SINOPSE: Em “It: Capítulo 1”, a pacata rotina da cidade de Derry, uma cidade no Maine, é abalada quando crianças começam a desaparecer e tudo o que pode ser encontrado delas são partes de seus corpos. Logo, os integrantes do Clube dos Otários acabam ficando face a face com o responsável pelos crimes: o palhaço Pennywise (Bill Skarsgard).
SINOPSE: Em “It – Capítulo 2”, 27 anos depois dos eventos do primeiro filme, Mike (Isaiah Mustafa) percebe que o palhaço Pennywise (Bill Skarsgard) está de volta à cidade de Derry. Ele convoca os antigos amigos do Clube dos Otários para honrar a promessa de infância e acabar com o inimigo de uma vez por todas. Mas quando Bill (James McAvoy), Beverly (Jessica Chastain), Ritchie (Bill Hader), Ben (Jay Ryan) e Eddie (James Ransone) retornam às suas origens, eles precisam se confrontar a traumas nunca resolvidos de suas infâncias, e que repercutem até hoje na vida adulta.
Stephen King possui números incríveis. Seus livros já venderam mais de 400 milhões de cópias, com publicações em mais de 40 países, ocupando a 9ª colocação de autores mais traduzido do mundo. Possui mais de 60 romances publicados, sendo 7 sob o pseudônimo de Richard Bachman, mais de 200 contos compilados em 12 coletâneas e 5 livros de não ficção.
Stephen King é o autor com mais obras adaptadas para o cinema e televisão, inclusive as mais aclamadas: “O Iluminado”, “Carrie: A Estranha”, “A Dança da Morte”, “Misery”, “Salem”, “O Cemitério” e “It: A Coisa”.
“It: A Coisa” ganhou duas adaptações: a telessérie “It: Uma Obra-Prima do Medo”, de 1990, e os filmes dirigidos por Andy Muschietti e lançados em 2017 e 2019. E é sobre esses longas-metragens que vamos falar nessa resenha.
A primeira decisão que o diretor Andy Muschietti e os produtores tomaram foi dividir o livro em dois filmes. “It: A Coisa” é um dos calhamaços do autor, com 1104 páginas. Então, pegar a obra literária e transformar em dois longas-metragens se mostrou acertada, podendo adaptar da melhor forma possível um dos livros mais queridos dos fãs de Stephen King.
It: Capítulo 1
Em “It: Capítulo 1” acompanhamos Bill (Jaeden Lieberher), Beverly (Sophia Lillis), Ritchie (Finn Wolfhard), Ben (Jeremy Ray Taylor), Eddie (Jack Dylan Grazer), Mike (Chosen Jacobs) e Stan (Wyatt Oleff) ainda crianças, vivendo suas vidas e enfrentando Pennywise.
A primeira mudança feita em relação aos livros é quanto ao ano em que o primeiro embate entre o Clube dos Otários e Pennywise acontece. No livro esse encontro ocorre entre 1957 e 1958 e no filme em 1988-1989. Essa mudança se deu por dois motivos, sendo um declarado pelos responsáveis, que foi o de fazer as datas da história do capítulo dois coincidir ou ficar próximo ao seu lançamento, que foi 2019. A segunda razão, não tão declarada assim, foi aproveitar o hype de “Stranger Things”.
E antes que você ache alguma coisa, “It: Capítulo 1” e “Stranger Things” se passam na década de 1980 e falam sobre um grupo de crianças enfrentando forças sobrenaturais, mas é a série da Netflix que copia as ideias do livro de Stephen King, lançado em 1986, e não o contrário.
O grande trunfo de “It: Capítulo 1” é seu excelente ritmo narrativo, que embala quem assiste , prendendo nossa atenção para a jornada do Clube dos Otários. Dentro dos meus conhecimentos técnicos limitados de cinema, sempre falo que se não existe conexão entre os personagens e o espectador, muito provavelmente a história contada não será assimilada, e dessa forma, rejeitada.
O roteiro de “It: A Coisa” é ágil e equilibra com perfeição os eventos sobrenaturais envolvendo os habitantes de Derry e os dramas pessoais dos integrantes do Clube dos Otários. Além de enfrentarem os desafios da transição da infância para adolescência como escola, amizade, romance e bullyng, eles ainda precisam lidar com problemas pessoais pesados: Bill com o luto e a culpa pela morte de seu irmão mais novo, Ritchie com sua orientação sexual em uma cidade preconceituosa, Ben com sua obesidade e alvo de brincadeiras perigosas, Eddie com a superproteção tóxica da mãe, Mike com a morte dos pais em um incêndio, Stan com o conflito de culturas por ser judeu. Porém, o drama mais pesado de todos é o de Beverly que vive com o pai que sente desejo por ela; situação essa amenizada quando comparado ao que lemos no livro.
