SINOPSE: A agente do FBI, Clarice Starling (Jodie Foster) é ordenada a encontrar um assassino que arranca a pele de suas vítimas. Para entender como ele pensa, ela procura o perigoso psicopata, Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), encarcerado sob a acusação de canibalismo.
Em 1991, era lançado o filme que definiria e popularizaria os serial killers na indústria cinematográfica. Passados 35 anos de sua estreia, “O Silêncio dos Inocentes” continua até hoje ditando regras e influenciando produções sobre esses assassinos, sejam nos cinemas, televisão ou streamings.
Na resenha a seguir vou tentar mostrar, do meu ponto de vista, porque “O Silêncio dos Inocentes” é tão emblemático e impactante para a cultura do entretenimento.
Baseado no livro homônimo de Thomas Harris, “O Silêncio dos Inocentes” é um thriller que mistura suspense, ficção policial e terror. Os aficionados por terror podem discordar dessa classificação, mas quando analisamos a forma e a época que o filme foi filmado, faz mais sentido.
“O Silêncio dos Inocentes” possui uma fotografia e paleta de cores escuras, com as cenas quase sempre filmadas em recintos claustrofóbicos ou locais abertos desolados. Além desses aspectos, acho que a ausência de filtros para cenas mais pesadas foi o real motivo para o filme ser categorizado como terror. Partes ou corpos são mostrados em estado de putrefação ou condições degradantes, atos de violência ou a insinuação de que algo muito ruim vai acontecer são expostos ao espectador sem nenhuma censura. Não me lembro de outro filme da mesma época que tenha feito algo parecido. Essa estética empregada foi tão impactante que virou uma espécie de referência, influenciando outros longas-metragens com a mesma temática que vieram depois de “O Silêncio dos Inocentes”, como “Seven”, por exemplo.
Mas “O Silêncio dos Inocentes” não é somente um filme sombrio e com cenas cruas e pesadas, porque senão ele acabaria caindo na mesma bacia de tantos longas-metragens de terror da época. Existe uma força na narrativa que nos prende. E essa atração que a história exerce tem haver com a relação quase de professor e aluno entre Hannibal Lecter em Clarice Starling.
Temos Buffalo Bill (Ted Levine) como alvo da investigação do FBI, mas à medida que o filme avança, percebemos que o serial killer que esfola suas vítimas se transforma em uma peça nos planos de Hannibal Lecter. Fica muito claro que o foco da narrativa de “O Silencio dos Inocentes” é a relação de professor e aluna, e até mesmo romântica, que surge e se aprofunda entre o psiquiatra canibal e a agente em treinamento do FBI. Até mesmo o plano de fuga de Lecter parece algo secundário diante da perspectiva de se envolver com Clarice.
Dessa forma, o filme mostra a relação doentia que se forma entre esses dois personagens, revelando que Clarice fascina Lecter e que ela também se sente atraída por ele. Aqui, se minha memória não falha, o livro desenvolve que o fascínio de Clarice é tanto profissional quanto pessoal, enquanto no longa-metragem esses sentimentos são somente da parte de Hannibal.
E assim chegamos no que transforma “O Silêncio dos Inocentes” em um filme tão emblemático: a protagonista Clarice Starling e Hannibal Lecter. É bom explicar que o longa-metragem possui outros ótimos personagens como Jack Crawford (Scott Glenn) que chefia Unidade de Ciência Comportamental do FBI e Buffalo Bill. Aliás, Buffalo Bill é o puro suco da loucura, pensando ser algo e cometendo seus esfolamentos para realizar de e forma doentia seu desejo. Belíssimo trabalho do ator Ted Levine que emprestou seu talento e acrescentou coisas para tornar o personagem em algo estranho e incômodo.
Porém são Clarice Starling e Hannibal Lecter que nos fascinam e nos conduzem por essa jornada insana. Clarice é uma agente em treinamento inteligente e determinada que não desiste diante de problemas e de suas próprias deficiências. Ao longo do filme vemos a personagem usando sua mente analítica para prender Buffalo Bill, enquanto desvenda as pistas e charadas de Lecter. É essa característica que encanta Hannibal: uma pessoa com um potencial gigantesco, alguém com uma inteligência à altura da dele. Esse encantamento fica mais evidente quando assistimos ou lemos “O Dragão Vermelho” e vemos a relação de amor e ódio entre Will Graham e Hannibal Lecter.
Clarice tem outros desafios além de caçar Buffalo Bill e lidar com Hannibal Lecter, como a desconfiança e o preconceito por ser uma mulher inserida no ambiente predominantemente masculino do FBI e os traumas gerados pelo assassinato do seu pai policial e sua estadia na fazenda de ovelhas.
