SINOPSE: A filha de um jornalista desaparece num deserto sem deixar rastros, deixando a família dilacerada e em luto. Até que, oito anos mais tarde, a jovem garota reaparece, deixando todos chocados. O problema é que esse encontro aparentemente feliz se transforma em um pesadelo de proporções gigantes.

“Evil Dead” ou “A Morte do Demônio” lançou alguns dos melhores diretores de terror, como Sam Raimi e Fede Alvarez. Em 2023, Lee Cronin ganhava notoriedade com “A Morte do Demônio: A Ascensão”, sucesso de crítica e púbico, faturando cerca de US$ 147 milhões de bilheteria para um orçamento de US$ 20 milhões.

Diante desse sucesso, Lee Cronin recusou a oferta de fazer uma sequência de “A Morte do Demônio: A Ascensão” e aceitou o convite de James Wan para fazer um filme realmente aterrorizante de um dos monstros clássicos da Sétima Arte. Dessa forma, estreou esse mês nos cinemas “Maldição da Múmia”.

A primeira coisa que precisamos destacar em “Maldição da Múmia” é que se trata de uma história original escrita por Lee Cronin, sem relação com o clássico filme de 1932, a trilogia estrelada por Brendan Fraser ou o péssimo longa-metragem protagonizado por Tom Cruise. Cronin disse que queria mostrar o que poderia acontecer se uma pessoa comum sofresse o processo de mumificação e exposta ao um mal antigo milenar.

Além da originalidade em relação ao que já foi feito nos cinemas em torno desse monstro clássico, outro ponto que chama a atenção é o tempo de duração. Com 123 minutos de duração, Lee Cronin conta sua história de terror sem pressa. E apesar disso, “Maldição da Múmia” não possui barrigas ou perdas de ritmo narrativo, com os três atos narrativos bem equilibrados.

Essas duas decisões tomada por Lee Cronin: a originalidade da história e o corte final mais longo que o habitual para um filme de terror, mostram a confiança do estúdio e produtores em Lee Cronin. Em entrevista, Cronin disse que tinha controle total sobre “Maldição da Múmia” e que isso se deve ao sucesso dele em “A Morte do Demônio: A Ascensão”.

Mas esses dois pontos tem sido alvos de muitas críticas por parte do público e especialistas em cinema. No Rotten Tomatoes, “Maldição da Múmia” tem 46% de aprovação e no IMDb sua nota é 6,5/10. O consenso é que o filme de Lee Cronin coloca sangue e violência gráfica, mas os sustos são sufocados pela duração excessiva e a extravagância grotesca e medíocre empregada pelo diretor e roteirista.

Não me surpreendi tanto com relação às avaliações no Rotten Tomatoes, IMDb e outros agregadores de críticas, pois uma grande parcela do público que assistiu “Maldição da Múmia” achou que ele seria recheado de jump scares e saiu da sala de cinema um tanto frustrada. Já minhas expectativas eram mais próximas ao que Lee Cronin trouxe em “A Morte do Demônio: A Ascensão”, então minha experiência não foi tão afetada pela quase ausência de sustos nesse filme.

“Maldição da Múmia” não é assustador, mas uma narrativa body horror e gore, focada na violência gráfica e no desconforto físico do espectador; e nesse ponto o filme acerta precisamente e alcança com mérito os objetivos de chocar e causar engulho.

Porém, nada causa mais desconforto que o visual de Katie. A pesquisa de Lee Cronin para criar a aparência da personagem teve referências visuais de várias múmias ao redor do mundo: do Egito até os corpos de pântano que se encontram no Museu Nacional de Dublin. E mesmo depois que ela recebe os devidos tratamentos, após oito anos enclausurada dentro do sarcófago, e parecer mais “humana”, seu aspecto ainda causa repulsa. Um excelente trabalho de maquiagem que associado à interpretação da atriz Natalie Grace, empreando movimentos erráticos, corpo e membros rígidos, sons e ruídos estranhos sendo vocalizados; resultaram em uma criatura medonha e que exala perigo.

Mas existem exageros por parte de Lee Cronin nesse ponto, que credito à liberdade dada ao diretor e roteirista, que podem até ter causado asco e aflição nas pessoas, mas me pareceram forçadas demais como o escorpião que entra pela boca da detetive Dalia (May Calamawy), fura seu pescoço de dentro para fora com ferrão; e outras que beiram o trash como a mesma personagem enfiar o dedo no buraco causado pelo inseto para poder falar.

A “Maldição da Múmia” tem como objetivo contar a história sem pressa, construindo os três atos narrativos com calma e isso explica seu tempo de duração. O começo é um bom exemplo disso, mostrando a vida da família Cannon em Aswan, no Egito, a relação entre os integrantes desse núcleo, o sequestro e desaparecimento de Katie, o trabalho inicial da polícia e a impotência da família. Mas mesmo com um corte final de 123 minutos, achei que o filme fluiu muito bem e nenhum momento senti cansaço ou enfado, como alguns críticos e pessoas declararam.