Mas o filme as mostram vivendo suas vidas como crianças, mesmo com tantos dramas pesados. Então vemos o Clube dos Otários andando de bicicleta, nadando, fazendo piadas, descobrindo o romance, correspondido ou não.
Esse equilíbrio narrativo nos faz gostar deles instantaneamente porque estamos vendo a representação de tantas crianças e adolescentes da vida real, o que cria identificação com o espectador em algum grau.
E é nesse ponto que o elenco infantil brilha de forma sensacional, pois o roteiro com tantas nuances e temas tão pesados se mostra, mesmo para atores e atrizes adultos e talentosos, um desafio. Mas Jaeden Lieberher, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Jeremy Ray Taylor, Jack Dylan Grazer, Chosen Jacobs e Wyatt Oleff dão um show de interpretação, sendo impossível destacar algum deles.
E é claro que precisamos falar do grande vilão de “It: A Coisa”. Coube a Bill Skarsgård o desafio de interpretar Pennywise, personagem vivido de forma primorosa por Tim Curry em “It: Uma Obra-Prima do Medo”. Mas o que vemos no filme de 2017 é algo absurdo, que fica difícil colocar em palavras.
Pennywise é fruto da atuação incrível de Bill Skarsgård, que criou todos os trejeitos para o palhaço dançarino e o resultado é uma criatura bizarra, sarcástica, imprevisível, maldosa e violenta, colocando o personagem ao lado Jason, Freddy Krueger, Michael Myers e outros ícones do terror.
Dessa forma, temos o terror mais clássico, com os ataques violentos de Pennywise e jump scares, quanto o psicológico, com o palhaço dançarino atormentando e deixando as crianças do Clube dos Otários apavoradas, para se alimentar do medo delas.
A decisão de dividir o livro de Stephen King em dois filmes foi uma aposta que dependia muito do sucesso do primeiro longa-metragem para ser concretizada. Tanto falo que foi uma aposta que o orçamento de “It: Capítulo 1” foi de apenas US$ 40 milhões. Mas devo dizer que fiquei impressionado com tudo o que foi feito com um orçamento não tão alto.
“It: Capítulo 1” foi um sucesso estrondoso, arrebatando o público e a crítica, e rendendo US$ 700 milhões se tornando a maior bilheteria de um filme de terror da história.
Todo esse sucesso financeiro e de crítica fez com que a Warner anunciasse “It: Capítulo 2” para 2019.
It: Capítulo 2
“It: Capítulo 2” veio cercado das mais altas expectativas devido ao sucesso do primeiro filme. Muitos esperavam um desfecho grandioso e violento entre Pennywise e os integrantes do Clube dos Otários, agora adultos.
Tanto nos materiais promocionais quanto no filme, Pennywise se mostra menos paciente e mais cruel, demonstrando uma fúria não presente no primeiro embate com o Clube dos Otários. Isso se deve ao fato do palhaço dançarino não conseguir se alimentar direito e ficar 27 anos passando fome. Outro fator que explica essa raiva vem da frustração de ter seu desjejum negado por crianças, meros humanos, já que a persona do palhaço como tantas outras é um disfarce para esconder sua real natureza: um ser vindo de outra dimensão e mais antigo que nosso Universo, conhecido com o Devorador de Mundos.
Mais uma vez Bill Skarsgård está impecável novamente como Pennywise, mesmo nos piores momentos desse filme. Sua atuação consegue dar as nuances e diferenciar esse palhaço dançarino do que vimos em “It: A Coisa”: ele parece sorrir menos, seus olhos demonstram um brilho maligno na maior parte do tempo, entre outros trejeitos. O figurino e a maquiagem reforçam esse aspecto raivoso, com roupas encardidas e fisionomias maiores que o normal.
O elenco para viver as versões adultas dos integrantes do Clube dos Otários possui nomes conhecidos como James McAvoy, Jessica Chastain e Bill Hader, interpretando Bill, Beverly e Richie respectivamente. Mas aqui começam os problemas de “It: Capítulo 2”.