Essas situações transformam Clarice em uma personagem complexa e tornam a interpretação de Jodie Foster mais impressionante ainda, pois ela consegue equilibrar muito bem essas facetas e mostrá-las de forma muito competente quando solicitadas. Jodie Foster que já tinha ganhado um Oscar de Melhor Atriz por sua atuação em “Acusados”, ganharia a premiação na mesma categoria novamente por Clarice, se consolidando como uma das atrizes mais talentosas do cinema.
Agora, se falamos sobre “O Silêncio dos Inocentes” nosso cérebro automaticamente associa a Hannibal Lecter. O personagem que é secundário (tanto que nos créditos finais do filme o nome de Anthony Hopkins e quem ele interpreta estão quase no fim da lista do elenco principal) arremata o protagonismo com somente 16 minutos de tela. Parafrasear Clarice faz sentido, pois é bastante difícil classificar ou explicar quem é Hannibal Lecter e de certa forma é esse mistério que exerce fascínio nos demais personagens e em quem está assistindo.
Pesquisando sobre o filme e o livro homônimo, uma definição me chamou a atenção: Hannibal Lecter é a personificação do monstro moderno. Em suas pesquisas para escrever suas obras, Thomas Harris visitou uma instituição penal para entrevistar um psicopata e enquanto aguardava conversou com um médico. Após o médico sair, o guarda do lado de fora perguntou como foi a entrevista (o escritor descobriu que deixavam o paciente andar pela instituição vestido de médico pois ajudava no tratamento).
Esse evento definiu várias características de Hannibal Lecter: uma pessoa que possui uma aparência inofensiva e educada e então Thomas Harris incluiu a cereja no bolo para criar o monstro perfeito: o psicopata canibal seria psiquiatra, tornando a criatura conhecedora das ferramentas que podem detê-lo. E diante disso, como vencer Hannibal Lecter?
Para quem já viu os demais filmes ou leu os livros, sabe que o transtorno de Hannibal Lecter é mais complexo do que parece, mas pegando somente a história de “O Silêncio dos Inocentes” fica evidente os traços de psicopatia do personagem: manipulador, frieza emocional, ausência de empatia ou remorso, calculista, sempre pensando em ganho pessoal.
A todo momento somos informados do quão perigoso Hannibal Lecter é, mas não vemos realmente a violência que ele é capaz de promover a outras pessoas. Ficamos sabendo do ataque a uma enfermeira onde Hannibal morde o rosto dela, mas a foto não é mostrada ou quando o próprio personagem fala que comeu o fígado de um agente do Censo acompanhado de um Chianti. Só vamos descobrir do que ele é capaz na parte final do filme.
Na maior parte do tempo, vemos um psiquiatra requintado, extremamente educado e inteligente. E esse lado de Hannibal exerce uma atração poderosa no espectador, transformando-o em um personagem fascinante. Esse fascínio é tão forte que nos pegamos torcendo por ele.
A escolha de Anthony Hopkins para viver Hannibal Lecter não poderia ser mais acertada pois seu porte confere ao personagem um ar cavalheiresco que reforça ainda mais a dualidade na cabeça do espectador: a de nos afeiçoarmos pela pessoa educada e inteligente e ficarmos apreensivos e a repulsa por causa de sua psicopatia. Além disso, o talento de Anthony Hopkins permitiu a ele incorporar alguns maneirismos que tornam Hannibal Lecter ainda mais fascinante, como o fato de não piscar quando está analisando ou planejando algo.
Porém, para criar mais confusão na cabeça do espectador percebemos que Hannibal Lecter apesar de egoísta e manipulador, se apaixona por Clarice, demonstrando que ele é capaz de sentir empatia. Esse fato pode ser reforçado quando ele passa o dedo de forma íntima pela mão da agente em treinamento do FBI ou quando diz que o mundo é um lugar mais interessante com Clarice nele.
O impacto de Hannibal Lecter é tão grande que a sua caracterização como psicopata foi levada para outros filmes, como “Seven” e “Jogos Mortais”, se tornando referência dentro dessa temática E quando um serial killer fugindo desse estereótipo é apresentado em alguma produção é fácil estranharmos e até mesmo menosprezá-lo como uma ameaça.
“O Silêncio dos Inocentes” é um espetáculo seja do ponto de vista narrativo seja na parte técnica e por isso está no seleto grupo de filmes que ganharam nas principais categorias do Oscar: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Adaptado. Além disso, o longa-metragem é listado entre os 100 melhores de todos os tempos de vários veículos de comunicação como The Hollywood Reporter e Empire e por órgãos especializados como a American Film Institute. Merecidamente o longa-metragem foi escolhido para ser preservado no National Film Registry.
Já Hannibal Lecter é considerado o maior vilão do cinema de todos os tempos pela American Film Institute e em outros órgãos e veículos de comunicação aparece no topo ou perde para outra figurinha malévola icônica: Darth Vader.
