
SINOPSE: Thomas Senlin, o pacato diretor de uma escola rural decide levar sua esposa para passar a lua de mel na Torre de Babel, tida como a maior maravilha do mundo. Imensa como uma montanha, a Torre anciã possui incontáveis circumreinos, reinos verticais empilhados uns sobre os outros como as camadas de um bolo. Mas quando eles chegam, Senlin percebe que a Torre não é o bastião da cultura e da tecnologia que sempre acreditou, mas uma cova traiçoeira de tiranos e ladrões, onde não se pode confiar em ninguém. Quando a mulher de Senlin some em meio à multidão, ele deve navegar através de manicômios, salões de baile, teatros burlescos e demais níveis extraordinários para encontrá-la, se puder.
Quando a editora Morro Branco anunciou que lançaria “A Ascensão de Senlin”, fiquei ansioso para lê-lo, não só pela sinopse, mas por ter ganho o Self-Published Fantasy Blog-Off (concurso promovido pelo escritor Mark Lawrence, com o objetivo de maior visibilidade aos autores de fantasia independentes), e pelas críticas e opiniões de leitores e críticas especializadas.
“A Ascensão de Senlin” é um ficção especulativa que se passa em Ur, que lembra muito nosso mundo na época da Revolução Industrial ocorrida nos séculos XVIII e XIX, com seus dirigíveis e veículos a vapor. Esse mundo tem a Torre de Babel como o centro de tudo, símbolo da civilização e das realizações humanas: uma estrutura de proporções colossais e tão alta que ninguém sabe ao certo qual sua altura exata.
O protagonista Thomas Senlin é apresentado como uma pessoa comum e munido apenas da sua inteligência. Mas esse intelecto admirável só é superado pela sua ingenuidade, afinal sua visão idealizada da Torre de Babel cai por terra à medida que ele sobe por essa imensa estrutura. A cada novo circunreino, ele percebe que o local na verdade não é o bastião de realizações e virtudes, mas o antro das iniquidades humanas. Apesar de bem desenvolvido ao longo do livro, foi o personagem que achei menos interessante. Entendi a ideia de Josiah Bancroft em mostrar uma pessoa virtuosa que não se deixa infectar pelo ambiente corrupto da Torre de Babel, mas achei essa honradez toda um pouco forçada. Espero que nos próximos volumes da série, o autor “suje” um pouco Thomas Senlin, e assim torne ele gente como a gente.
Mas em contrapartida, temos alguns personagens secundários bastante interessantes. Adamos é o contraponto de Thomas Senlin, pois também busca recuperar algo importante para ele, mas não titubeia em tomar decisões dúbias e nada honradas para alcançar seu objetivo. Edith é uma mulher forte e independente que se refugia na Torre de Babel para fugir da subserviência de um casamento arranjado. Esses são alguns dos “companheiros de subida” de Thomas Senlin, mas por já estarem há algum tempo vivendo na maior estrutura de Ur, possuem valores conflitantes: são pessoas honradas até o ponto em que seus objetivos estão ameaçados. Esse “cinza” na personalidade desse e de outros personagens é bem estruturada tornando-os mais críveis.
“A Ascensão de Senlin” tem dois ótimos vilões. O Comissário é o manda-chuva corrupto das Termas, matando e torturando quem quiser no terceiro circunreino da Torre de acordo com sua consciência e valores distorcidos. Fora das paredes de seu palácio, sempre se apresenta com uma máscara de gás devido a um distúrbio mais mental que fisiológico, que o faz ter aversão a praticamente todos os odores. Seu poder é consolidado e inquestionável graças ao carrasco Mão Vermelha: uma pessoa com aparência de boneca de porcelana e que injeta em seu organismo uma substância que lhe dá super-força e agilidade sobre-humana. Mão Vermelha é um sociopata por causar dor e sofrimento às pessoas como se estivesse fazendo algo sem importância.
Mas o melhor personagem do livro é a própria Torre de Babel. Josiah Bancroft incutiu nessa estrutura colossal e de incontáveis circunreinos, um magnetismo que traga tudo e desvirtuando a todos que entram em contato com sua aura corrupta. Os circunreinos são muito bem descritos nos passando a sensação de que também estamos desbravando esses feudos. As características peculiares de cada circunreino possuem suas funções e mostram que cada andar é interligado de alguma maneira.
A escrita de Josiah Bancroft é extremamente ágil e fluida fazendo com que as páginas sejam lidas de forma compulsiva. Com o objetivo alcançado em trazer uma leitura despretensiosa e inteligente ao mesmo tempo, o livro captura sua atenção de imediato e é bem difícil largá-lo. É merecido o hype em cima de “A Ascensão de Senlin”, pois A Torre de Babel é instigante, atiçando nossa curiosidade para saber qual seu tamanho, como serão os próximos circunreinos mostrados, e os mistérios que a cerceiam (quem é a Esfinge? Por quê o quadro de Ogier é tão importante?). Tudo isso e muito mais será mostrado ao longo de mais três livros (a série será uma quadrilogia).
Parabéns a Josiah Bancroft por ter escrito esse ótimo primeiro livro, e que os demais da série “Os Livros de Babel” sejam tão bons ou melhores. E parabéns a Morro Branco, que tem o histórico de concluir as séries literárias que lança (algo cada vez mais raro por aqui quando falamos de ficção e fantasia), por ter trazido mais uma ótima obra de ficção especulativa para o Brasil.
Investimento garantido! Boas horas de diversão! Vale muito a pena ler “A Ascensão de Senlin”!
![]() | Ficha Técnica Título Original: Senlin Ascends Título no Brasil: A Ascensão de Senlin Autor: Josiah Bancroft Tradutor: Aline Storto Pereira Capa: Comum Número de páginas: 528 Editora: Morro Branco Idioma: Português |
