SINOPSE: Ares (Jared Leto), um sofisticado programa que é enviado do mundo digital para o mundo real em uma perigosa missão, marcando o primeiro encontro da humanidade com seres de Inteligência Artificial.
Em 1982, chegava aos cinemas “Tron” (no Brasil ganhou o subtítulo “Uma Odisseia Eletrônica”), trazendo um enredo onde pessoas eram digitalizadas para a Grade, um mundo digital, onde precisam enfrentar o MCP (Master Control Program) e seu comandante Sark. A ideia para o filme surgiu em 1976, quando Steven Lisberger, viu um filme usando imagens geradas por computador (CGI) e ter jogado “Pong”.
Admito que lembro bem pouco de “Tron”, mas a ideia de pessoas sendo transportadas para um mundo digital e lutando com programas foi bastante ousada para a época em que videogames tinham poucos anos de vida e computadores ainda eram novidades.
“Tron” teve uma boa recepção na época e faturou cerca de US$ 50 milhões para um orçamento de US$ 17 milhões. O filme foi indicado para duas categorias no Oscar: Melhor Figurino e Melhor Som, a três prêmios Saturn: melhor Filme de Ficção Científica, Melhor Filme Animado e Melhor Figurino (ganhando essa última). O longa-metragem foi reconhecido pelo Guinness World Records como o primeiro grande filme a completamente usar animação gerada por computador.
Porém, apesar dos prêmios e da boa recepção do público, a Walt Disney achou que “Tron” decepcionou financeiramente, mesmo ele sendo a maior bilheteria do estúdio em 1982.
Dessa forma, um novo filme ambientado nesse universo digital só chegaria 28 anos depois do lançamento do longa-metragem original. “Tron: O Legado” chegava aos cinemas em 2009 e mostrava Sam, filho de Flynn, respondendo a uma suposta mensagem de seu pai, desaparecido desde 1989. Ao entrar em uma sala secreta no abandonado Fliperama do Flynn, ele é transportado para a Grade, onde junto com seu pai e o algoritmo Quorra, deve impedir o malevolente programa Clu de subjugar completamente o mundo computacional e o real.
O segundo filme da franquia teve críticas mistas, com nota de 51% no Rotten Tomatoes e 6,8/10 no IMDb. Além disso, A Walt Disney, mais uma vez, achou que “Tron: O Legado” não trouxe o retorno financeiro desejado (US$ 400 milhões para o orçamento de US$ 170 milhões) e então, a franquia foi para a geladeira mais uma vez, só retornando esse ano, dezesseis anos depois, com “Tron: Ares”.
O plot de “Tron: Ares” é a corrida de duas empresas: a ENCOM e a Dillinger Systems pela liderança em trazer elementos digitais para a realidade. Mas para isso, essas corporações precisam achar o código de permanência para quebrar o limite de 29 minutos que qualquer elemento digital pode permanecer no mundo real e assim ficando indefinidamente em nosso mundo.
E é essa a ligação de “Tron: Ares” com os demais filmes da franquia: Kevin Flynn pode ter criado o código de permanência e escondido em seus computadores.
Aqui fica bem claro a definição de bem e mal, sendo que a ENCOM, liderada por Eve Kim (Greta Lee), quer utilizar a tecnologia de conversão e o código de permanência para melhorar o mundo, enquanto que a Dillinger Systems quer lucrar, trazendo da Grade, soldados mais fortes, ágeis, inteligentes e incansáveis que qualquer combatente humanos.
Outra questão abordada e aproveitando o hype é a questão da IA e sua possível senciência. É então que temos Ares (Jared Leto), um soldado digital criado por Julian Dillinger (Evan Peters), que vai adquirindo autoconsciência e após seu primeiro contato com o nosso mundo, quer ser livre e real.
Acho que o grande erro de “Tron: Ares” reside no desenvolvimento desses pontos, pois me pareceu uma narrativa fraca com temas tão relevantes e legais. O filme se passa mais no nosso mundo que na Grade e essa mudança de cenário poderia ser interessante se o que acontecesse do nosso lado não fosse tão genérico.
Temos alguns pequenos lampejos de diversão e criatividade como a corrida de motos da Grade pelas ruas da cidade ou uma nave digital sobrevoando nossos céus e entrando em combate com caças de guerra. Mas na maior parte do tempo essa interação entre o digital e o real não empolga.
Aliás, preciso dizer que me senti um pouco enganado em relação ao filme, porque achei que veria uma guerra aberta entre o real e a Grade. Pelo menos foi o que os trailers mostraram: aviões lutando nos céus contra naves digitiais. Até o nome do protagonista criou essa ideia: Ares é o nome do deus grego da guerra. Porém, o que vi foi algo bem longe de uma batalha campal entre dimensões.
