SINOPSE: Em Georgetown, Washington, Chris MacNeil (Ellen Burstyn) vai gradativamente tomando consciência que sua filha de doze anos, Regan (Linda Blair), está tendo um comportamento completamente assustador. Deste modo, ela pede ajuda ao padre e psiquiatra Damien Karras (Jason Miller), para levantar provas de que a garota está possuída pelo demônio. Com a ajuda do Padre Merrin (Max von Sydow), eles vão tentar livrar a menina desta terrível possessão.
Quando era criança, existiam dois espaços nas grades do SBT e da Globo, que me permitiram ver filmes de terror, os quais não teria acesso pela minha idade na época: “Sessão das Dez” e “Domingo Maior”.
E foi na “Sessão das Dez” que assisti pela primeira ver “O Exorcista” (obrigado Tio Sílvio por isso). Lembro das chamadas (algo parecido com o vídeo abaixo), e falei para meu pai: “Quero assistir.” (sim, naquela época as crianças pediam permissão aos pais). No que meu pai respondeu: “Tudo bem, mas já aviso que você não vai dormir. E depois não vem me acordar no meio da noite, pois vou te bater!”.
Apesar de não ter sido meu primeiro filme de terror (acho que o primeiro longa-metragem desse gênero foi “Poltergeist”), lembro de ao terminar de ver “O Exorcista”, pensar: “Puta merda, por que fui ver esse filme?” Como tenho certeza de que pensei isso depois de passado tanto tempo? Porque quando o assisto hoje, com meus quase 50 anos, ainda sinto o mesmo sentimento de pavor e desconforto. E em todas as vezes “O Exorcista” traz junto com esses sentimentos, o do fascínio.
O terror é um gênero muito grande que abrange vários subgêneros. “O Exorcista” se encaixa no subgênero do terror psicológico onde o temor é gerado a partir da vulnerabilidade da mente humana a alguma situação ou alguma sensação desconfortável psicologicamente.
Mas independentemente de qual classificação ou subgênero seja, “O Exorcista” é o melhor filme de terror de todos os tempos.
“O Exorcista” é uma adaptação bastante fiel da obra homônima escrita por William Petter Blatty. O diretor William Friedkin recebeu das próprias mãos do autor uma cópia do livro, e conforme suas próprias palavras: “Eu fiquei aterrorizado. Não conseguia me mexer de tanto medo depois que o terminei de lê-lo. E, ao mesmo tempo, aquele livro exerceu um fascínio em mim. Fiquei obcecado. Precisava filmá-lo”.
O cineasta empolgado, procurou William Petter Blatty para que ele escrevesse um roteiro adaptado da publicação. Seis meses depois, Blatty trouxe o roteiro ao cineasta, que se encantou pela adaptação e pediu para assumir as filmagens. A Warner ficou fascinada com a história, no entanto, a empresa não queria Friedkin à frente da direção. Stanley Kubrick era o nome mais cotado para assumir “O Exorcista”, porém declinou a proposta por estar ocupado com outros projetos e por ser contra a “violência infantil” mostrada no longa. Dessa forma William Friedkin assumiu a direção.
Desde a sua concepção, “O Exorcista” foi produzido para abalar psicologicamente os espectadores. A começar com a nossa protagonista, Regan MacNeil (Linda Blair) de apenas 12 anos. O objetivo aqui é mostrar que se uma pré-adolescente ingênua não está a salvo de uma possessão demoníaca, quem estará? A sua transformação e degradação física e mental é algo que perturba quem assiste, sem a necessidade de cenas cheias de sangue e violência extrema. E para isso, o excelente trabalho de maquiagem foi responsável por mostrar essa descida ao inferno de nossa protagonista.
Mas a maquiagem é apenas metade do resultado incrível e assustador de levar para um filme uma pessoa possuída. Linda Blair, com apenas 13 anos na época das gravações de “O Exorcista”, foi selecionada entre 600 candidatas para o papel de Regan McNeil. Entre as gravações o que se via era uma pré-adolescente brincando e se divertindo com tudo que acontecia no set de filmagem; mas em cena, a atriz mostrava todo seu comprometimento com a personagem, se sujeitando a horas de maquiagens pesadas, gravar com roupas inapropriadas em cenários resfriados a temperaturas negativas e cenas perturbadoras, como a do crucifixo, que só veio a aparecer na versão do diretor, 28 anos depois da estreia de “O Exorcista”.
