
“O que é realidade? Existe apenas uma? Ou várias realidades coexistem? Para entender melhor, Erwin Schrödinger construiu um experimento teórico interessante: um gato é trancado em uma câmera de aço com uma pequena quantia de substância radioativa, um contado Geiger, uma ampola de veneno e um martelo. Assim que um átomo radioativo decai dentro da câmara, o contador Geiger libera o martelo, que esmaga a ampola de veneno, matando o gato. No entanto, devido à natureza ondulatória do mundo quântico, o átomo ao mesmo tempo decaiu e não decaiu, até que nossa análise imponha um estado definitivo a ele. Até o momento da verificação, não sabemos se o gato está vivo ou morto, se encontrando em dois estados sobrepostos. As condições de “morto” e “vivo” existem no microcosmo ao mesmo tempo. Mas, e se a existência simultânea de vida e morte também se aplicasse ao macrocosmo? Seria possível que duas realidades diferentes coexistissem? Seria possível dividir o tempo e deixá-lo correr em direções opostas? E, então, quantas realidades diferentes poderiam existir lado a lado?” (H.G. Tannhaus)
Começo essa resenha com a fala da versão adulta de H.G. Tannhaus (Arnd Klawitter), narrando o experimento do gato de Schrödinger, pois de todas as teorias e conceitos físicos e científicos apresentados, seja o que mais descreve a terceira e última temporada de “Dark”.
A terceira temporada começa exatamente do ponto onde a versão adolescente de Jonas (Louis Hofmann) é salvo do fim do mundo por uma Martha adolescente de outro mundo (Lisa Vicari). Então vemos nosso protagonista vivenciando o que ele pensa ser a salvação: um mundo onde ele nunca nasceu. Mas ele percebe não só que a sua não-existência não impediria o Apocalipse, como que esse mundo paralelo está intimamente interligado ao seu, onde eventos no espaço-tempo acontecem para que suas realidades possam existir. E o que era confuso fica mais complexo ainda.
A primeira coisa que me chamou a atenção é que os mundos paralelos se parecem, mas não são exatamente iguais. Seja o posicionamento diferente de uma escada ou de uma cama, ou o mesmo o bunker com papel de parede de cores diferentes; nos faz remeter a algo que veríamos em “Alice no País das Maravilhas”: um reflexo distorcido no espelho. Essa ilusão de óptica desenvolvida pelos criadores de “Dark”, Baran bo Odar e Jantje Friese, é uma sacada de mestre.
Algo que sugiro caso você não tenha memória de elefante, é que reveja as duas temporadas anteriores de “Dark”, pois o último ano da série amarra quase todas as pontas soltas, preenchendo finalmente o mapa com todas as conexões e as respectivas consequências. Graças aos loops espaço-temporais, o mapa de relacionamento entre os personagens é enorme e complexo. Nesse ponto vemos a genialidade e competência de Baran bo Odar e Jantje Friese em criar uma história tão intricada sem deixar lacunas com relação aos eventos mostrados, sejam eles relevantes como a relação entre Charlotte Doppler e sua filha Elisabeth, ou mesmo sobre a mulher que se afogou no lago. A imagem que me vem a cabeça é a dos criadores, produtores e roteiristas de frente para uma grande parede entupida de post-its, linhas, tachinhas, fotos, etc.
“Dark” utiliza o conceito do Paradoxo de Bootstrap que diz que o passado interfere no futuro da mesma forma que o futuro modifica o passado, tornando impossível ao espectador determinar o ponto de origem de determinada situação ou personagem. Esse conceito reforça a inevitabilidade dos acontecimentos na série, segundo a qual todos os fatos já aconteceram e estão acontecendo. Logo, mesmo as viagens espaço-temporais já estão contempladas nesse grande esquema, não alterando nada dessa forma. Essa impossibilidade de alteração do loop no qual “Dark” existe é confirmada quando a versão adolescente de Noah (Max Schimmelpfennig) impede a versão adolescente de Jonas de se enforcar, dizendo que como Adam (Dietrich Hollinderbäumer) já existe, Jonas não pode morrer. Fala essa confirmada, quando a arma que Jonas aponta para a própria cabeça falha, mas quando volta para as mãos de Noah, funciona normalmente.
