SINOPSE: Lawrence (Ralph Fiennes), conhecido também como Cardeal Lomeli, é o encarregado de executar o Conclave após a morte inesperada do amado e atual pontífice. Sem entender o motivo, Lawrence foi escolhido a dedo para conduzir essa reunião como última ordem do papa antes de morrer. Assim sendo, os líderes mais poderosos da Igreja Católica vindos do mundo todo se reúnem nos corredores do Vaticano para participar da seleção e deliberar suas opções, cada um com seus próprios interesses. Lawrence, então, acaba no centro de uma conspiração e descobre um segredo do falecido pontífice que pode abalar os próprios alicerces da Igreja. Em jogo, estão não só a fé, mas os próprios alicerces da instituição diante de uma série de reviravoltas que tomam conta dessa assembleia sigilosa.

O Conclave é a reunião do Colégio de Cardeais convocada para eleger o bispo de Roma, também conhecido como Papa. Recentemente tivemos a morte do Papa Franciso e consequentemente a eleição do cardeal Robert Prevost, que escolheu a alcunha de Leão XIV. O irmão dele, John Prevost, disse que o novo bispo de Roma assistiu ao filme “Conclave” logo antes de começar o processo de votação.

Falamos recentemente sobre o livro homônimo, escrito por Robert Harris. Dessa forma, essa resenha não será tão longa, por um simples motivo: a adaptação cinematográfica é bastante fiel ao material original.

Quando me refiro à fidelidade do filme em relação ao livro, quero dizer que os elementos chaves, estão todos presentes e adaptados de forma quase idêntica ao que está descrito nas páginas da obra de Robert Harris. Toda as articulações políticas nos bastidores dos correligionários para que seus preferiti sejam escolhidos o novo Papa, os preparativos e rituais que envolvem antes, durante e após o Conclave e o mais importante: a conspiração para a eleição do novo líder do Vaticano.

E é nesse ponto, na conspiração e no articulador misterioso que move as peças nas sombras para manipular a votação do novo Papa, que as coisas andam em ritmos diferentes.

No livro, o ritmo narrativo é mais lento e cadenciado, dando a oportunidade de desenvolver melhor toda a conspiração, bem como os conflitos internos dos principais personagens. Dessa forma, existe espaço para trabalhar o suspense, e consequentemente, dando um peso maior a cada nova revelação bombástica. Esse suspense, dá ares “maquiavélicos” ao articulador dessa conspiração, parecendo que cada movimento foi friamente calculado, como diria o Chapolin. Perceba que coloquei aspas na palavra maquiavélico, pois o objetivo da manipulação do Conclave tem razões diferentes do que predispomos a pensar.

No filme, pelo corte final de 120 minutos de duração, as coisas acontecem muito mais rápido e as consequências dessas articulações são amenizadas por falta de tempo para o espectador poder criar suas teorias.

Um exemplo é a relação afetiva envolvendo um cardeal com uma integrante do Conclave. No livro, o tempo é mais dosado, dando espaço para criarmos nossas teorias e expectativas para o que se passa entre esses dois integrantes da Igreja Católica. No filme, as coisas são um pouco mais apressadas, minimizando o mistério e os conflitos emocionais e políticos dos envolvidos.

Os próprios dramas pessoais dos cardeais são afetados por esse “atropelo”. O maior exemplo é o cardeal Lawrence, que passa por uma crise de fé grave, a ponto de ter solicitado ao Papa, antes de sua morte, que aceitasse sua renúncia. Com pedido recusado e tendo que administrar o Conclave, suas dúvidas se é a pessoa certa para tal evento são maximizados.

Então, o filme precisaria de mais tempo para aproveitar melhor essas tramas? Para mim, o longa-metragem poderia ter mais uns 30 minutos para trabalhar  melhor essas artimanhas e dramas pessoais dos personagens. Mas o corte final de 120 minutos é um padrão atual para os filmes que vão para os cinemas, pois permite mais sessões e dessa forma, maximiza a arrecadação. Mas além do fator econômico, acredito que foi uma decisão dos responsáveis pelo longa-metragem.