A atuação de Linda Blair em “O Exorcista” é tão impactante que lhe rendeu em 1973, um Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante e uma indicação ao Oscar de 1974 de Melhor Atriz Coadjuvante.
Além da atuação magistral de Linda Blair, precisamos destacar o trabalho de outros atores e atrizes do elenco. Assistindo ao filme hoje, me parece um pouco teatral demais algumas situações de Ellen Burstyn como Chris MacNeil, mas é possível sentir a dor e o desespero de uma mãe vendo sua filha morrendo por uma força que ela e nenhum médico consegue compreender.
Jason Miller como Damien Karras transmite com competência um eclesiástico que não tem certeza se pode atuar na plenitude como padre bem quando precisa de toda sua fé e certeza nas suas crenças quando precisa combater uma entidade demoníaca.
Max von Sydow dá credibilidade ao interpretar Lankester Merrin, o padre senior que por algum motivo parece ter uma ligação com o demônio possessor de Regan. O ator, que na época das filmagens, tinha 43 anos, precisou ser maquiado para dar vida a um padre idoso e com problemas sérios de saúde.
O roteiro escrito pelo próprio William Petter Blatty confere ao filme uma fidelidade muito fiel ao que lemos no livro homônimo, com algumas poucas diferenças, como por exemplo, o tempo que o exorcismo de Regan durou: no longa-metragem o ritual ocorre em uma única noite, enquanto que na obra literária foram cerca de três dias, se minha memória não falha.
Porém, além de o roteiro trazer uma história de terror perturbadora, “O Exorcista” traz também a questão médica da época, onde a medicina somente arranhava a superfície da neurologia. E esse fato fica evidente quando os médicos diziam que não entendiam com clareza o que causava os surtos de Regan, mas que tal remédio devia bastar para resolver o problema.
Além disso, temos a questão da ciência e da fé e como esses pilares da humanidade caminham muitas vezes em antagonismo. Com Chris MacNeil desesperada diante da impotência da comunidade médica de Boston em tratar a enfermidade de sua filha, resolve pedir auxílio ao intangível, ao poder de Deus.
Outro dilema que “O Exorcista” traz é a questão de uma mãe que sabe que sua filha matou alguém, mesmo que não estivesse sobre controle de si mesma. Chris sofre e sabe que o correto é informar a polícia sobre o que ocorreu, mas ao fazer isso, condenará Regan por algo que não é culpa dela. E se contasse a verdade, será que as autoridades acreditariam nela ou a internariam em uma instituição médica penal?
Com direção, roteiro, atuação e outros elementos técnicos empregados com tanta competência, “O Exorcista” foi um sucesso comercial: US$ 440 milhões de arrecadação nas bilheterias (para um orçamento de US$ 12 milhões) sendo considerado o filme de terror de maior bilheteria da história. Esse título ele só foi perder quarenta e quatro anos depois, em 2017, para “It: A Coisa”.
Além do sucesso nas bilheterias, “O Exorcista” levou vários prêmios importantes.
Foi o primeiro filme de terror a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme, além de outras nove indicações ao Oscar de 1974, ganhando as categorias de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Som, Foi o vencedor também de quatro Globos de Ouro (Melhor Filme de Drama, Melhor Diretor, Melhor Roteiro e Melhor Atriz Coadjuvante (Linda Blair).
Sequências e Derivadoss
O Exorcista II: O Herege (1977)
Dirigido por John Boorman, escrito por William Goodhart (o autor dos livros não participou da confecção do roteiro), e estrelado por Linda Blair, esse é um filme que nunca deveria ter sido produzido. Se “O Exorcista” é o ícone do cinema de terror, sua sequência direta é um verdadeiro lixo cinematográfico.
