventes do acidente não é aleatório.

Mas “Lost” possui um outro componente narrativo além dos mistérios referentes à ilha, que são as histórias dos sobreviventes que fornecem o peso dramático. Através de flashbacks, conhecemos o passado Jack, Kate, John, Hugo, Jin, Sun, Sawyer (Josh Holloway) e outros sobreviventes antes de caírem na ilha. Então até antes do final da terceira temporada vemos que suas vidas em algum momento tomaram rumos que os levaram ao declínio físico, social e emocional. Dessa forma, estamos acompanhando pessoas “quebradas”, que é um dos motivos para terem sobrevivido à queda do avião.

Os dramas pessoais, contados através de flashbacks, é tão bem construído quanto os eventos da ilha e muitas vezes estamos mais interessados em conhecer o passado desses personagens, sendo que de todos, os que mais gosto são os de John, Hugo e do casal Jin e Sun, pois suas histórias não entram em uma elipse, sempre mostrando algum novo evento que tornam eles mais complexos e mais interessantes.

Essa mistura de mistérios e dramas pessoais tão perfeita deu a “Lost” uma estrutura de série não-procedural. Para você entender: as séries que passavam na TV aberta estadunidense tinham um formato do monstro, criminoso ou drama da semana, como “Supernatural”, “CSI” e “Grey’s Anatomy” respectivamente. E no meio disso tínhamos a “mitologia”, a trama central que era construída ao longo da ou das temporadas. Esse formato era a fórmula de sucesso até recentemente e em alguns casos, continua trazendo bons índices de audiência.

Porém, com sua narrativa essa estrutura procedural parece que não existe em “Lost”, não existindo o “caso da semana”. Temos episódios centrados em determinado personagem, mas sua resolução não encerrava a história do que houve nele, mas se mostrava mais uma peça no quebra-cabeças que é a trama principal, a mitologia da série.

E aqui vou falar novamente o que costumo falar sempre em minhas resenhas: nenhuma história é boa se não nos conectarmos com seus personagens. E “Lost”, através da construção dos personagens, cria uma miríade de pessoas complexas que nos despertam sentimentos de afeição, diversão, apreensão, medo e raiva.

E nesse ponto tenha que destacar o trabalho de Damon Lindelof em “Lost”. Essa carga dramática que os personagens possuem credito muito ao trabalho de Lindelof, que já demonstrou que além de uma boa dose de mistério sabe criar sentimentos através de suas narrativas. Quer um exemplo disso? J.J. Abrams aproveitou o sucesso de “Lost” e emplacou outras produções e entre elas “Fringe”, série de ficção científica muito boa, mas que em termos de construção de personagens deixa muito a desejar, com exceção de Walter Bishop (John Noble).

Já Damon Lindelof demonstrou novamente seu talento em construir complexos com a incrível “The Leftovers”, que foca nos dramas pessoais vividos após 2% da população ter sumido inexplicavelmente. Aliás, devo dizer que o mistério e o interesse devam ter vindo da mente de Lindelof, pois em ‘The Leftovers” ficamos tão ávidos por resposta e perplexos pela falta delas quanto em “Lost”.

Dessa forma “Lost” constrói em meio a muito mistério, personagens cinzas que querem fazer o certo, mas que possuem passados conturbados. E mesmo o vilão da série, que atende pelo nome de Benjamim Linus (Michael Emerson) não pode ser colocado no lado negro da força, pois suas motivações, por mais egoístas que sejam, o tornam tão humano quanto qualquer pessoa na ilha ou na vida real.

“Lost” foi um sucesso instantâneo de audiência, que gerou milhões de dólares para a ABC Channel, o que fez com que a emissora esticasse a série além do necessário. J.J. Abrams, Jeffrey Lieber e Damon Lindelof sempre tiveram em mente que “Lost” teria um fim, mas a greve de roteiristas em 2008 prejudicou bastante a qualidade da ótima quarta temporada, mostrando o que aconteceu com os que conseguiram ser resgatados, através de flashforwards: eventos que ocorreram à frente de tudo que se passou na ilha.