Já que mencionamos Ares, preciso dizer que ele é um protagonista de pouco carisma que só diverte quando utiliza seu vasto conhecimento dos anos 1980. O soldado digital definitivo me pareceu um programa bugado, pois quase sempre passou dificuldade para vencer seus combates ou alcançar seus objetivos. Pelo que é vendido por Julian, Ares deveria parecer mais um T-1000 (ciborgue mimético feito de metal líquido de “O Exterminador do Futuro 2), mas não é bem isso que vemos.
Eve Kim, a outra protagonista do filme, não me convenceu que sua busca pelo código de permanência fosse por um bem maior. Me pareceu uma forçação de barra do roteiro que ela antagonizasse com Julian, o vilão de “Tron: Ares”.
Do lado da vilania, Julian Dillinger entrega um empresário que fará de tudo para alcançar seus objetivos pessoais e financeiros. O CEO da Dillinger Systems é ganancioso e inescrupuloso e só respeita uma única pessoa: ele mesmo. Já a mãe de Julian, Elisabeth (Gillian Anderson) se mostra uma vilã mais cerebral, servindo como uma espécie de “consciência” para seu filho em determinadas decisões.
As atuações dos atores seguem seus personagens. Jared Leto e Greta Lee são protocolares, justificando o pouco carisma de Ares e Eve, respectivamente. Gillian Anderson mostra uma faceta sua diferente da que estamos acostumados a lembrar dela, nossa eterna Dana Scully, e dessa forma sua vilã se mostra uma pessoa perigosa, gananciosa, mas meticulosa.
O grande destaque é Evan Peters. Desde seu surgimento em “American Horror Story”, o ator demonstrou ser talentoso e capaz de interpretar com competência personagens diferentes. Julian Dillinger é inescrupuloso e ganancioso a ponto de mandar seu soldado digital matar sua concorrente ou trazer armas e veículos de guerra da Grade para utilizá-los no mundo real. Muito dessa vilania sem limites é mérito da atuação de Evan Peters.
Mas “Tron: Ares” tem seus méritos, sendo o principal deles a trilha sonora. que ficou por conta da Nine Inch Nails, ou NIN, uma banda de rock industrial estadunidense. As melodias criadas e as batidas utilizadas me embalaram e me empolgaram mesmo com a narrativa requentada do filme.
Filmado em IMAX, “Tron: Ares” é visualmente muito bonito, e encanta os olhos principalmente nas cenas envolvendo os mundos digitais e seus elementos. Particularmente, nesse aspecto gosto mais de “Tron: O Legado” por ser passar 100% na Grade. Mas algo que esse filme trouxe e que achei muito legal é trazer de volta a estética do longa-metragem de 1982, quando Ares entra na Grade onde se encontra Kevin Flynn (Jeff Bridges).
Aqui abro um parêntese, pois fiquei com uma dúvida: fiquei com a impressão de que existem Grades e não um único mundo digital. Será impressão minha ou temos um Gradeverso?
O final de “Tron: Ares” faz conexão com “Tron: O Legado” e com “Tron” de 1982. Na cena pós-crédito envolvendo Julian dentro da Grade, um disco surge e uma voz misteriosa diz: “Sark”. Ou seja, se houver um quarto filme da franquia e se não sofrer nenhuma alteração nos rumos narrativos, devemos ter o retorno de personagens do filme original, o que seria muito legal.
Porém, a primeira semana nas bilheterias não correspondeu ao investimento feito para produzir “Tron: Ares”, arrecadando somente US$ 60 milhões para um orçamento de US$ 180 milhões. Já existem previsões que o longa-metragem pode ter o pior retorno financeiro da franquia e ser o maior fracasso da Walt Disney em 2025. Se isso acontecer, os planos de um quarto filme pode ser congelados ou até mesmo cancelados.
O terceiro filme dessa franquia não conversa nem com os fãs do filme original, mesmo fazendo referências como a da cena pós-crédito, nem com o novo público, ao não explorar melhor questões como IA. Como disse um comentário que li: “muito visual e ótima trilha sonora, pouco filme”. E é bem isso. Por isso, que digo que não vale a pena assistir “Tron: Ares”.
Ficha Técnica:
Título Original: Tron: Ares
Título no Brasil: Tron: Ares
Gênero: Ação, Ficção Científica
Duração: 119 minutos
Diretor: Joachim Rønning
Produção: Sean Bailey, Jared Leto, Emma Ludbrook, Jeffrey Silver, Steven Lisberger, Justin Springer
Roteiro: Jesse Wigutow
Elenco: Jared Leto, Greta Lee, Evan Peters, Jodie Turner-Smith, Hasan Minhaj, Arturo Castro, Gillian Anderson, Jeff Bridges, Cameron Monaghan, Sarah Desjardins, Selene Yun, Aaron Paul Stewart, Roger Cross, Roark Critchlow, Katharine Isabelle, Gary Vaynerchuk, Kwesi Ameyaw
Companhias Produtoras: Walt Disney Pictures, Sean Bailey Productions
Distribuição: Walt Disney Studios Motion Pictures