O Exorcista III (1990)
O autor William Peter Blatty, escreveu e dirigiu “O Exorcista 3”. O filme foi originalmente intitulado “Legião”, mas teve o nome alterado pelos executivos da Morgan Creek Productions, para ser mais comercial. O enredo também foi drasticamente alterado na pós-produção, com refilmagens impostas pela produtora que exigiu de última hora uma sequência de exorcismo para o clímax do filme. E apesar de ser muito melhor que o segundo filme dessa franquia, não conseguiu chegar nem perto do que “O Exorcista” alcançou nas bilheterias, nas críticas e nas premiações (recebendo inclusive uma indicação ao Framboesa de Ouro, na categoria de Pior Ator para George C. Scott.).
O Exorcista: O Início (2004)
Pegando uma insinuação feita de que o padre o padre Lankester Merrin já teria encontrado o demônio Pazuzu (o capiroto que possui Regan MacNeil), essa nova produção é um prequel ao filme de 1973. Esse filme é um pouco injustiçado pois a premissa mencionada anteriormente é boa e até consegue em alguns momentos emular o sentimento de pavor e inquietação que o longa-metragem e introduz bons jump scares (algo inédito na franquia). Gosto bastante de “O Exorcista: O Início”, mas a recepção dos fãs e da crítica não foi boa, se tornando mais um fracasso em explorar essa franquia.
Série O Exorcista (2016)
Em 2016, a falecida Fox produziu a série “O Exorcista”, passando no FX. A primeira temporada é uma continuação direta do filme de 1973, ignorando todos as sequências anteriores, trazendo a história da família Rance, que precisa lidar com a possessão da filha mais nova, Katherine (Brianne Howey). Diante disso, Angela (Geena Davis) procura a ajuda dos padres Tomás Ortega (Alfonso Herrera) e Marcus Keane (Ben Daniels). Porém, o demônio possessor de Katherine tem relação com o passado misterioso de Angela e com os eventos ocorridos com Regan MacNeil.
A primeira temporada foi boa, mas a ideia de transformar a série em uma espécie de antologia, com os padres Tomás e Marcus enfrentando outras entidades possessoras e uma conspiração demoníaca dentro do Vaticano, fizeram com que a produção fugisse do cânone criado em “O Exorcista”, derrubando a já frágil audiência, e fazendo a Fox cancelá-la após duas temporadas.
O Exorcista: O Devoto (2023)
Após comprar os direitos de “Halloween”, a Blumhouse Productions havia adquirido a franquia “O Exorcista”. Pensando no formato reboot/remake, em 2023 era lançado “O Exorcista: O Devoto”. Na direção, David Gordon Green, que tinha feito um belíssimo trabalho em “Halloween” de 2018, mas que foi perdendo a mão nas duas sequências posteriores da história que encerraria o confronto entre Michael Myers e Laurie Strode.
O que era para ser o início de uma trilogia, acabou parando nesse filme, devido a decisões criativas erradas de David Gordon Green, algo muito semelhante ao que ele fez em “Halloween”.
O fracasso de crítica e bilheteria fizeram a Blumhouse Productions dar o pá na bunda de David Gordon Green e convidar Mike Flanagan para reiniciar o projeto. Até o momento, o diretor do ótimo filme “Doutor Sono” e da excelente série “Missa da Meia-Noite” está em fase de pesquisa e não tem data para iniciar a pré-produção.
Curiosidades
- O livro de William Peter Blatty se baseia em um exorcismo real que ocorreu com um menino conhecido como Roland Doe. A história ocorrida em 1949 se tornou notícia em todo o país e chamou a atenção de Blatty, que na época estudava na Universidade de Georgetown. A Darkside lançou em 2016, o livro que conta essa história.
- O diretor William Friedkin se mostrou um diretor metódico e detalhista ao extremo. Algumas situações, além da construção de cenários refrigerados que beiravam o zero grau Celsius, comprovam isso. Na cena em que o padre Damien Karras está ouvindo a fita onde Regan parece falar várias línguas, ele toma um susto. Esse susto foi real, pois no momento da gravação da cena em questão, o diretor dá um tiro de verdade no set de filmagem, sem avisar ninguém. Aliás o ator Jason Miller foi vítima de outra situação inusitada que envolve a famosa cena do vômito. William Friedkin pediu que o jato de sopa de ervilha fosse disparado segundos antes do combinado com o ator. Então a expressão de raiva que Jason Miller faz, é verdadeira, pois ele não esperava.