Então vieram as duas temporadas finais, que deveria ser somente uma com a quantidade regular de episódios para encerrar os eventos dos sobreviventes do Oceanic 815. Mas aqui entrou a pressão da ABC Channels que ao invés de uma, fossem produzidas duas temporadas. E o acordo entre a emissora de televisão e os criadores da série é que seriam produzidas a quita e a sexta temporadas com menos episódios.

Essa decisão desgastou um pouco o interesse dos espectadores, principalmente com a quinta temporada, que envolve viagem no tempo e se mostrou um grande prólogo, esticando além do necessário histórias par encher dezessete episódios, e guardando o melhor para os eventos que viriam acontecer na sexta temporada.

Outra questão que desagradou os espectadores e até hoje gera acaloradas discussões é em relação ao rumo que a história de “Lost” toma na temporada final. Sempre houve misticismo e mágica na trama da série, com eventos sobrenaturais que a ciência parece não explicar, porém esse enredo vinha misturado com boas doses de ficção científica, principalmente pela força que rege a ilha: o eletromagnetismo. Essa energia, que nesse local se acumula como em nenhum outro lugar do mundo, se mostrou a base de muitos milagres e eventos inexplicáveis como a remissão de doenças e o lapso temporal em que a ilha se encontra, por exemplo.

Mas a sexta temporada entra de cabeça em uma trama messiânica para explicar quase todos os eventos que ocorrem na ilha. Vamos dizer que “Lost” em sua temporada final ganha contornos com muitas referências bíblicas como a eterna batalha entre Deus e o Diabo e arenga mortal entre Caim e Abel. Dizer mais é revelar mais do que provavelmente já revelei para quem nunca assistiu, mas quer assistir a série.

Até mesmo os flash-sideways se mostraram motivos de reclamações ao mostrar uma espécie de realidade paralela ao que víamos na ilha e que mais para a frente se revelou, como já faz parte em “Lost”, outra coisa.

Particularmente o único grande deslize em “Lost” é a quinta temporada que me pareceu ser uma grande “encheção de linguiça”, perdendo muito do ritmo tão empolgante que a série possuía. No mais, tudo se mantém no alto nível e inclusive a mudança de rumo narrativa que a série ganha na temporada final me pareceu plausível e interessante.

Mas a revolta maior das pessoas é a falta de respostas ou respostas incompletas para algumas questões, sendo a principal sobre a ilha. Em entrevista, os criadores de “Lost” disseram que nunca tiveram a intenção de explicar todos os eventos e mistérios da série, deixando lacunas para questionamentos e criação e teorias.

Novamente, para mim tudo que precisava ser explicado foi explicado e o que não foi ou foi parcialmente revelado dão o charme para essa série e até hoje me faz pensar em várias teorias.

“Lost” redefiniu a forma de produzir séries e contar histórias através delas e é minha opinião que nenhuma outra teve tanto impacto quanto ela. Muitos tentaram imitar o feito de “Lost”, mas o fato de nenhuma ter chegado perto do que ela conseguiu, demonstra esse impacto cultural na televisão e posteriormente nos streamings.

Mas posso afirmar com certeza que se você gosta de séries e nunca assistiu “Lost”, você não gosta de séries realmente, e se você já assistiu ela uma ou algumas vezes, como é o meu caso, veja novamente, pois vale a pena revisitar essa ilha misteriosa!

Curiosidades

  • Piloto de “Lost” foi um dos mais caros para a época, com um orçamento entre US$ 10 e 14 milhões. Naquele período, esse valor era considerado bastante elevado, especialmente para um único episódio de televisão, cuja produção normalmente girava em torno de US$ 4 milhões.

  • Foram usadas partes verdadeiras de um avião para a cena inicial de “Lost”.

    A companhia que gravou a série não quis que o avião usado fosse voando ao local das filmagens. Assim, tiveram que desmontá-lo e enviá-lo por navio.