Mas “Conclave” tem outros elementos que o tornam um filme muito bom, e maior deles é a parte visual. Transportar as cerimônias, locais e vestimentas descritos no livro para algo visual, demonstra um trabalho realizado incrível de fotografia e figurino. Independentemente das críticas e posições que as pessoas podem ter, é inegável a beleza as roupas e cerimônias que a Igreja Católica possui. Eu mesmo, nas raras vezes que vou à uma missa, fico maravilhado com todos os elementos envolvidos.

Dessa forma, “Conclave” adapta de forma belíssima o que imaginamos ao ler o livro de Robert Harris. Fiquei surpreso pelo filme ter levado apenas o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado e não Fotografia e Figurino. Só fico imaginando que “O Brutalista” (Oscar de Melhor Fotografia) e “Wicked” (Melhor Figurino) devem ter feito trabalhos impecáveis para terem tirados essas estatuetas de “Conclave”.

Quanto ao elenco, “Conclave” tem nomes muito bons, mas por causa da velocidade da trama no filme, acredito que as atuações foram prejudicadas. Ralph Fiennes está muito bem como o protagonista do filme, mas o assistindo, seu personagem está raso em comparação ao apresentado ao livro. Quem chama a atenção é Sergio Castellitto, que interpreta o cardeal Goffredo, dando a ele um ar de arrogância superioridade que o torna fanfarrão e insuportável.

De todo o elenco, o que me chamou a atenção foi Stanley Tucci, que interpreta o cardeal Bellini. Nos livros, fica evidente sua insegurança e temeridade com o futuro da Igreja e com o seu próprio, já que ele é um dos prefereti a Papa, algo que ele não anseia. No filme, essa temeridade existe, mas em relação à suas pretensões, é algo tipo “ééééééé, não vou reclamar se virar Papa”. E a interpretação do ator tornam o personagem no longa-metragem, mais ativo e mordaz.

É preciso destacar também o excelente trabalho de Edward Berger, que mais uma vez mostra que é um dos diretores mais talentosos que surgiram atualmente. Seu comando em “Conclave” está em cada detalhe, algo que já tinha sido evidenciado no longa-metragem “Nada de Novo no Front”, vencedor do Oscar de 2023 nas categorias de Melhor Filme Internacional, Melhor Direção de Arte, Melhor Trilha Sonora e Melhor Fotografia; e eleito pelo Cinemaníacos, como o melhor longa-metragem de 2022.

Quando comparadas a obra literária e o filme, o livro é narrativamente melhor, por desenvolver melhor sua proposta de mistério e conspiração. Mas o longa-metragem consegue traduzir visualmente a beleza que as páginas descrevem, nos dando a sensação de que estamos vivenciando in loco todos os eventos da votação mais importante da Igreja Católica.

E é justamente por esse aspecto visual tão bem detalhado e incrível, que falo que vale a pena assistir “Conclave”.

Ficha Técnica:

Título Original: Conclave

Título no Brasil: Conclave

Gênero: Suspense

Duração: 120 minutos

Diretor: Edward Berger

Produção: Tessa Ross, Juliette Howell, Michael Jackman, Alice Dawson, Robert Harris

Roteiro: Peter Straughan

Elenco: Ralph Fiennes, Stanley Tucci, John Lithgow, Sergio Castellitto, Isabella Rossellini, Lucian Msamati, Carlos Diehz, Brían F. O’Byrne, Merab Ninidze, Thomas Loibl, Jacek Koman, Loris Loddi, Balkissa Maiga

Companhias Produtoras: FilmNation Entertainment, Indian Paintbrush, House Productions

Distribuição: Diamond Films

Please follow and like us:

Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *