SINOPSE: Em um futuro distópico, uma competição mortal recruta todo ano um grupo de cinquenta jovens para o que eles chamam de a Longa Marcha, uma prova brutal de resistência transmitida para milhares de espectadores ao redor do país. As regras: se qualquer um tropeçar, cair, andar fora do limite da velocidade permitida ou sentar, recebe um aviso. Após três comunicados, você será morto. É preciso andar e andar até o último sobrevivente permanecer de pé. O prêmio é ser concedido um único desejo pelo resto da vida, mas será preciso lutar para sobreviver aos obstáculos e à exaustão.

Prestes a completar 78 anos, Stephen King é responsável por vários clássicos do terror literário, como “It: A Coisa”, “O Iluminado”, “Carrie: A Estranha”, “Cemitério Maldito” e muitos outros títulos. Ele também se consagrou nos cinemas, com várias adaptações de suas obras para as telonas.

Porém, Stephen King escreveu por algum tempo com o pseudônimo de Richard Bachman porque acreditava que o mercado editorial não aceitaria mais de um livro por ano de um mesmo autor e queria testar seu talento: era o seu nome real ou sua escrita que trazia sucesso às suas obras? Ele também via Richard Bachman como um espaço protegido para publicar trabalhos mais antigos ou que não se encaixavam no seu estilo principal de terror.

Por muito tempo seus livros sobre a alcunha de Richard Bachman ficaram no limbo editorial, sendo relançados recentemente mundo afora. Um dos motivos, era que as obras assinadas com o pseudônimo de Stephen King não foram bem aceitas pela sociedade, devido a temas muito delicados para a época em que foram escritas.

Esse mês estreou nos cinemas “A Longa Marcha”, adaptação de um dos livros de Stephen King assinados com o pseudônimo de Richard Bachman. Apesar de ter sido o primeiro livro escrito por King (o autor o escreveu entre 1966 e 1967, quando cursava seu primeiro ano na faculdade), ele não foi o primeiro publicado, tendo chegado às livrarias somente em 1979, cinco anos depois de ele já ter se tornado um dos autores mais vendidos do país com “Carrie”.

“A Longa Marcha” mostra um grupo de adolescentes que foram convocados após completarem 18 anos, para um jogo mortal, onde somente um sairá vivo. Essa premissa pode parecer algo comum, já que temos várias obras de sucesso que abordam uma temática parecida, como o livro “Jogos Vorazes”, que virou filme ou o mangá “Battle Royale”, que depois foi adaptado para um romance literário. Mas Stephen King foi um precursor, já que ele escreveu seu livro na década de 1960.

O livro era uma crítica aos Estados Unidos da época: a convocação para uma guerra que a própria população estadunidense não entedia porque o país estava envolvido. Com o pretexto de lutar contra o maligno comunismo, homens, e depois adolescentes, eram enviados para as florestas do Vietnã para serem jogados em um cenário de terror e violência extremas.

Dessa forma, o filme mostra que se passaram doze anos de uma guerra que jogou os Estados Unidos na miséria econômica e a retirou de sua posição de maior nação do planeta. Como forma de reerguer o país e incentivar a população que se tornou “preguiçosa”, todo ano o governo, agora militarizado, promove a Longa Marcha.

E pegando ideias vindas de “1984” de George Owell e “Nós” de Yevgeny Zamyatin, e da filosofia do pão e circo dos romanos, vemos uma forma de controlar a população por meio do entretenimento e coagindo de forma brutal toda forma de pensamento divergente. Os adolescentes andam sem parar com uma arma apontada na cabeça, porque o estilo americano diz que o país é a terra das oportunidades e que quanto maior o sacrifício, maior a recompensa. Dessa forma, a população assiste a Longa Marcha e se esquece dos problemas e das manobras daqueles que governam para manter o poder em suas mãos.

E esse meu pensamento fica muito evidente nos discursos acalorados e cheios de fervor patriótico do Major (Mark Hamill) ou na conversa entre os participantes a respeito das convocações da Longa Marcha, da programação das pessoas em aceitar as coisas como elas são e sobre as consequências da disseminação de ideias dissidentes daquelas determinadas pelo governo.

Como disse, “A longa Marcha” traz uma temática parecida com o que vimos em “Jogos Vorazes”, mas as semelhanças acabem aí, pois o nível de brutalidade, crueldade e de indiferença empregados pelos realizadores dessa caminhada em busca do grande prêmio é algo impressionante e vai incomodando em uma crescente à medida que os quilômetros são percorridos e os participantes vão sendo eliminados. Esse nível e desconforto lembro de ter sentido em pouquíssimos filmes, como “Everest” e “Midsommar”.

A tensão que senti durante a exibição do filme chegou a ser palpável à medida que via os adolescentes sucumbindo ao cansaço e as mazelas oriundas de centenas e centenas de quilômetros percorridos a pé, sem interrupção. E para deixar bem claro que a Longa Marcha é um jogo brutal e cruel, as mortes dos personagens depois que recebiam o terceiro aviso são extremamente visuais.