  • “Lost” não foi filmada em um estúdio e sim  em O‘ahu, uma das ilhas do Havaí, ao longo das seis temporadas Além disso, várias áreas urbanas ao redor de Honolulu, no Havaí, foram utilizadas como substitutos para locais ao redor do mundo.
  •  Não foi permitido aos atores verem o set de algumas cenas Eles vendavam os olhos até o momento em que as câmeras começaram a filmar, assim a reação foi real. Por outro lado, os escritores e diretores de Lost não contavam nada aos atores até chegar o momento de atuar, assim podiam mudar o que acontecia na série a cada episódio.

  • A equipe de roteiristas da série fez uma reunião para decidir que personagem seria interpretado por cada ator. No entanto, decidiram escolher na sorte, tirando o nome dos personagens de um chapéu.

  • Os personagens Hugo ‘Hurley’ Reyes e Sun Hwa-Kwon foram criados especialmente para os atores Jorge García e Yoon-Jin Kim, por causa da audição dos dois. Inicialmente, Jorge havia se apresentado para ser Sawyer, e Sun seria Kate Austin.

  • Evangeline Lilly, que faz Kate, uma das protagonistas, foi uma das últimas do elenco a ser confirmada no programa. Os produtores, na verdade, tiveram medo de escalar a atriz canadense porque não sabiam se ela seria capaz de obter o visto americano apropriado para permanecer no país até filmar toda a série.

  • Os criadores de “Lost” não planejaram que Benjamin Linus aparecesse por muito tempo em “Lost”. Mas eles ficaram tão impressionados com o desempenho do ator Michael Emerson, que ao invés de somente algumas participações, o personagem se transformou no principal vilão da série.

  • Michael Keaton foi primeira escolha para viver o personagem Jack Shepard. Porém o ator recusou.
  • Os roteiristas tinham imaginado que o personagem Jack Shepard morreria no primeiro episódio. Porém, não fazia sentido que ele deixasse a série devido o papel que ele desempenharia . Assim, chamaram Matthew Fox para o elenco.

  • O voo Oceanic 815, de Sydney para Los Angeles, aconteceu em 22 de setembro de 2004, data em que o episódio piloto foi exibido na ABC Channels.

  • A soma dos números 4, 8, 15, 16, 23 e 42 é igual a 108, número total de dias que os passageiros passaram na ilha antes do resgate dos “Oceanic Six”.

  • Um dos fatores que contribuiu para o sucesso de Lost foi seu caráter multinacional, sem aquela cara de produção norte-americana. O elenco tinha mais de dez nacionalidades diferentes, com direito à participação do brasileiro Rodrigo Santoro na terceira temporada, como Paulo.

Ficha Técnica:

Título Original: Lost

Título no Brasil: Lost

Gênero: Drama, Ficção Científica, Aventura

Temporadas: 6

Episódios: 121

Criadores: Jeffrey Lieber, J. J. Abrams, Damon Lindelof

Produtores: J. J. Abrams, Damon Lindelof, Bryan Burk, Carlton Cuse, Jack Bender, Jeff Pinkner, Edward Kitsis, Adam Horowitz, Elizabeth Sarnoff

Diretores: Vários

Roteiros: Vários

Elenco: Naveen Andrews, Emilie de Ravin, Matthew Fox, Jorge Garcia, Maggie Grace, Josh Holloway, Malcolm David Kelley, Daniel Dae Kim, Yunjin Kim, Evangeline Lilly, Dominic Monaghan, Terry O’Quinn, Harold Perrineau, Ian Somerhalder, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Michelle Rodriguez, Cynthia Watros, Henry Ian Cusick, Michael Emerson, Elizabeth Mitchell, Kiele Sanchez, Rodrigo Santoro, Jeremy Davies, Ken Leung, Rebecca Mader, Lana Parrilla, Nestor Carbonell, Jeff Fahey, Zuleikha Robinson, Sam Anderson, L. Scott Caldwell, François Chau, Fionnula Flanagan, John Terry, Sonya Walger

Companhias Produtoras: Bad Robot Productions, Touchstone Television, ABC Studios

Transmissão: Walt Disney Studios Home Entertainment

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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