SINOPSE: Vamos acompanhar a história de Eddie Gein, um homem aparentemente tranquilo e solitário que vivia em uma fazenda decadente. Mas escondia os horrores cometidos por um dos maiores assassinos e ladrões de túmulos da história dos Estados Unidos. Os crimes de Gein acabaram servindo de inspiração para dezenas de obras de ficção como O Silêncio dos Inocentes, Psicose e O Massacre da Serra Elétrica.

Em 2022 a Netflix lançava “Dahmer: Um Canibal Americano”, com Evan Peters no papel de Jeffrey Dahmer, o serial killer que durante mais de uma década, matou dezessete pessoas. A série “true crime” da Tu Dum, dirigida e produzida por Ryan Murphy, de “American Horror Story, foi um sucesso absoluto.

Esse sucesso, fez a Netflix criar a antologia “Monstros”, onde cada temporada falaria de um serial killer diferente e dessa forma, Dahmer foi o primeiro ano. A segunda temporada foi sobre os irmãos Menendez, conseguiu novamente excelentes números de visualizações.

Esse ano chegou a terceira temporada da antologia “Monstros”, trazendo a romantização sobre a vida e os crimes de Ed Gein.

Ed Gein, cresceu na fazenda da família, praticamente isolado da sociedade e oprimido pela rigidez e religiosidade extrema da mãe. Ficou conhecido como o Açougueiro de Plainfield. Entre seus crimes estava assassinato e roubo de cadáveres humanos. Foi condenado pelo homicídio de duas mulheres, crimes confessados por ele. Era suspeito de ter matado outras sete pessoas. Ed Gein foi considerado inapto para ser julgado e em 1968 foi considerado culpado e legalmente insano por ser diagnosticado com esquizofrenia. Dessa forma, foi confinado em uma instituição psiquiátrica até falecer em 1984.

O ponto central dessa temporada é relação conturbada entre Ed Gein e sua mãe, Augusta (Laurie Metcalf). A educação rígida e o fervor religioso da mãe de Ed, impondo isolamento, principalmente em relação as mulheres, juntamente com lições de moral que chegavam à humilhação, muito provavelmente contribuíram para o agravamento do quadro mental de Ed.

Interessante que o fervor religioso de Augusta e a imposição dela para que Ed não se relacionasse com mulheres para não propagar o que ele tinha de errado, me lembrou a relação de Carrie e sua mãe em “Carrie: A Estranha”.

O agravamento da esquizofrenia de Ed Gein ocorre com a morte da Augusta. A partir daí, os eventos de disrupção da realidade se tornam cada vez mais frequentes. Entre várias ilusões vívidas, Ed Gein passa a ter conversas e encontros com pessoas como Ilse Koch (Vicky Krieps), uma criminosa de guerra nazista, e sua falecida mãe.

E é quando ele conhece Ilse Koch, que Ed Gein passa a roubar corpos do cemitério para replicar a “arte” nefasta da criminosa nazista: vasilhames e copos feitos de crânios humanos, abajures e móveis forrados com pele de cadáveres humanos. Nesse ponto a série da Netflix retrata de forma bem gráfica toda essa barbaridade e bizarrice, se transformando em um show de horrores quando a polícia vasculha a casa de Ed Gein, após ele ser preso.

Além desse devaneio com corpos humanos, Ed Gein fantasiava com quase tudo que lhe interessava, como quando ficou sabendo sobre Christine Jorgensen, a primeira pessoas a ter passado pela cirurgia de redesignação sexual nos EUA. Ao ter conhecimento disso, Ed passou a delirar com Christine.

Mas o grande problema de Ed Gein era a completa dissociação de identidades devido a sua esquizofrenia, muitas vezes o levando a cometer atos bizarros e até mesmo matar pessoas e não ter recordações do que fez. Essa espécie de TDI (transtorno dissociativo de identidade) foi utilizado no filme “Psicose”, onde Norman Bates (Anthony Perkins) se vestia e agia como sua mãe falecida.

A esquizofrenia de Ed Gein era de um grau tão alto, que realmente achava ter interagido com sua mãe e outras pessoas, como Christine Jorgensen e Ilse Koch, mas na realidade somente uma pessoa esteve presente: ele mesmo. E é quando o psiquiatra da instituição que está internado diz isso a ele, temos o momento mais emocionante da temporada.

Essa humanização de Ed Gein na série pode ter gerado algum descontentamento assim como aconteceu na primeira temporada, quando Jeffrey Dahmer tenta alertar seus pais que há algo de errado com ele. Acredito que a ideia tanto com Dahmer quanto com Gein, é mostrar que tudo que eles fizeram é devido a um transtorno mental e relações familiares e humanas conturbadas.

“Monstro: A História de Ed Gein” tem um problema no seu ritmo narrativo, proveniente de seus episódios muito longos, o que gerou um certo cansaço depois de certo tempo assistindo. “Dahmer: Um Canibal Americano” tem esse mesmo contratempo, levando a não terminar de assistir a temporada. Só terminei esse ano da antologia, devido ao interesse na história de Ed Gein.