“O Silêncio dos Inocentes” custou na época US$ 19 milhões e arrecadou impressionantes US$ 272,7 nas bilheterias ao redor do mundo. Esse sucesso de crítica, público e financeiro permitiu a produção dos filmes “Hannibal” e “Dragão Vermelho” (ambas com o retorno de Anthony Hopkins), “Hannibal: A Origem do Mal” e da série “Hannibal”, com Mads Mikkelsen como Hannibal Lecter.
“O Silêncio dos Inocentes” envelheceu bem e não perde sua força narrativa, mesmo passados 35 anos. Entre esse motivo, mais todos que escrevi aqui e muitos outros que esqueci, o filme se tornou um ícone do cinema mundial e da cultura pop, se tornando referência e influenciado até hoje, outras produções com essa temática.
Curiosidades
- Cinco anos antes de “O Silêncio dos Inocentes”, Hannibal Lecter apareceu no filme “Caçador de Assasinos”. O filme que adaptava o livro “Dragão Vermelho” trazia Brian Cox no papel do personagem.
- Dino De Laurentiis, detentor dos direitos autorais sobre o personagem Hannibal Lecter os cedeu gratuitamente para os produtores de “O Silêncio dos Inocentes” após o fracasso de “Caçador de Assassinos”.
- Anthony Hopkins estudou vários perfis de assassinos condenados, visitou diversas prisões para ver o comportamento dos encarcerados, foi à audiências sobre assassinatos em série e presenciou inúmeros depoimentos de casos relacionados.
- Anthony Hopkins modelou a voz de Hannibal Lecter combinando o autor Truman Capote, a atriz Katharine Hepburn e o supercomputador HAL 9000, de “2001: Uma Odisseia no Espaço”. Outra inspiração foi um amigo seu que raramente piscava enquanto falava. O ator utilizou o método para aumentar a estranheza e desconforto no espectador.
- “O Silêncio dos Inocentes” utiliza uma espécie de quebra da quarta parede. O diretor Jonathan Demme pediu que os atores olhassem diretamente para a câmera quando estivessem conversando em determinadas cenas, criando uma experiência imersiva, colocando o espectador no lugar dos personagens.
- O serial killer Buffalo Bill é a combinação de traços de Ted Bundy, que fingia precisar de ajuda para capturar suas vítimas; Ed Gein, que utilizou a pele de corpos humanos como vestuário e Gary Heidnik, que mantinha as mulheres presas em um buraco em seu porão.
- A relação de Clarice e Lecter foi inspirada na relação verídica entre o criminólogo Robert Keppel que pediu ajuda a Ted Bundy para analisar o perfil por trás de uma série de assassinatos em Washington.
- Anthony Hopkins e Jodie Foster não eram as primeiras opções para viver Hannibal Lecter e Clarice Starling. Para o papel do psicopata canibal foram sondados Sean Connery, Daniel Day-Lewis, Derek Jacobi e Jack Nicholson. Já para viver a agente em treinamento do FBI a preferência era Michelle Pfeiffer.
- Jodie Foster ficou com medo de Anthony Hopkins a ponto de evitá-lo quando não estavam filmando. A atriz disse que Hopkins não saia do personagem e isso a assustou. A imersão do ator foi tão grande que na cena em que Lecter zomba do sotaque da agente, é uma ofensa real, já que essa era a forma real de Jodie Foster.
- “O Silêncio dos Inocentes” é cheio de improvisações por parte dos atores, sendo uma delas a dança de Buffalo Bill em frente às câmeras de forma espontânea por parte do ator Ted Levine. Mas a mais icônica improvisação é o som que Anthony Hopkins fez com a boca após dizer que comeu o fígado de um agente do Censo com feijões e que perturbou e assustou a todos durante a gravação.
Ficha Técnica:
Título Original: The Silence of the Lambs
Título no Brasil: O Silêncio dos Inocentes
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 118 minutos
Diretor: Jonathan Demme
Produção: Kenneth Utt, Edward Saxon, Ron Bozman
Roteiro: Ted Tally
Elenco: Jodie Foster, Anthony Hopkins, Scott Glenn, Ted Levine, Anthony Heald, Brooke Smith, Diane Baker, Kasi Lemmons, Charles Napier, Tracey Walter, Roger Corman, Ron Vawter, Danny Darst, Frankie Faison, Paul Lazar, Dan Butler, Chris Isaak, Stuart Rudin, Cynthia Ettinger, Brent Hinkley, Alex Coleman, Daniel Von Bargen, Harry Northup, Lauren Roselli, George A. Romero
Companhias Produtoras: Strong Heart Productions
Distribuição: Orion Pictures