- Uma das coisas mais conhecidas sobre a produção de “O Exorcista” é sua inacreditável quantidade de mortes reais. Durante as filmagens, nove pessoas morreram de formas inexplicáveis, isso sem contar as mortes que aconteceram depois da conclusão do projeto.
- O diretor William Friedkin consultava o Reverendo Thomas Birmingham sobre a possibilidade de exorcizar o set de filmagens. Em todas as vezes, o reverendo recusou o pedido, dizendo que isto causaria ainda mais ansiedade no elenco. Mas por diversas vezes ele visitou os sets para benzê-los e tranquilizar o elenco.
- Inicialmente, a voz do demônio seria da própria Linda Blair. Entretanto, após 150 horas de trabalho em cima do som do filme, o diretor resolveu substituí-la pela voz de Mercedes McCambridge que, para fazer a voz do demônio, comeu ovos crus, tomou muito álcool e fumou diversos cigarros. McCambridge chegou a processar a Warner Bros., para que seu nome como a dona da voz do demônio entrasse nos créditos do filme.
- Boa parte dos gemidos e grunhidos de Regan foram criados a partir da remixagem de gritos de porco. Quando o demônio é finalmente exorcizado do corpo dela, o som que se ouve é de um grupo de porcos sendo levados para o abate.
- Vários integrantes do elenco e da produção acreditavam que o set era amaldiçoado, após uma sequência de incidentes estranhos no set de Nova York, inclusive um incêndio que forçou a equipe a reconstruir as partes que simbolizavam o interior das casas.
- O autor William Peter Blatty pediu para que a cena de Regan virando a cabeça quase foi cortada do filme, mas William Friedkin a manteve. A cena em que Regan MacNeil está possuída e gira sua cabeça para trás do tronco se tornou uma das mais icônicas do cinema e, certamente, causou alguns gritos de pavor.
- Apesar de seu nome não ser falado no filme, o demônio que atormenta a jovem Regan chama-se Pazuzu, uma das milhares alcunhas usadas para identificar o Capiroto. Pazuzu é o nome do rei dos demônios na mitologia assíria e babilônica.
- O longa causou náuseas em algumas pessoas. Na verdade, foram tantos os casos que alguns cinemas começaram a distribuir sacos de vômito junto com os ingressos.
- O trailer original do filme foi alterado por ser considerado “muito assustador”, pois mostrava partes do filme em preto e branco, que se misturavam com demônios e também mostravam o rosto de Regan MacNeil possuída – tudo isso acompanhado de uma trilha sonora realmente assustadora. Veja abaixo o trailer proibido:
Veredicto
Muitos dizem que “O Exorcista” não é assustador. Porém, o filme é um terror psicológico, onde não existem os “jump scare”, com o objetivo de nos deixar transtornados, perturbados, incomodados durante e após assistir o filme.
Possui alguns efeitos especiais datados, mas praticamente todo filme em que o tema envolve possessão demoníaca e exorcismo, utilizam alguma variação da estética ou elementos apresentados em “O Exorcista”. E mesmo com o CGI, as técnicas e os próprios efeitos práticos atuais, muitas produções não conseguem alcançar o mesmo impacto que “O Exorcista” alcança até hoje.
Definindo e criando parâmetros para todos os demais filmes de possessão demoníaca e exorcismo, “O Exorcista” é um ícone do cinema e do gênero de terror, sendo impossível não o classificar como o MELHOR FILME DE TERROR DE TODOS OS TEMPOS.
Ficha Técnica:
Título Original: The Exorcist
Título no Brasil: O Exorcista
Gênero: Terror
Duração: 132 minutos (versão do diretor)
Direção: William Friedkin
Produção: William Peter Blatty
Roteiro: William Peter Blatty
Elenco: Ellen Burstyn, Max von Sydow, Lee J. Cobb, Kitty Winn, Jack MacGowran, Jason Miller, Linda Blair
Companhia(s) produtora(s): Warner Bros. Entertainment, Morgan Creek Productions
Distribuição: Warner Bros. Entertainment
