SINOPSE: Cidade de Derry, 1962. Eventos macabros aterrorizam os habitantes da cidade. Um grupo de sete amigos começa a vivenciar fenômenos estranhos e sobrenaturais. Alguns relatam aparições de um palhaço, outros de uma múmia, até que, juntos, descobrem que o que estão vendo é uma entidade aterradora que pode assumir diversas formas. Esse ser maligno, conhecido como Pennywise, alimenta-se do medo e é capaz de se disfarçar de qualquer pesadelo que assombre as mentes das crianças.

Stephen King é o autor com maior número de obras adaptadas para o cinema, televisão e streaming. Diante dessa grande quantidade, temos adaptações muito boas e aquelas com qualidade duvidosa. Em 2017, Andy e Barbara Muschietti juntamente com a Warner Bros. resolveram adaptar uma das obras mais icônicas e amadas de Stephen King: “It: A Coisa” em dois filmes, com um primeiro capítulo (como foi denominado) ótimo e um segundo longa-metragem mediano.

Mas apesar da duvidosa qualidade do segundo filme, “It: A Coisa – Capítulo Um” arrecadou US$ 700 milhões nas bilheterias e foi aclamado por público e crítica. Isso contribuiu para que. Warner Bros. apoiasse a ideia de Andy e Barbara Muschietti de produzir um série baseada nos interlúdios do livro.

Assim, em 2025 chegou ao HBO e HBO Max “It: Bem-Vindos a Derry”.

Antes, acredito que seja necessário explicar o que os interlúdios existentes no livro “It: A Coisa” são registros históricos feitos por Mike Hanlon sobre a origem e os ciclos malignos da cidade, revelando que Derry é uma manifestação de Pennywise e seus atos violentos a cada 27 anos. Alguns exemplos desses eventos são o desaparecimento de uma colônia que se instalou na região em 1741, o incêndio da Derry Iron Works em 1908, o massacre da Gangue Bradley em 1935 e o incêndio da boate Black Spot em 1962.

A primeira temporada ou capítulo um (como vamos chamar à partir de agora) de “It: Bem-Vindo a Derry” se passa justamente no ano de 1962.

E vamos começar falando  pelo início literalmente, pois o capítulo um de “It: Bem-Vindo a Derry” tem uma das aberturas mais legais de todas as séries que já assisti. As imagens de terror e segredos sombrios da cidade contrastam de forma irônica com a divertida e inocente música “A Smile And a Ribbon”. O objetivo é transmitir que por baixo da aparente calma que paira sobre Derry existe uma corrupção e maldade proveniente de Pennywise.

Então, enquanto somos embalado por “A Smile And a Ribbon”, fiquem atentos as imagens que aparecem na abertura, misturando momentos felizes com outros que são puro terror: crianças brincando no lago enquanto são atraídas por olhos brilhantes dentro do esgoto, uma caça a ovos que parece terminar com crianças e um coelho da Páscoa pegando fogo. Além disso, à medida que o capítulo um avança, a música vai ganhando tons perturbadores com sons inquietantes e distorcidos ao fundo, mostrando a influência maligna cada vez maior do Palhaço Dançarino.

E por falar em maligno, “It: Bem-Vindos a Derry” é muito mais sombria e assustadora que os filmes de 2017 e 2019. O primeiro capítulo já é um tapa na cara de quem assiste seja pela cena inicial com o Matt (Miles Ekhardt) testemunhando o nascimento de um bebê demônio, seja no final, com o massacre dentro do cinema causado por essa mesma criatura.

Isso foi algo que me surpreendeu positivamente, pois a série pesa a mão no terror dando um ar de tensão e perigo que uma cidade assolada por uma criatura extradimensional que se autointitula o Devorador de Mundos, merece. As primeiras aparições de Pennywise são na forma das mais variadas criaturas e nenhuma delas é confortável aos olhos, existindo uma escala da menos medonha para a mais horripilante. Entre as mais variadas formas que são mostradas em “It: Bem-Vindos a Derry”, o abajur de pele humana e a mãe demoníaca de Veronica “Ronnie” Grogan (Amanda Christine) são as mais assustadoras.