“Em um Paradoxo de Bootstrap, um objeto ou uma informação do futuro são enviados para o passado. Isso cria um ciclo infinito em que esse objeto ou informação não tem mais nenhuma origem real. Ele existe sem nunca ter sido criado.” (H.G. Tannhaus)
No sétimo episódio da terceira temporada, a versão idosa de Claudia (Lisa Kreuzer) explica a Adam que sabe como interromper esse loop eterno que prende as duas realidades paralelas. Lembra que disse que o último ano da série amarra quase todas as pontas soltas? Então, é nesse momento que percebo o único furo na intricada trama elaborada pelos criadores da série, pois a resposta encontrada parece vir à versão adulta de Claudia (Julika Jenkins) em uma epifania: ela está olhando para o túmulo de sua filha Regina (Deborah Kaufmann), e do nada, ela sabe como acabar com o paradoxo de Bootstrap no qual os dois mundos estão presos. Esse furo narrativo, deve-se a falta de tempo para elaborar melhor essa solução encontrada pela versão adulta de Claudia, pois é óbvio que ela não teve uma “visão divina” simplesmente, mas deve ter viajado para o local e o tempo onde a resposta se encontra. Mas apesar desse furo, a solução para esse nó espaço-temporal tem conexão direta com o conceito de triquetra apresentado desde a primeira temporada.

O final de “Dark” é muito bem trabalhado e condizente com a grandeza que a série ganhou. Fiquei pensando se o desfecho da história poderia ser diferente e não consegui pensar em nada melhor. E esse encerramento é algo bem relevante, pois o que costumamos ver são séries que simplesmente não conseguem encerrar suas tramas de forma apropriada, o que deixa muitas vezes um gosto bem amargo na boca do espectadores (vide “Game of Thrones”).
Nos aspectos técnicos, “Dark” manteve a qualidade mostrada desde o primeiro episódio da primeira temporada. Roteiro, fotografia, locações, CGI, maquiagem, e ótimas interpretações. Todos esses elementos são muito bem utilizados de forma a criar um história complexa sim, mas altamente instigante e cativante.
“Dark” é muito bem estruturada narrativamente e de alta qualidade técnica quando falamos de roteiro, fotografia, locações, CGI, maquiagem, e claro, as interpretações. Nesse ponto vejo a série como um ponto fora da curva na maioria das produções próprias ou adquiridas pela Netflix, que parece preferir quantidade à qualidade. A série como um todo se apresenta como algo extremamente raro de ser ver em produções seriadas: ela nunca perdeu seu ritmo, começando em alto nível e se mantendo em alto nível até o último episódio.
Meu veredicto para a terceira temporada? Melhor: me veredicto para a série toda: vale muito, muito, muito a pena ver “Dark”!
Ficha Técnica:
Título Original: Dark
Título no Brasil: Dark
Gênero: Ficção científica, Suspense
Temporada: 3ª
Número de episódios: 8
Produção Baran bo Odar, Jantje Friese, Quirin Berg, Max Wiedemann, Justyna Müsch
Elenco: Louis Hofmann, Andreas Pietschmann, Dietrich Hollinderbäumer, Sebastian Rudolph, Ella Lee, Maja Schöne, Lena Urzendowsky, Anne Ratte-Polle, Angela Winkler, Denis Schmidt, Florian Panzner, Lisa Vicari, Nina Kronjäger, Barbara Nüsse, Moritz Jahn, Wolfram Koch, Daan Lennard Liebrenz, Ludger Bökelmann, Oliver Masucci, Winfried Glatzeder, Nele Trebs, Jördis Triebel, Valentin Oppermann, Joshio Marlon, Felix Kramer, Walter Kreye, Rike Sindler, Anne Lebinsky, Tatja Seibt, Mariella Aumann, Katharina Spiering, Helena Pieske, Antje Traue, Gina Alice Stiebitz, Carina Wiese, Carlotta von Falkenhayn, Sandra Borgmann, Pablo Striebeck, Stephan Kampwirth, Stephanie Amarell, Karoline Eichhorn, Tom Philipp, Peter Schneider, Hermann Beyer, Anatole Taubman, Michael Mendl, Cordelia Wege, Arnd Klawitter, Christian Steyer, Paul Lux, Roman Knižka, Lydia Makrides, Deborah Kaufmann, Béla Gabor Lenz, Peter Benedict, Gwendolyn Göbel, Julika Jenkins, Lisa Kreuzer, Sebastian Hülk, Christian Pätzold, Luise Heyer, Till Patz, Max Schimmelpfennig, Mark Waschke, Aurora Dervisi, Lea van Acken, Lissy Pernthaler, Claude Heinrich, Jakob Diehl, Hans Diehl
Companhia(s) produtora(s): Wiedemann & Berg Television
Transmissão: Netflix

