SINOPSE: Nessa adaptação de Guillermo Del Toro, acompanhamos o brilhante, mas egocêntrico cientista Victor Frankenstein (Oscar Isaac), que resolve se aventurar em experimentos audaciosos e criar do zero uma criatura com vida. O que essas tentativas e estudos desencadeiam é uma tragédia tanto para o criador quanto para sua criação monstruosa (Jacob Elordi). Brincar de Deus levou Frankenstein a concretizar suas maiores ambições científicas, mas colocou-o na mira da raiva de sua própria criatura, que, agora, busca por vingança após se ver descartada pelo professor.
Guillermo del Toro é um cineasta, roteirista e produtor mexicano, considerado um dos mais bem-sucedidos de sua geração. Com 21 filmes, del Toro consolidou sua carreira na década de 2010, principalmente no gênero de ficção e fantasia com títulos como “Blade II”, “Pacific Rim”, “Hellboy”, “Labirinto do Fauno”, “Pinocchio”, “A Forma da Água” e “A Colina Escarlate” (lembre-se desse último).
Depois do filme animado em stop motion “Pinocchio” e da série “O Gabinete de Curiosidades”, chega a terceira produção da parceria firmada entre Guilhermo del Toro e a Netflix: o ambicioso longa-metragem “Frankenstein”.
O que chama a atenção logo de cara em “Frankenstein” é a grandiosidade e cuidado com a parte visual. Locações, cenários, figurino, são utilizados para criar uma drama épico.
Lendo algumas reportagens, Guilhermo del Toro declara que quis explorar os limites de cada departamento cinematográfico: sets imensos, objetos cinematográficos grandiosos, figurinos complexos, tudo criado com efeitos práticos, com o CGI somente dando aquele retoque. O maior exemplo disso é o navio encalhado no gelo polar ártico, que foi construído em escala real e colocado em uma estrutura para realmente se mover quando a Criatura o empurra com sua força descomunal.
Esse trabalho em construir tudo e em escala real transforma “Frankenstein” em um espetáculo visual, imergindo quem assiste de forma instantânea e nos transportando para dentro da história.
Guilhermo del Toro já tinha feito algo parecido em “A Casa da Colina”, mas o que se vê em “Frankenstein” é algo maior e mais impressionante, mostrando não só o cuidado com essa produção, mas o amor do diretor mexicano com a história escrita por Mary Shelley.
Visualmente, “Frankenstein” é impecável com uma única ressalva: o figurino feminino, que achei um tanto esvoaçante e exagerados em alguns momentos (por que tanto lenço e pano cobrindo a cabeça?). Mas esse detalhe é mais uma opinião minha do que uma análise técnica. Até porque as roupas e adereços utilizado pelos atores, atrizes e figurantes possuem o mesmo cuidado e esmero que o restante apresentado no filme.
Se a parte visual de “Frankenstein” encanta, mas também choca quem está assistindo ao filme, principalmente na parte que mostra os experimentos de Victor (Oscar Isaac) com corpos humanos, mostrando que Guilhermo del Toro empregou seus conhecimentos em produções de terror para tal feito.
O detalhismo da maquiagem, próteses e mecatrônicos atendem a expectativa de Guilhermo del Toro que queria que as cenas envolvendo corpos humanos e as cirurgias e intervenções médicas de Victor fossem a mais próxima da realidade possível.
No início do relato de Victor já temos uma amostra disso mostrando o jovem Victor expondo seu experimento para outros doutores e acadêmicos de medicina: a parte superior do corpo de uma pessoa sendo reanimada através de correntes elétricas. Com a utilização de um mecatrônico a minha reação foi a mesma da platéia de Victor.
E se você não se convencer com essa cena, então espere para ver o processo de criação da Criatura, mostrando Victor cortando partes de corpos e empreendendo cirurgias para interligar membros, troncos, órgãos e assim criar vida à partir das morte.
E com isso, chegamos ao cerne de “Frankenstein”: o homem brincando de ser Deus e as consequências disso. Contado em dois atos, temos parte da história narrada do ponto de vista de Victor e outra pelos olhos da Criatura.
A história de Victor é condizente com o que é mostrado no romance de Mary Shelley, mas com um acréscimo. Na obra original, Victor cresce em um lar estável e amoroso, sem grandes tragédias, enquanto que no filme, sua infância é marcada pela morte da mãe e pela figura de um pai severo e controlador, o que molda sua obsessão por controlar a vida e desafiar a morte. Dessa forma, a perseguição para a “cura” da morte não é mais somente por ambição e arrogância, mas uma forma de curar feridas profundas.