A violência mostrada em “A Longa Marcha” foi uma exigência de Stephen King que o roteirista J.T. Mollner e o diretor Francis Lawrence tiveram que atender: que mostrassem adolescentes sendo baleados em seu filme. E a primeira execução é o cartão de visitas de que estamos diante de um filme violento e visceral: o soldado aponta o fuzil para a cabeça de um adolescente ajoelhado, e a bala, de cima para baixo, atravessa o crânio e sai pelo lado do rosto, estraçalhando a mandíbula.

Então, eis que a “A Longa Marcha” faz algo que meus amigos, minha esposa e eu não esperávamos: o filme se torna uma história dramática, onde os laços de amizade entre os participantes se formam, mesmo sabendo que só um sairá vivo da competição. E esses laços são formados com uma força tão grande que em determinado momento do longa-metragem até o seu final, chorei copiosamente a cada execução.

Sempre falo em minhas resenhas que a empatia, a ligação espectador/personagem é a coisa mais fundamental de uma história: sem nos importamos com essas pessoas fictícias, dificilmente gostaremos do que está sendo contado.

E em “A Longa Marcha”, essa conexão entre nós e o personagem é forjada de forma natural e orgânica, bastando alguns minutos de filme para amarmos e odiarmos essas pessoas, sendo impossível não nos importarmos com elas.

Todos os momentos divididos entre o grupo de adolescentes, e repito, todos os momentos, são cativantes nos fazendo rir e chorar com eles. E aí está a jogada mais cruel dessa história: ela é feita para criar esse laço afetivo, de nos importarmos com esses personagens, mesmo sabendo que eles vão morrer, até restar um. E isso me criou uma ansiedade gigantesca pois não queria que Ray, Peter, Hank, Ben, Arthur, Stebbins, Collie, e até o mesmo o c*zão do Gary, morressem. Essa ansiedade foi tão grande que quando percebia, estava balançando a perna de forma vigorosa e me forçava inutilmente a parar.

O roteiro do filme é muito bem escrito, criando todas essas nuances emocionais, ao trazer as histórias de vida dos adolescentes e as situações ao longo da competição, como o momento cômico e tenso que Arthur precisa fazer o número dois rapidamente, com uma arma apontada para sua cabeça, para depois dizer que foi sua c*g*da mais rápida; ou as três verdades de Hank ou qual será seu desejo se ganhar a Longa Marcha. Todas essas situações são feitas de forma natural, sem forçar a barra, e isso é trabalho de um ótimo roteiro.

As atuações são o que faz o roteiro ser filmado de forma tão orgânica e natural. Vi por cima que “A Longa Marcha” se sustenta nas atuações de Cooper Hoffman e David Jonsson que interpretam Ray Garraty e Peter McVries, respectivamente. Mas acho um erro essa afirmação, pois todos os atores e atrizes que aparecem em “A Longa Marcha” estão muito bem. Ray e Peter são os protagonistas, mas nenhum outro personagem fica obscurecido por eles, tendo seu espaço relevante para história em tela.

E para finalizar, a direção de Francis Lawrence, que dirigiu todos os filmes da franquia “Jogos Vorazes”, “Constantine” e “Eu Sou a Lenda”, é muito segura, alternando assertivamente momentos mais leves com os mais tensos; intercalando comédia, drama, tensão e terror nas medidas certas, diminuindo e acelerando o ritmo narrativo com maestria. Francis Lawrence tem experiência em adaptar distopias literárias, mas em “A Longa Marcha”, que mesmo sendo escrita por Stephen King, não possui o hype de “Jogos Vorazes”, traz uma direção muito mais consistente e madura, trazendo uma história muito mais impactante e cativante que a trajetória de Katniss.

O final do filme é diferente do livro, pelo que me lembro, mas não torna o desfecho menos impactante e emocionante. Assim que o filme acabou, fiquei alguns minutos em silêncio, enxugando as lágrimas que não paravam de sair e tentando arrefecer a intensa ansiedade que sentia no momento. Mas também saí muito feliz, pois mais uma vez assisti a um filmaço nesse ano de 2025.

Por excelentes roteiros, interpretações incríveis e uma direção segura, fiquei feliz em ser enganado, achando que assistiria a um filme de suspense e acabar vendo uma história dramática no nível de “À Espera de Um Milagre”. Afirmo que esse filme está entre as melhores adaptações de uma obra de Stephen King, seja para o cinema, seja para televisão e streaming.

Dessa forma, por tudo que disse até agora, só posso decretar que vale muito, mas muito a pena assistir “A Longa Marcha”!

Ficha Técnica:

Título Original: The Long Walk

Título no Brasil: A Longa Marcha

Gênero: Suspense, Drama, Distopia

Duração: 108 minutos

Diretor: Francis Lawrence

Produção: Roy Lee, Steven Schneider, Francis Lawrence, Cameron MacConomy

Roteiro: JT Mollner

Elenco: Cooper Hoffman, David Jonsson, Garrett Wareing, Tut Nyuot, Charlie Plummer, Ben Wang, Jordan Gonzalez, Joshua Odjick, Mark Hamill, Roman Griffin Davis, Judy Greer, Josh Hamilton, Noah de Mel, Daymon Wrightly, Jack Giffin, Thamela Mpumlwana, Keenan Lehmann, Dale Neri, Teagan Stark, Sam Clark, Emmanuel Oderemi

Companhias Produtoras: Vertigo Entertainment, About:Blank

Distribuição:     Lionsgate Films

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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