Essa duração dos episódios muitas vezes levaram os responsáveis pela série a criarem situações que ou não existiram ou não eram relevantes para a trama principal, como a questão de Anthony Perkins ter sido escolhido para o papel de Norman Bates por ser homossexual. A justificativa de roteiro me pareceu fraca demais para a inserção desse fato: tanto o ator quanto Ed Gein viviam duas vidas, sendo uma escondida.

O próprio episódio em que Adeline (Suzanna Son) focado na sua viagem para conhecer e trabalhar com Weegee (Elliott Gould), apesar de interessante, me pareceu só uma subtrama barata para aumentar o tempo de exibição. O que interessa nisso tudo é o resultado frustrante do encontro de Adeline e Weegee.

“Monstro: A História de Ed Gein” é baseado no true crime, dessa forma algumas coisas foram inseridas ou alteradas para dar mais ritmo narrativo à temporada. Abaixo alguns temas que foram criados ou alterados:

  • Henry Gein morreu por asfixia, com queimaduras superficiais. Ed Gein ter batido na cabeça do irmão foi inserido para retratar a esquizofrenia dele, já que ele não tinha lembranças de tal agressão.
  • Apesar de Adeline Watkins afirmar que conviveram e até noivaram, não há provas de que ela e ED tenham sido um casal, pois algum tempo depois ela desmentiu o compromisso com Ed e disse que foram apenas amigos.
  • Ilse Koch realmente existiu, mas não há provas de que ela tenha inspirado Ed Gein.
  • Os caçadores que aparecem na fazenda de Ed Gein realmente desapareceram, mas seus assassinatos e a relação com Ed não foram confirmados.
  • Apesar de Ed Gein ter trabalhado como babá, mas não há evidências que ele tenha assustado crianças como mostrado na série. Da mesma forma, Ed negou veemente que matou Addison Rae.
  • Não existem evidências que Ed Gein tenha presenteado os moradores da cidade com carne de suas vítimas, bem como ele ter cometido necrofilia, algo que ele negou.
  • O leilão dos objetos da casa bem como a fazenda de Ed Gein não ocorreu.
  • Ed Gein não participou da captura de Ted Bundy, sendo totalmente inventado, ao que parece, para fazer uma conexão com “Mindhunter”, outra série da Netflix.
  • Não existem provas de que Ed Gein tenha tido relação com outros assassinos, nem que tenha se correspondido com outros serial killers.

Esse último fato inventado para “Monstro: A História de Ed Gein” acredito que foi criado com o objetivo de transformar Ed Gein em um ícone para os demais serial killers que viera depois dele, transformando-o em uma “espécie” de pai de todos os assassinos seriais.

Agora, se a temporada cria vários fatos e situações, a parte em que Ed Gein e seus crimes inspiraram os filmes citados são verdadeiros. Alfred Hitchock replicou a relação conturbada de Ed e Augusta, bem como a esquizofrenia dele, para dar vida a Norman Bates e sua mãe. Tobe Hooper criou Leatherface pensado em Ed Gein, principalmente em relação ao assassino que usava rostos humanos como máscaras. Algo semelhante ocorreu com Buffalo Bill, que fazia roupas com peles de mulheres e as vestia.

Falando rapidamente das atuações, vale destacar o trabalho de Laurie Metcalf e Charlie Hunnam. Laurie encarna com convicção Augusta Gein, a mãe rígida e religiosa fervorosa que ao seu jeito, era a única que realmente amava Ed Gein. Hunnam que viu e ouviu as fitas reais das sessões com Ed Gein, criou sua própria versão do Açougueiro de Plainfield, seja na voz, seja nos olhares, trazendo um personagem que passava abaixo do radar das pessoas, que jamais desconfiaram que ele pudesse cometer algum crime, até vasculharem sua casa.

“Monstro: A História de Ed Gein” relata muito bem os crimes grotescos cometidos  por Ed, mas o que me surpreendeu foi o tom humano, ao mostrar que apesar da esquizofrenia que o protagonista tinha, muito do que ocorreu a ele, agravou sua condição, o levando a se tornar o assassino e ladrão de túmulos retratado na temporada.

Tirando o ritmo narrativo da temporada que pesa contra, todo o restante da temporada está muito bem retratado, seja real ou inventado, e por isso digo que vale a pena assistir Monstro: A História de Ed Gein”.

Ficha Técnica:

Título Original: Monster: The Ed Gein Story

Título no Brasil: Montro: A História de Ed Gain

Gênero: Drama, Policial, Suspense

Temporada:

Episódios: 8

Criadores: Ryan Murphy, Ian Brennan

Produtores: Ryan Murphy, Ian Brennan

Diretores: Max Winkler, Ian Brennan,

Roteiro: Ian Brennan

Elenco:                 Charlie Hunnam, Suzanna Son, Vicky Krieps, Laurie Metcalf, Tom Hollander, Robin Weigert, Charlie Hall, Tyler Jacob Moore, Alanna Darby,

Hudson Oz, Nick Carpenter, Olivia Williams, Joey Pollari, Mimi Kennedy, Rondi Reed, Ethan Sandler, Jackie Kay, Addison Era, Will Brill, Darin Cooper, Lesley Manville, Rebecca Tilney, Christoph Sanders, Elliott Gould, Linda Reiter, Meighan Gerachis, Golden Garnick, Tobias Jelinek, John T. O’Brien, Happy Anderson

Companhias Produtoras: Netflix

Transmissão: Netflix

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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