Pennywise adquiriu um gosto por devorar humanos, desde que esses surgiram na Terra, isso porque o medo que sentimos possui um gosto único e crianças assustadas são as mais saborosas. Então, a fórmula que contém formas assustadoras e crianças carismáticas apresentada em “It: Bem-Vindos a Derry” são a combinação perfeita para uma história de terror.

E aqui precisamos exaltar o desenvolvimento das crianças e o elenco que dá vida em “It: Bem-Vindos a Derry”. Assim como no filme de 2017, os atores e atrizes infantis da série são incríveis. Algo que sempre digo em minhas resenhas é que para uma história funcionar, a conexão criada entre os personagens e o espectador é fundamental, mesmo com uma narrativa boa.

A história de “It: Bem-Vindos a Derry” é ótima e fica melhor ainda com um núcleo infantil tão carismático, tão envolvente. É impossível não gostar das crianças que são vítimas e as únicas que realmente enfrentam Pennywise, mesmo Ronnie Grogan em seu egoísmo eterno em salvar seu pai.

Lilly (Clara Stack), Ronnie, Will (Blake Cameron James), Marge (Matilda Lawler) e Rich (Arian S. Cartaya) transmitem vulnerabilidade e insegurança tão comum a idade deles como também carisma, graça e alegria. Além disso, demonstram uma força e resiliência gigantesca por não cederem completamente aos ataques assustadores de Pennywise e lutarem contra ele, mesmo que ninguém acredite nas crianças.

Se os responsáveis pela escalação dos atores infantis da série forem os mesmos do filme de 2017, então essas pessoas são as melhores avaliadoras de talento infantil de Hollywood, pois eles conseguiram que o raio do carisma e talento caísse duas vezes no mesmo lugar.

E por falar em carisma, “It: Bem-Vindos a Derry” produz com excelência o que ficou conhecido como “efeito Game of Thrones”, que basicamente é fazer com que o espectador se apegue emocionalmente, crie um laço empático forte com determinado personagem, só para matá-lo. Como disse, nossa conexão com o núcleo infantil da série é instantânea e poderosa, então nos importamos muito com cada um desses personagens, mas o que os responsáveis fizeram com Rich é sacanagem, pois eles nos fazem nos sentir tão felizes por conhecer esse menino, somente para tirá-lo de forma trágica e emocionante no sétimo episódio, com direito a um ato de puro heroísmo e uma demonstração de amor por Marge de fazer as lágrimas rolarem.

Porém, nada supera a entrada definitiva de Pennywise na série. “It: Bem-Vindos a Derry” vai progressivamente aumentando a presença e a influência do Palhaço Dançarino na cidade, mas sempre com outras formas. Agora, quando a criatura finalmente aparece, saindo de dentro de Matty, como se estivesse virando a criança do avesso, como uma roupa, aí é ladeira abaixo e o terror adquire uma proporção e uma velocidade absurda.

Vendo algumas postagens no Instagram sobre atores e atrizes que foram feitos para determinados papéis, associar Bill Skarsgård a Pennywise faz total sentido, pois em “It: Bem-Vindos a Derry” ele está completamente à vontade, tornando o Palhaço Dançarino naquilo que os filmes não conseguiram realmente: uma criatura que emana e invoca o puro terror na humanidade, se divertindo em assustar, atormentar e torturar antes de nos devorar.

Existe todo o trabalho incrível de maquiagem, figurino para transformá-lo na criatura, mas toda a performance de Bill Skarsgård modulando sua voz, o olhar estrábico e o biquinho já tão conhecido e outras feições é que tornam Pennywise em uma criatura tão assustadora e interessante. E vou além, Bill Skarsgård é quem transforma Pennywise em um dos melhores vilões de todos os tempos, ao lado do Coringa de Heath Ledger e Hannibal Lecter de Anthony Hopkins.

