SINOPSE: Kevin Lomax (Keanu Reeves), advogado de uma pequena cidade da Flórida que nunca perdeu um caso, é contratado por John Milton (Al Pacino), dono da maior firma de advocacia de Nova York. Kevin recebe um alto salário e várias mordomias, apesar da desaprovação de Alice Lomax (Judith Ivey), sua mãe e uma fervorosa religiosa, que compara Nova York a Babilônia. No início tudo parece correr bem, mas logo Mary Ann (Charlize Theron), a esposa do advogado, começa a testemunhar aparições demoníacas. No entanto, Kevin está empenhado em defender um cliente acusado de triplo assassinato e cada vez dá menos atenção para sua mulher, enquanto seu misterioso chefe parece sempre saber como contornar cada problema e tudo que perturba.
Nas décadas de 1980 e 1990, a principal forma de assistir filmes eram os programas da tv aberta destinados a essas obras. O Tela Quente da Globo e o Cine Espetacular do SBT eram os espaços premium, reservados por essas emissoras para a exibição dos lançamentos do cinema (algo que levava pelo menos um ano depois de passar nas telonas) e longas-metragens que foram sucesso de crítica e bilheteria.
E foi justamente no Cine Espetacular, exibido pela emissora do Patrão, que assisti “Advogado do Diabo”, estrelado por Al Pacino e Keanu Reeves, se tornando um dos meus filmes preferidos, e que vira e mexe, estou reassistindo. E após assistir novamente o longa-metragem, que aconteceu esse mês (09/2025), pela quinta ou sexta vez, resolvi ler e resenhar essa produção cinematográfica que tanto gosto.
A primeira a coisa que me agrada em “Advogado do Diabo” é a própria história do filme e como ela se desenrola de forma redonda, em uma crescente narrativa, culminando em um clímax intenso e um dos melhores desfechos da história do cinema.
O roteiro de Jonathan Lemkin, Tony Gilroy é bem escrito e mantém a atenção de quem está assistindo do início ao fim do filme. Em “Advogado do Diabo” temos de um lado Kevin Lomax um advogado de defesa ambicioso e talentoso, que nunca perdeu um caso, sendo contratado por John Milton, dono de uma das maiores empresas de advocacia de Nova York e do mundo. E entre esses dois personagens, temos Mary Ann, que segue uma jornada inversa a de seu marido, Kevin.
A mudança de Kevin Lomax ao longo do filme é algo que costumo dizer: quando ambição vira ganância. Nosso “herói” é um advogado ávido por brilhar nos tribunais, nunca perdendo, vencendo os casos mais difíceis e destacados de Nova York, o alçando como o maior defensor criminal da cidade. Fica evidente que sua autoestima e seu orgulho sobrepujam tudo, inclusive seu enorme e intenso amor por Mary Ann. E para reforçar esse seu lado egocêntrico, temos falas como “Sabe o que me assusta? Eu largo o caso e ela melhora. E a odiaria. Não quero sentir isso, nós podemos vencewr.” ou “Perder? Eu não perco! Eu venço! Eu venço! Eu sou um advogado! É a minha função! É o que eu faço!”
Inclusive parando agora para analisar, fico com a impressão que a decisão tomada por Kevin diante do que John Milton lhe propõe é muito mais sua vaidade, seu orgulho falando mais alto que o amor que ele sente por Mary Ann. Afinal ele não perde, ele vence.
Na outra ponta desse jogo, temos John Milton, um poderoso advogado que está sempre atiçando a fogueira da vaidade interior de Kevin, influenciando-o. Kevin é o único culpado por tudo que acontece a ele no filme, mas é graças a Milton e sua manipulação cheia de promessas que direcionam as escolhas do nosso herói.
John Milton de “Advogado do Diabo” é representação do Pai da Mentira, sussurrando, influenciando as pessoas e alimentando suas falhas e principalmente, a vaidade deles, que é seu pecado preferido. Suas falas e sua forma de agir mostram que ele prefere agir nas sombras. E esse não é o melhor disfarce possível para o Diabo? Como diria Sun Tzu: “Pareça fraco para esconder sua força”. Então parafraseando o poeta francês Charles Baudelaire: “O maior truque do Diabo foi convencer o mundo de que ele não existe”. Assim, John Milton pode colocar seu plano em prática sem que haja interferência, sem que haja desconfiança de quem ele realmente é.
E no meio desse jogo entre John Milton e Kevin Lomax, temos Mary Ann, que vê na ascensão do seu marido, a chance de realizarem todos os seus sonhos, inclusive o maior deles: o de terem um filho. Porém, seu conto de princesa encantada se torna uma história de terror à medida que a influência e os poderes de John Milton agem sobre ela, a fazendo ter visões horríveis e a levando à insanidade total. Nesse ponto, vemos Mary Ann como um obstáculo aos planos de John Milton e a única forma de trazer Kevin para o lado negro é a destruindo.
O que gosto muito em “Advogado do Diabo” é que por mais que a figura do Capiroto esteja presente, não temos muitas intervenções sobrenaturais, o que seria natural já que estamos falando do Arcanjo Decaído. Toda a história do filme é um grande jogo de influência, onde temos John Milton utilizando toda sua lábia e seu charme para convencer Kevin a aceitar seu papel no plano do “vilão”.