Mas essa camada trágica, retira um pouco da inumanidade que o personagem possui na história original, pois no processo de criação do monstro até o “nascimento” do mesmo, me recordo de um Victor que só se importa com seu sonho, colocando de lado pessoas importantes, usando quem precisa para atingir seus meios e ultrapassando vários limites.
Mas apesar disso, Victor é um personagem interessante no filme e traduz bem o papel de mentes criativas possuidoras de sonhos e ensejos que a sociedade da época não entende e que acabam o rotulando de louco e herege.
Apesar de não achar uma atuação espetacular, Oscar Isaac emprega bem seu talento para dar vida a Victor Frankenstein. Sua expressividade em cena traduz bem algumas nuances do personagem.
O segundo ato do filme segue logo após a explosão do laboratório de Victor e a partir desse ponto vemos a trajetória da Criatura. Gostei dessa dualidade entre drama e fúria que o personagem adquiriu nesse filme. Não que essas camadas não existam no livro ou na adaptação protagonizada por Robert De Niro, mas nesse longa-metragem em questão, senti um equilíbrio maior desses sentimentos.
E não é somente nas ações da Criatura que temos esses sentimentos sendo demonstrados, mas nos enquadramentos dela, principalmente quando ela é vista nas sombras e seu olho esquerdo adquire uma coloração avermelhada, demonstrando que dentro desse personagem existe uma fúria quase incontrolável por se sentir inadequado em relação ao mundo à sua volta.
Mas algo que muda bastante é que a Criatura no romance de Mary Shelley mata o irmão de Victor, seu amigo e Elizabeth, enquanto que no filme ele só reage com violência em legítima defesa, reforçando sua condição de vítima da intolerância e do abandono, e não de vilão.
A atuação de Jacob Elordi é impecável e demonstra bem essa miríade de sentimentos complexos e muitas vezes conflitantes da Criatura. Não à toa, o ator foi aplaudido de pé durante treze minutos no Festival de Veneza e dentre as indicações que “Frankenstein” deve receber para o Oscar, Jacob Elordi deve concorrer ou na categoria de Melhor Ator.
Um detalhe sobre a Criatura é a respeito da maquiagem utilizada: gosto bastante do que foi feito para mostrar o personagem no seu estágio inicial, mas já não achei tão impressionante nos dias atuais dele.
“Frankenstein” caminha bem até o reencontro de Victor e da Criatura, que de certa forma inicia o terço final do filme, com um ritmo narrativo dando tempo e espaço para a construção das situações. Porém após o reencontro dos protagonistas o longa-metragem fica atabalhoado, com tudo sendo mostrado meio que a toque de caixa e resoluções muito rápidas e em alguns momentos, convenientes demais. A discussão que se segue após o pedido da Criatura para Victor criar uma companheira, a perseguição do criador à criatura pelo gelo ártico e até o desfecho entre eles, são exemplos do que estou falando.
Não achei números de bilheteria ou a quantidade horas assistidas na Netflix, mas pelos elogios de quem assiste e por ter figurado no Top 10 da plataforma da Tu Dum, “Frankenstein” se mostra um sucesso financeiro e de crítica. O que me surpreendeu foi o orçamento de produção e US$ 120 milhões, pois pelo que vemos ao assistir, me pareceu que a Netflix tinha desembolsado bem mais. Mas esse fato só reforça o talento de Guilhermo del Toro.
Essa nova adaptação cinematográfica da obra de Mary Shelley deve figurar nas principais categorias das principais premiações, bem como Guilhermo del Toro e Jacob Elordi.
Um filme visualmente perfeito que adapta do seu jeito uma obra-prima do terror e que é considerada o primeiro romance de ficção científica da literatura. Porém, seu terço final apressado estraga um pouco o show que o longa-metragem proporciona. Apesar disso, só posso dizer que vale a pena assistir “Frankenstein”!
Ficha Técnica:
Título Original: Frankenstein
Título no Brasil: Frankenstein
Gênero: Ficção Científica, Drama
Duração: 150 minutos
Diretor: Guillermo del Toro
Produção: Guillermo del Toro, J. Miles Dale, Scott Stuber
Roteiro: Guillermo del Toro
Elenco:
Oscar Isaac, Jacob Elordi, Christian Convery, Mia Goth, Felix Kammerer, Lars Mikkelsen, Christoph Waltz, Charles Dance, Lauren Collins, David Bradley, Sofia Galasso, Ralph Ineson, Burn Gorman
Companhias Produtoras: Double Dare You, Demilo Films, Bluegrass 7
Distribuição: Netflix