Poderia ficar mais tempo falando da grande atuação de Bill Skarsgård como Pennywise, mas a seguir vou colocar alguns momentos entre todos em que vemos como o ator está à vontade, focado e dando tudo de si para trazer A Coisa em toda sua glória assustadora. Minha opinião e acredito que de todos que assistiram à série é que Bill Skarsgård mereça ser indicado e ganhar alguma premiação por sua atuação.

Algo que fez com que eu desgostasse de “It: Capítulo Dois” (2019) foram as mudanças feitas na história, principalmente o confronto final entre o Clube dos Otários e Pennywise, envolvendo o famigerado bullying com o palhaço. Parece que Andy Muschietti aprendeu com seus erros e além de várias referências a outras obras de Stephen King, seus acréscimos são providenciais e enriquecedores à mitologia da criatura.

A série está cheio de easter eggs à obra original como pingentes em forma de tartaruga, a menção de Maturin em vários momentos e a mascote do colégio (ou será que seria o próprio Maturin observando?). Para quem não sabe, Maturin é uma entidade cósmica poderosa e benevolente no universo de Stephen King, sendo o oposto direto de Pennywise, é o criador acidental do universo ao vomitar a realidade durante um enjoo e protetor de um dos feixes que sustentam a Torre Negra.

No episódio final, com Pennywise livre do que limitava seus poderes, uma névoa cai sobre a cidade de Derry, fazendo referência ao conto “O Nevoeiro” e reforçando a conexão entre A Coisa e a dimensão que vaza pelo portal aberto por acidente nesse conto: o Todash, um vazio escuro e dimensional entre universos, lar de entidades cósmicas aterrorizantes.

Para quem leu o livro, sabe que Dick Hallorann (Chris Chalk), o chef do Hotel Overlook, de “O Iluminado”, é mencionado como o cozinheiro da boate Black Spot. Mas na série ele ganha importância muito maior, fazendo parte do projeto do Exército Estadunidense em encontrar Pennywise, graças a sua Iluminação. Seus poderes são importantes para enfrentar a criatura e também são sua ruína, pois em um desses embates A Coisa consegue abrir a caixa mental dentro da cabeça dele, liberando forças perigosas.

Mas os acréscimos mais bem-vindos da série são em relação a própria mitologia de Pennywise, mostrando sua chegada ao nosso planeta milhões de anos atrás, sua fome por humanos e pelo medo que sentimos, os motivos para reivindicar a persona do Palhaço Dançarino, mas principalmente e as que mais gostei: porque A Coisa não sai da cidade e como ele vê o tempo.

“It: bem-Vindo a Derry” mostra sua chegada a Terra selado em uma rocha capaz de selar os poderes de Pennywise. Mesmo livre, sua força acaba comprometida pelas propriedades do cometa e um plano elaborado pelos indígenas que viviam na região antes de Derry ser criada. E dessa forma, essa explicação levanta outra dúvida: quem selou A Coisa no cometa?

No episódio final, Pennywise reconhece uma das crianças como a mãe de Richie Tozier e em seu discurso ele diz que Richie é um dos otários que o matará no futuro, ou seria no passado? Esse diálogo reforça a característica lovecraftiana Da Coisa e que Stephen King já afirmou ter usado como inspiração para essa e outras criaturas. Como um ser que remete aos Deuses Exteriores, o tempo e o espaço nada significam para elas podendo viver dentro ou fora deles. E se você não está convencido de que Pennywise é uma criatura oriunda do Horror Cósmico, saiba que se apresentar com vários rostos e formas e esse interesse em criaturas tão mundanas como nós, remete a Nyarlathotep.

