SINOPSE: Acontecimentos grotescos começam a surgir em Kurôzu, a pequena localidade onde Kirie Goshima nasceu e cresceu. O vento sopra em curvas, folhas e ramos se enrolam e a fumaça expelida do crematório sobe desenhando redemoinhos funestos. Logo os humanos também são afetados pelo fenômeno helicoidal. Cabelos se revolvem em círculos e corpos se retorcem… Kirie tenta escapar da cidade para fugir da maldição da espiral…

 

Meu primeiro contato com Junji Ito foi ter lido “Fragmentos do Horror”, lançado pela editora Darkside. Apesar das histórias medianas e fracas, fiquei impressionado com a capacidade do mangaká em trazer imagens desconfortáveis que me fez apelidá-lo de Mestre do Bizarro.

Esse desconforto visual que Junji Ito consegue trazer me instigou a querer consumir outros materiais dele, até para saber se o mangaká só tinha talento para criar imagens bizarras. Por isso adquiri e li “Uzumaki”, sua obra mais famosa

“Uzumaki” conta a história da cidade de Kurôzu que é acometida por estranhos eventos sempre ligados a imagem da espiral, podendo arremeter uma ou várias pessoas de uma só vez. Mas não só as pessoas, o ambiente ao redor também passam a sofrer com essa fenômeno.

A medida que fui lendo “Uzumaki” fui percebendo uma certa coesão narrativa. Como “Fragmentos do Horror”, existem histórias que foram escritas somente para que Junji Ito expusesse seu talento de criar imagens bizarras, porém todas as tramas fazem parte de algo maior. É como assitir a um filme de terror como “Atividade Paranormal”: a medida que a influência da espiral fica maior, os eventos se tornam mais estranhos e corriqueiros, até culminar em um evento apocalíptico com fortes doses lovecraftianas.

Sempre falo isso: uma boa HQ ou um bom mangá, é a combinação perfeita entre roteiro e arte. E os traços de Junji Ito são incríveis e conseguem trazer com perfeição os sentimentos que ele deseja nos transmitir: repulsa, asco, apreensão e medo.

Quando o assunto é desenhar seres ou situações grotescas,  não conheço ninguém que se equipare à arte de Junji Ito, sendo os olhos de seus personagens, quando dominados pelos eventos criados por ele, o que mais me chama a atenção.

O volume lançado aqui no Brasil de “Uzumaki” pela editora Devir reúne todos os capítulos lançados de 1998 a 1999. E de todas essas histórias, duas realmente são verdadeiras obas de terror.

“Caixa-Surpresa” conta a história de Yamagushi, que adora pregar sustos nas pessoas, e que se apaixona por Kirie. Após sua morte em um trágico acidente de carro, Kirie começa a ouvi-lo e resolve ir ao cemitério ver se ele está morto realmente. O que acontece a partir daí é uma mistura de “The Walking Dead” com o brinquedo que dá título ao capitulo.

Agora, “Nuvem de Mosquito” é o capítulo mais coeso e assustador de “Uzumaki”, funcionando tanto como mais um evento do fenômeno da espiral, quanto como uma história totalmente apartada. Com uma narrativa que facilmente renderia um longa-metragem animado, Kurôzu é assolada por uma praga de mosquitos. Coincidentemente a isso, as mulheres grávidas da cidade parecem ser o prato predileto dos insetos. Kirie, que está internada no hospital devido aos acontecimentos no Farol Negro, acorda no meio da noite e presencia acontecimentos que mostram a genialidade de Junji Ito tanto em desenhar quanto escrever histórias de horror.

Vale destacar também os capítulos finais, “Labirinto” e “Ruínas” que “explicam” o que está causando o efeito da espiral na cidade. Coloquei “explicam” entre aspas, pois Junji Ito revela o responsável pelo fenômeno helicoidal, mas deixando muito mais perguntas do que respostas. Ou seja, o desfecho de “Uzumaki” é uma grande homenagem ao Horror Cósmico.

Antes de terminar essas resenha, fiquei pensando qual das criaturas desenhadas por Junji Ito é a mais bizarra de “Uzumaki”. Uma tarefa bem difícil, pois todas são grotescas, porém a que ele apresenta na continuação do capítulo “Caos”, é que mais trouxe a sensação de asco e repugnância.

Junji Ito é leitura obrigatória para quem curte terror, e “Uzumaki” tem tudo o que um fã do horror psicológico gosta: desconforto, repugnância, criaturas grotescas e bizarras.

E devemos comemorar muito, pois a  Devir lançou esse ano “Gyo” e já anunciou “Vênus Invisível” e a Pipoca e Nanquim publicou “Tomie”, anunciou “Frankenstein” para esse ano e mais três títulos de Junji Ito para 2022. O que isso significa? Que estamos vivendo a “Itomania” no Brasil!

Com uma história bem coesa ao longo de 20 capítulos e um Junji Ito inspirado em criar imagens grotescas e apavorantes, “Uzumaki” vale cada centavo gasto.

Dito tudo, é claro que vale muito a pena ler “Uzumaki” do Mestre do Bizarro, Juni Ito

P.S.: Confira o trailer do anime que será lançado em 2020 e que adaptará “Uzumaki”.

Ficha Técnica:

Título Original: Uzumaki

Título no Brasil: Uzumaki

Autor: Junji Ito

Ilustrador: Junji Ito

Tradutor: Arnaldo Oka

Capa: Comum

Número de páginas: 668

Editora: Devir

Idioma: Português

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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