Esse tédio que alguns sentiram ao assistir ao filme, é, novamente, na minha opinião, porque as pessoas acharam que teriam uma experiência assustadora e se depararam com uma proposta diferente. As cenas grotescas e nojentas que permeiam todo o longa-metragem podem ter sido outro fator que pode ter causado aversão dos espectadores em relação ao filme. Particularmente, o body horror e o gore não são meus subgêneros preferidos dentro do terror, e apesar dos excessos que Lee Cronin pratica aqui, ainda sim entretive-me com sua história.

Agora, achei que “Maldição da Múmia” cria ótimos momentos de tensão, mas a conclusão deles não causou grandes impactos, ao contrário do que Lee Cronin conseguiu realizar em “A Morte do Demônio: A Ascensão”. Como paralelo posso pegar a sequência do filme da franquia “Evil Dead”, onde Beth está ouvindo com fones o relato do padre sobre o Necronomicon Ex-Mortis (ou Naturom Demonto) e sua irmã Ellie, possuída, desce pela entrada de ar do teto e aparece atrás, andando pela parede, terminando em um confronto assustador, potencializado pela tensão criada antes. E isso foi algo que não vi ou senti realmente em “Maldição da Múmia”.

Maldição da Múmia” também fica devendo na questão de criar a conexão conosco à partir do drama vivido pela família Cannon e do sentimentos oriundos dessa situação insólita. Charlie e Larissa, pais de Katie, não passam realmente a sensação de que estão sofrendo e assustados com o desaparecimento, com a descoberta do paradeiro de sua filha e seu estado estranho. Esses sentimentos vêm e vão sem causarem uma verdadeira impressão no espectador. E como parece que era um dos objetivos da narrativa, Lee Cronin deveria ter dado uma atenção melhor a esse aspecto.

Sem essa impressão em que está assistindo o filme, nossa preocupação se algo terrível vai acontecer com os personagens não existe, minimizando o impacto das cenas e situações grotescas apresentadas. É tão certo isso que falei, que o sacrifício de um dos pais para acabar com o sofrimento de Katie é algo como: “Ok, bacana”.

“Maldição da Múmia” tem muitas referências a outros longas-metragens de terror como “O Exorcista” (principalmente em alguns movimentos de Katie), mas no terço final da história, quando uma mulher morta volta a vida, sua aparência e sua forma maliciosa e debochada de agir me lembraram muito os deadites, os espíritos demoníacos parasitas dos filmes de “Evil Dead”. E o que me pareceu uma homenagem de Lee Cronin à franquia que o revelou para o grande público do cinema, pode ser algo mais, pois ele disse que “Maldição da Múmia” e “A Morte do Demônio: A Ascensão” se passam no mesmo universo. Essa declaração foi confirmada por Sam Raimi, criador e a mente criativa da franquia “Evil Dead”.

O final de “Maldição da Múmia” me deixou satisfeito, mostrando um ato de justiça “olho por olho, dente por dente”, como uma forma de reparação depois da família Cannon comer o pão que a múmia amassou. O desfecho inicial, segundo Lee Cronin, seria mais trágico, mas não acho que funcionaria, já que para ser trágico, precisaríamos nos importar com tais personagens.

“Maldição da Múmia” arrecadou mundialmente cerca de US$ 34 milhões em seu primeiro final de semana, com uma bilheteria doméstica (EUA) de US$ 13,5 milhões, para um orçamento de US$ 22 milhões, se mostrando um sucesso comercial, mesmo com tantas críticas. James Wan e Jason Blum são fazedores de franquias de terror e esse sucesso nas bilheterias pode abrir as portas um segundo filme, e quem sabe um crossover com “A Morte do Demônio: A Ascensão”?

Levando em consideração de Lee Cronin construiu bases sólidas e uma mitologia de terror convincente, que são os grandes atrativos do filme, não tendo expectativas que verá uma história assustadora e relevando os exageros mostrados, vale muito a pena assistir “Maldição da Múmia”.

Ficha Técnica:

Título Original: The Mummy

Título no Brasil: Maldição da Múmia

Gênero: Terror

Duração: 123 minutos

Diretor: Lee Cronin

Produção: James Wan, Jason Blum, John Keville

Roteiro: Lee Cronin

Elenco: Jack Reynor, Laia Costa, May Calamawy, Natalie Grace, Emily Mitchell, Shylo Molina, Billie Roy, Verónica Falcón, Hayat Kamille, May Elghety, Husam Chadat, Mark Mitchinson, Lily Sullivan

Companhias Produtoras: New Line Cinema, Atomic Monster, Blumhouse Productions, Wicked/Good

Distribuição: Warner Bros. Pictures

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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