A ideia de trazer grandes nomes para interpretar os integrantes do Clube dos Otários era manter o trabalho excepcional realizado pelos atores-mirins no primeiro filme, mas o que se vê são atuações apagadas. Jessica Chastain e Bill Hader são insípidos e pouco fazem para trazer o brilho das versões mais novas de Beverly e Richie. James McAvoy que já demonstrou um talento absurdo em “Fragmentado”, interpreta uma versão apatetada de Bill, algo inexistente no líder do clube de amigos.
O que mais se destaca é James Ransone, que vive a versão adulta de Eddie. Além da incrível semelhança com Jack Dylan Grazer, sua intepretação é incrível e demonstra o mesmo carisma que o jovem ator trouxe para o personagem. Foi divertido vê-lo todas as vezes que esteve em cena, e ansiava por novas aparições de seu Eddie.
“It: Capítulo 2” caminha bem até a sua metade, mostrando os ataques cada vez mais incisivos e violentos de Pennywise e os integrantes do Clube dos Otários buscando se conectar novamente, pois somente juntos podem vencer o palhaço dançarino. O problema é a condução e as decisões criativas da segunda metade do filme.
Quando foi revelado que a duração de “It: Capítulo 2” teria quase três horas de duração, pensei que veria quase tudo que acontece no combate final com Pennywise. Porém, Andy Muschietti perde tempo voltando em situações que já foram mostradas nos dois filmes, tornando o filme lento e desinteressante.
Para piorar, o Ritual de Chud é totalmente descaracterizado, se tornando uma cerimônia nativo-americana que envolve a queima de totens de memórias. Até entendo que não quisessem usar a versão do livro que é algo mais psicodélico: uma batalha psíquica em um plano mental chamado Macroverso, mas ao desconsiderar tudo o que acontece nas páginas da obra de Stephen King, os responsáveis por “It: Capítulo 2” frustraram todos, principalmente os fãs do autor.
Nas páginas do livro, durante o Ritual de Chud, conhecemos a real forma de Pennywise e suas origens: um ser de outra dimensão, mais antigo que nosso Universo. Uma criatura vil e maligna que consome mundos inteiros. No filme, Pennywise até menciona que é o Devorador de Mundos, mas esse título não tem peso nenhum sem o contexto.
Além do ritmo arrastado da segunda metade do filme, decisões criativas que descaracterizaram muito do que vimos no trecho final do livro, Andy Muschietti faz bullying com o palhaço para resolver o problema que é Pennywise.
O que era para ser o desfecho perfeito para uma história tão bem construída e conduzida no primeiro filme, virou uma decepção para quem assistiu “It: Capítulo 2”, muito inferior ao longa-metragem antecessor.
Essa inferioridade refletiu nas bilheterias: US$ 473 milhões. E tendo gastos 79 milhões para produzir (o dobro do que foi utilizado em “It: Capítulo 1”), essa arrecadação se mostrou uma decepção e até mesmo um prejuízo para a Warner.
Veredicto
Com uma tradução prefeita da magia e os dramas da infância dos personagens e o terror que existe em Derry, que basicamente são uma única coisa, existentes nas páginas do livro, “It: Capítulo 1” é uma das melhores adaptações de uma obra de Stephen King e um ótimo filme de terror, valendo muito a pena assisti-lo.
Já “It: Capítulo 2” até tem boas intenções, mas no final traz uma narrativa cansada e repetitiva, com as versões adultas insípidas dos personagens do Clube dos Otários, com exceção de Eddie. Pennywise continua impecável e seus piores momentos são culpa dos responsáveis do filme, que entre tantas decisões criativas ruins, simplesmente ignoram os elementos do horror cósmico que permeiam a natureza do palhaço dançarino. Por esses motivos, não vale a pena assistir “It: Capítulo 2”.
Ficha Técnica:
Título Original: It Chapter One e It Chapter Two
Título no Brasil: It: A Coisa e It: Capítulo 2
Gênero: Terror
Duração: 135 minutos (It: A Coisa) e 170 minutos (It: Capítulo 2)
Diretor: Andy Muschietti
Produção: Roy Lee, Dan Li, Seth Grahame-Smith, David Katzenberg, Barbara Muschietti
Roteiro: Chase Palmer, Cary Fukunaga, Gary Dauberman
Elenco: Bill Skarsgård, Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Wyatt Oleff, Nicholas Hamilton, Jackson Robert Scott, Owen Teague, James McAvoy, Jessica Chastain, Jay Ryan, Bill Hader, Isaiah Mustafa, James Ransone, Andy Bean, Teach Grant,
Andy Bean
Companhias Produtoras: New Line Cinema
Distribuição: Warner Bros. Pictures