Coloco vilão entre aspas porque o mal desencadeado durante o longa-metragem é escolha das pessoas, quase não havendo interferência direta do Diabo, com exceção do ato final contra Mary Ann, quando ela, nua em uma igreja, relata a Kevin o que ocorreu entre ela e John Miton ou o destino trágico de Eddie Barzoon (Jeffrey Jones). Aliás, Kevin com suas escolhas e sua vaidade pode ser considerado o vilão de “Advogado do Diabo”.
O roteiro bem escrito ajudou muito, mas grande parte do sucesso de “Advogado do Diabo’” é são os atores envolvidos, principalmente Al Pacino e Keanu Reeves.
Keanu Reeves, que no ano de estreia de “Advogado do Diabo” estava com trinta e três anos, tinha como principais filmes no seu currículo “Caçadores de Emoção” e “Velocidade Máxima”, onde foi o protagonista em ambos, teve a oportunidade de demonstrar que era um bom ator, interpretando um personagem com emoções mais complexas e densas que em seus outros papéis.
Al Pacino dá um show de interpretação nesse filme, a ponto de John Milton estar no meu Top 3 de personagens memoráveis dele ao lado Michael Corleone de “O Poderoso Chefão” e Tony Montana de “Scarface”. Sua atuação confere humor, mistério, sarcasmo, drama e perigo a John Milton.
É preciso falar também de Charlize Theron, que tinha somente vinte e dois anos quando paricipou de “Advogado do Diabo”, interpretando com tamanha maestria e veracidade uma personagem tão complexa. Aliás dos trio principal de personagens, considero a de Charlize Theron nesse filme o mais difícil de dar vida, devido ao declínio da sanidade que se dá devagar até a completa loucura, descrença e desesperança de Mary Ann.
A direção de Taylor Hackford é de certa forma facilitada pelo roteiro bem afinado e atores tão talentosos dando tudo de si em suas interpretações. Mas dizer que o diretor não teve participação em trazer essa história tão instigante seria desmerece-lo.
Como disse “Advogado do Diabo” tem uma narrativa ascendente em intensidade que culmina no confronto direto de John Milton e Kevin Lomax, em show de interpretação de Al Pacino e Kevin Lomax, gerando uma das melhores cenas de todos os tempos do cinema
Antes de encerrar essa resenha, vale pontuar algumas curiosidades sobre o filme “Advogado do Diabo”.
- Charlize Theron passou uma hora por dia, durante três meses, praticando a esquizofrenia da personagem com uma terapeuta para dar veracidade a Mary Ann.
- Al Pacino recusou várias vezes o papel de John Milton. O ator dizia que o personagem era caricato e teatral demais e só aceitou fazer parte do longa-metragem após Taylor Hackford reescrever o roteiro para John Milton menos exagerado e mais sofisticado e manipulador.
- Ricardo Schnetzer, dublador de Al Pacino em “Advogado do Diavbo” consegue entregar todas as nuances, camadas e emoções que John Milton possui, dando ao personagem um algo a mais em relação a voz original.
- O quanto a interferência de Al Pacino no roteiro alterou a história original e fez se afastar tanto do livro escrito por Andrew Neiderman não sabemos, mas a verdade é que o filme e a obra literária são incríveis e trazem histórias diferentes para os mesmos personagens, quase como se estivéssemos vendo um Miltonverso.
“Advogado do Diabo”, apesar de um pouco datado para os dias atuais, é um filmaço de suspense e terror psicológico, abordando questões pertinentes o quanto a Justiça atua de forma ética e correta além de escancarar o fato de que a maldade é inerente ao homem tanto quanto a bondade, e que muitas vezes o Diabo só precisa soprar e sussurrar em nossos ouvidos para cometermos atos vis e nos tornamos a nossa pior versão.
Um clássico da década de 1990 que irá persistir por muitos anos ainda no coração de quem gosta cinema de qualidade. E é claro, que diante de tudo que escrevi até agora, que o único veredicto possível é que vale muito a pena assistir “Advogado do Diabo”!
Ficha Técnica:
Título Original: The Devil’s Advocate
Título no Brasil: Advogado do Diabo
Gênero: Terror
Duração: 140 minutos
Diretor: Taylor Hackford
Produção: Arnon Milchan, Arnold Kopelson, Anne Kopelson
Roteiro: Jonathan Lemkin, Tony Gilroy
Elenco: Keanu Reeves, Al Pacino, Charlize Theron, Jeffrey Jones, Judith Ivey, Craig T. Nelson, Connie Nielsen, Heather Matarazzo, Tamara Tunie, Murphy Guyer, Ruben Santiago-Hudson, Michael Lombard, Debra Monk, Vyto Ruginis, Laura Harrington, Pamela Gray, Mohammad B. Ghaffari, George Wyner, Neal Jones, Don King, Roy Jones Jr., Delroy Lindo, Chris Bauer, Monica Keena, Senador Al D’Amato, Harsh Nayyar, Tomatito Jose Fernandez Torres, Potito Antonio Vargas, Elena Andujar
Companhias Produtoras: Regency Enterprises, Kopelson Entertainment
Distribuição: Warner Bros.