“It: Bem-Vindo a Derry” foi um grande sucesso registrando 5,7 milhões de espectadores nos primeiros três dias, tornando-se a terceira maior estreia da história da HBO Max, atrás apenas de “A Casa do Dragão” e “The Last of Us”. O episódio 7 alcançou o pico de audiência, com 5,8 milhões de pessoas assistindo. A média da produção ficou em 10,7 milhões por episódio e totalizou 18,3 milhões de espectadores ao longo da temporada.

Esse sucesso garantiu a renovação para mais duas temporadas e assim veremos o que ocorreu em 1935 e 1908, respectivamente. Diante disso, estou empolgado pelo que virá em relação a Pennywise, tanto pelo que existe nas páginas do livro como pelos acréscimos na mitologia do Palhaço Dançarino. Além disso, não me surpreenderia se uma série sobre o Hotel Overlook fosse feita, já que Dick Hallorann foi um sucesso e o passado do hotel de luxo, antes dos eventos de “O Iluminado”, é sombrio e mortal.

O sucesso da série foi tanto que existem conversas sobre um terceiro filme de “It: A Coisa” e que se passaria após os eventos do longa-metragem de 2019. Mas como isso seria possível se o Clube dos Otários matou A Coisa? Stephen King disse que o livro possui lacunas, que para os mais atentos, estão lá e permitiriam o retorno de Pennywise. E uma criatura com tamanho poder, capaz de distorcer o tempo e o espaço, será que pode ser destruída?

Bom, falei demais e é hora de encerrar essa resenha, dizendo que o capítulo um da série trouxe tudo que amamos nos filmes de 2017 e 2019, explorando o terror existente nas páginas do livro e o maximizando nas telinhas, aumentando a mitologia Da Coisa de forma incrível e trazendo um Pennywise surtado e que gosta tanto de nos torturar quanto de nos devorar.

Dito tudo isso, é claro que vale muito a pena mesmo assistir ao primeiro capítulo de “It: Bem-Vindos a Derry”!

Ficha Técnica:

Título Original: It: Welcome to Derry

Título no Brasil: It: Bem-Vindos a Derry

Gênero: Terror

Temporadas:

Episódios: 8

Criadores: Andy Muschietti, Barbara Muschietti, Jason Fuchs

Produtores: Andy Muschietti, Barbara Muschietti, Jason Fuchs

Diretores: Andy Muschietti, Andrew Bernstein, Emmanuel Osei-Kuffour, Jamie Travis

Roteiro: Jason Fuchs, Austin Guzman, Guadalís Del Carmen, Gabe Hobson, Helen Shang, Brad Caleb Kane, Cord Jefferson,

Elenco:

Taylour Paige, Jovan Adepo, James Remar, Stephen Rider, Matilda Lawler, Amanda Christine, Clara Stack, Blake Cameron James, Arian S. Cartaya, Miles Ekhardt, Mikkal Karim-Fidler, Jack Molloy Legault, Matilda Legault, Chris Chalk, Peter Outerbridge, Madeleine Stowe, Bill Skarsgård, Rudy Mancuso, Alixandra Fuchs, Thomas Mitchell, Maya McNair, Hannah Storey, Maya Misaljevic, Kimberly Guerrero, Violet Sutherland, Joshua Odjick, Chad Rook, Shane Marriott, Dorian Grey, Richard Walters, Liam Seamus Murphy, Andrew Morgado, Lazzelle Gelias, Wayne Charles Baker, Morningstar Angeline, Kiawentiio, Larry Day, Lindsay Merrithew, Peter Deiwick, Finley Burke, Audrey Wellington, Lochlan Ray Miller, Robert Clarke, BJ Harrison, Ryan J. O’Callaghan, Andrew Moodie, Madeleine Cox, Sophia Lillis, Andoni Gracia

Companhias Produtoras: Rideback, Vertigo Entertainment, FiveTen Productions, K Plus Ultra, Double Dream, Warner Bros. Television, HBO

Transmissão: HBO, HBO Max

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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