SINOPSE: Em um 1997 imaginado e apocalíptico, uma jovem em fuga e seu robô atravessam os Estados Unidos rumo ao oeste. Ruínas de gigantescos drones de batalha se espalham pela paisagem, junto a toda espécie de lixo descartado de uma sociedade ultra tecnológica e consumista em declínio. À medida que se aproximam da fronteira do país, o mundo parece se desfazer num ritmo cada vez mais alucinante, como se em algum lugar além do horizonte o núcleo oco da civilização finalmente fosse desabar.

Meu primeiro contato com o trabalho de Simon Stålenhag deu-se de forma indireta, assistindo a série “Tales From The Loop” da Amazon Prime, que inspirada pelas incríveis pinturas do artista, explora as aventuras alucinantes de pessoas que vivem acima do Loop, uma máquina construída para abrir e explorar os mistérios do universo, tornando realidade coisas anteriormente relegadas à ficção científica. Com uma trama bastante interessante e visuais retirados das ilustrações do autor, que misturam ambientes comuns com tecnologia futurista, meu interesse em consumir outras obras originais ou inspiradas nos trabalhos do escritor e ilustrador, aumentou.

No Brasil, apenas um trabalho de Simon Stålenhag foi publicado: Estado Elétrico, pela editora Quadrinhos e Cia, que a Netflix os irmãos Russo adaptaram. E é sobre esse livro ilustrado que vamos falar agora.

O que chama nossa atenção imediatamente em “Estado Elétrico” são as ilustrações de Simon Stålenhag, que utilizando tablets e computadores Wacom, pinta, a partir de fotografias que ele tira, suas obras de forma semelhante a pinturas a óleo. O resultado são verdadeiras obras de arte, que misturam perfeitamente o cotidiano com elementos de ficção científica.

Mas além dessa fusão perfeita entre o real e o fictício, a técnica e as coras utilizadas por Simon Stålenhag transformam as ilustrações em obras de arte que facilmente seriam expostas nas principais galerias de arte do mundo. O escritor e ilustrador afirmou que se esforça muito para fazer com que os pincéis digitais se comportem naturalmente e preservem a caligrafia de pinceladas.

O interessante de “Estado Elétrico” é que as imagens contam uma história enquanto o texto de Simon Stålenhag narra Michelle, uma adolescente órfã que viaja pela Costa Oeste com Skip, um robô que alega possuir a consciência do seu irmão. Então, novamente, temos uma amálgama perfeita entre um drama pessoal e humano, mais intimista, e uma narrativa futurista e apocalíptica.

Michelle, em uma road trip, vai em busca do seu irmão com a ajuda de Skip. O mistério é desvendarmos ao longo das páginas se realmente o robô que acompanha a adolescente, contém a consciência dele. E se Skip for o possuidor da mente do irmão de Michelle, o que aconteceu com o corpo?

As imagens, acrescidas de alguns parágrafos e páginas negras (já vou falar delas), contam que os homens, lutando contra as máquinas, criaram os neurocasters, capacetes que conectavam a mente das pessoas a drones e outras máquinas de combate. Dessa forma, a humanidade virou a maré a seu favor e venceu a guerra. Após o confronto, os capacetes passaram a ser utilizados como forma de lazer e como uma fuga da realidade, onde os homens vivem em uma realidade virtual que lhes traga paz e felicidade.

E fazendo um paralelo a nossos dias, de certa forma não é o que fazemos ao acessarmos a internet e passar horas e horas consumindo conteúdos, ou como já ouvi, nossas doses de dopaminas virtuais, criando verdadeiros “viciados” digitais?

Em “Estado Elétrico”, a utilização do neurocaster cria uma dependência cada vez maior das pessoas com a realidade virtual que ele oferece. A consequência é que os homens definham até a morte na vida real, enquanto vivem suas vidas digitais. E o que era a salvação pode se tornar a êxodo da humanidade.

Porém, como disse Antoine-Laurent de Lavoisier: “Na Natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. As pessoas conectadas a rede de neurocasters, que se transforma em algo novo, algo “vivo”, que possui os mesmos objetivos de outras formas de vida: nascer, crescer e se reproduzir. E é disso que se trata as folhas negras de “Estado Elétrico”.

“Estado Elétrico” é um livro pequeno, mas suas narrativas visuais e escritas são extremamente ricas, fazendo com que essa história se torne maior que as pouco mais de cento quarenta páginas. Foi fácil contemplar as ilustrações de Simon Stålenhag por vários minutos para captar todos os detalhes delas, bem como ficar vários minutos durante e depois da leitura, refletindo sobre a história e as ideias apresentadas no texto.

Infelizmente, a Netflix transformou uma história incrível em um enlatado cinematográfico, que custou muito caro à plataforma de streaming.

Entre o filme e o livro, fico com a obra literária, pois consegue através de forma escrita e visual, trazer uma história de drama pessoal e ficção científica de muitas camadas, e, inclusive, com uma perspectiva original.

Por esses motivos, digo que vale muito a pena ler “Estado Elétrico”!

Ficha Técnica:

Título Original: The Electric State

Título no Brasil: Estado Elétrico

Autor: Simon Stålenhag

Tradutor: Daniel Galera

Capa: Dura

Número de páginas: 144

Editora: Quadrinhos na Cia

Idioma: Português

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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