SINOPSE: Andy e Piper são alocados em um lar adotivo após encontrarem seu pai morto no banheiro. Laura, sua nova guardiã, adota além dos irmãos, um jovem mudo chamado Oliver. Afastada da cidade grande, o imóvel no qual a garota e o garoto vivem esconde grandes segredos, e a descoberta de um ritual aterrorizante é capaz de destruir para sempre a relação dos dois, e até mesmo transformá-la em uma dor profunda.

Estamos vendo o retorno de alguns nomes promissores do cinema de terror. Danny e Michael Philippou, são diretores e roteiristas australianos que em 2023 lançaram mundialmente “Fale Comigo”, longa-metragem de terror que fez muito sucesso.

“Deixa Ela Voltar” chegou aos cinemas esse ano como uma das grandes promessas do terror e que de acordo com os materiais promocionais, é o “longa-metragem mais perturbador de 2025”. Mas será que o novo filme dirigido e roteirizado pelos irmãos Philippou merece esse título?

“Deixa Ela Voltar”, assim como “Fale Comigo”, traz uma história de perda e luto insuperáveis, levando as pessoas a cometerem atos extremos para superarem essa dor. Nos dois casos, o caminho utilizado são as forças sobrenaturais.

Uma coisa que me surpreendeu em “Deixa Ela Voltar” é que achei o filme seguiria a linha mais comum dos filmes de terror, com cenas bizarras (como mostrados nos trailers) e jump scares. Mas o novo filme dos irmãos Philippou me surpreendeu com uma trama mais profunda envolvendo a morte de entes queridos e a não aceitação dessa perda, abuso familiar e a dúvida da segurança dos lares e famílias adotivas. Todos esses temas são tratados, mas sem perder o foco principal:  que estamos dentro de uma história de terror.

Muitos vão até achar que se trata justamente do contrário: que o terror é utilizado como ferramenta para abordar assuntos tão sérios, classificando-o como um pós-terror. Pensando bem, “Deixa Ela Voltar” lembra nas devidas proporções “Hereditário”, e dessa forma, faz sentido essa inversão de qual o foco principal da narrativa.

Mas para mim, não é caso em “Faça Ela Voltar”, pois mesmo com esses temas sendo abordados, ocupando até um bom espaço na narrativa, vemos que os irmãos Philippou deixam claro que o terror é quem dita as regras. E muitas vezes nem é a capirotagem presente no filme que mais assusta, mas sim as pessoas e a nossa capacidade de atos extremos.

Dito isso, temos Laura (Sally Hawkins), que fará de tudo para alcançar seus objetivos movidos pela sua incapacidade de superar a morte de sua filha, Cathy (Mischa Heywood). E antes que você fale que estou dando spoilers, saiba que os trailers de “Faça Ela Voltar” já deixam isso exposto, basta prestar atenção.

Laura é maquiavélica e calculista, que controla, quase sempre, as cordas de seu plano, movendo as pessoas envolvidas em seu plano da forma como bem entende. E é por isso que disse que os irmãos Philippou foram capazes de nos deixar tensos e assustados mesmo sem os elementos sobrenaturais do filme. Digo que se “Faça Ela Voltar” fosse um filme sem a capirotagem, ainda assim seria um filme de terror interessante, devido aos atos maldosos que Laura é capaz de cometer.

E nesse ponto, mesmo com o fator sobrenatural, “Faça Ela Voltar” levanta o debate e nos faz pensar quantos lares adotivos são verdadeiras armadilhas e antros de abusos para crianças e adolescentes fragilizados. Mas a história de Andy (Billy Barratt), revela que o abuso e a violência infantil acontecem infelizmente, dentro da própria família.

Aproveitando o gancho, precisamos falar que “Faça Ela Voltar” também aborda a questão da morte e da dor avassalador da perda de pessoas queridas e como às vezes esses sentimentos levam a atos impensáveis. Esse tema surge em “Fale Comigo”, quando uma filha não suporta a perda de sua mãe. Aqui, acho que os irmãos Philippou quiseram mostrar o que uma mãe é capaz de fazer por seus filhos, com os fins justificando os meios. E vendo uma possibilidade de trazer sua filha morta de volta, Laura mexe com forças sobrenaturais perigosas.

Quando assisti ao trailer de “Faça Ela Voltar” além de achar que seria um filme de terror mais padrão, também fiquei com a sensação de que o material promocional tinha entregado o plot do filme. Porém, mesmo sendo revelada antecipadamente, a trama principal foi conduzida de forma tão instigante e perturbadora, que não estragou a experiência.

O ritual utilizado por Laura para trazer sua filha falecida de volta foi algo que achei interessante e de certa forma inédito. Não me lembro de ter visto algo parecido em outro filme. Para não dar muito spoiler, posso dizer que envolve a questão de que a alma de uma pessoa pode habitar o corpo morto por meses e o processo de “ressureição” envolve um “anjo”, que eu poderia chamar de devorador de almas.

A ferramenta principal do ritual realizado por Laura é Oliver (Jonah Wren Phillips), uma criança com mudez seletiva e que age de forma estranha. A fome que Oliver sente o leva a cometer atos inimagináveis e para retratar isso os irmãos Philippou utilizam muito bem o gore, com sequências cheias de sangue e mutilações horripilantes. A cena da faca e as consequências dela me causou uma aversão muito forte, a ponto de eu fazer uma careta e ficar muito desconfortável na poltrona do cinema.

Mas além do terror psicológico e do gore, “Faça Ela Voltar” utiliza o body horror de forma muito eficiente para mostrar a transfiguração de Oliver quando se alimenta, e como o sangue e as mutilações, causam bastante desconforto. E digo que esse subgênero foi muito bem utilizado pois a maquiagem e as próteses são simples, mas elaboradas e alcançam o resultado desejado: mostrar uma criança se transformando em algo deformado.

Dentro dessa mistura de temas relevantes, terror psicológico, gore e body horror, existe espaço para o drama e momentos emocionantes. Andy, Piper (Sora Wong), Oliver e até mesmo Laura, possuem histórias que nos comovem e nos fazem amá-los e odiá-los. Inclusive, a cena em que Piper ouve o áudio enviado por Andy me fez chorar. Uma cena linda e comovente no meio de tanta maldade humana e capirotagem.

E para entregar tudo isso, preciso dizer que o elenco de “Faça ela voltar” é de um talento que poucas vezes vi em um filme de terror. Sally Hawkins, Billy Barratt, Jonah Wren Phillips e Sora Wong, que atua pela primeira vez, entregam com suas atuações, personagens carismáticos e complexos. Os sentimentos transmitidos são fortes para odiar e me preocupar com os personagens, bem como rir e chorar com e por eles.

O ano de 2025 demorou para engrenar, mas finalmente tem trazido ótimos filmes de terror. Com uma narrativa que combina drama e temas delicados, mas tendo o terror apresentado em vários subgêneros, como pilar principal, só posso dizer que vale muito a penas assistir “Faça Ela Voltar”!

Ah e respondendo à pergunta: sim, “Faça Ela Voltar” é até o momento, o filme de terror mais perturbador do ano.

Ficha Técnica:

Título Original: Bring Her Back

Título no Brasil: Faça Ela Voltar

Gênero: Terror

Duração: 114 minutos

Diretor: Danny Philippou, Michael Philippou

Produção: Samantha Jennings, Kristina Ceyton

Roteiro: Danny Philippou, Bill Hinzman

Elenco: Billy Barratt, Sora Wong, Sally Hawkins, Jonah Wren Phillips, Sally-Anne Upton, Stephen Phillips, Mischa Heywood

Companhias Produtoras: Causeway Films, Salmira Productions, South Australian Film Corporation, Blue Bear

Distribuição: Sony Pictures Entertainment

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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