
SINOPSE: Um serial killer com poderes paranormais está assassinando evangelistas famosos e os vídeos de cada um deles sendo torturados ganham cada vez mais público na internet. O assassino se proclama o novo messias, e os pecadores devem temer sua justiça. O que a Sociedade de São Tomé teme, no entanto, é que ele acabe com o trabalho de séculos de manter o sobrenatural bem afastado da consciência da população, embora seres mágicos povoem o submundo da cidade. Para garantir que o assassino seja capturado e o máximo de discrição mantida, a Sociedade convoca Judas Cipriano, um padre indisciplinado, descendente de São Cipriano e herdeiro de alguns poderes celestiais. Veterano nesse tipo de caso, o padre é enviado para trabalhar como consultor da Polícia Civil e fica responsável por apresentar à jovem inspetora Júlia Abdemi o lado místico da cidade. Para resolver o caso, e sobreviver, os dois precisarão de toda ajuda que puderem encontrar…
“Deuses Caídos” é um livro escrito pelo brasileiro Gabriel Tennyson e publicado pela Suma. Esse fato me chamou a atenção pois as grandes editoras no Brasil não costumam dar essa oportunidade aos autores nacionais de fantasia e terror. Mas o fato de um escritor, seja ele nacional ou não, estar em uma editora de grande porte não significa que a obra seja boa.
Lendo “Deuses Caídos”, o que mais me chamou atenção é que Gabriel Tennyson nos traz um verdadeiro representante da literatura gore (subgênero do terror que, deliberadamente, se concentra em representações gráficas de sangue e violência). A justiça perpetrada pelo assassino, a descrição de alguns personagens, cenários e localidades são perturbadoras pois o escritor os narra com uma riqueza de detalhes que impressiona. As páginas desse livro estão repletas de mutilações, estripação, sadomasoquismo, sangue, fezes, podridão, e por aí vai.
“Então, sem razão aparente, ele mordeu o pulso com uma dentada vigorosa. O sangue de Santana escorreu pela ferida, mas isso não o impediu de dar uma segunda e depois uma terceira mordida. Nauseado, Cipriano o viu mastigar a carne até chegar às veias.” (trecho do livro “Deuses Caídos”)
Gabriel Tennyson nos traz um assassino de motivações simples, algo que gostei bastante. Descrente da filosofia de Jesus (se lhe derem um tapa, ofereça a outra face) e da percepção pessoal da ausência Dele e de Deus perante tantas atrocidades, essa criatura pretende castigar pessoas comprovadamente más das formas mais nefastas possíveis, e depois executa-las ou não de acordo com os likes (não matar) ou deslikes (matar) no YouTube. A cada novo vídeo, esse ser se aproxima mais de se tornar o novo messias do mundo, o novo Deus, e assim trazer à humanidade uma era infinita de tortura onde a filosofia do “olho por olho, dente por dente” será a predominante. Essa questão da ascensão do serial killer à divindade é explorada pelo escritor de forma bem inteligente: os deuses são criados a partir da devoção cada vez maior das pessoas, e a internet é a ferramenta midiática que torna pessoas comuns em celebridades instantâneas.
“Em grande velocidade, filamentos brotaram daquela espinha e começaram a recriar um esqueleto. O crepitar das calcificações misturou-se ao borbulhar da medula que preenchia os ossos. Nervos, veias e artérias se alastraram feito trepadeiras, enquanto na caixa torácica, órgãos inflaram para bobear sangue e enzimas — tudo nascido a olho nu —, revelando que a natureza gestava uma abominação dentro de um útero invisível.” (trecho do livro “Deuses Caídos”)
Mas com certeza o melhor personagem de “Deuses Caídos”, é Judas Cipriano. Possuidor da “Trapaça” e sangue celestial, Judas Cipriano é o nosso Constantine tupiniquim: fumante compulsivo, alcoólatra, trapaceiro e de caráter duvidoso. Além disso, o personagem é homossexual com uma tara por travestis, vesgo e com um físico de comedor de pastel. Integrante de Ordem de São Tomé, sua função é impedir que fatos e criaturas sobrenaturais fiquem no capo da ficção, do conto de fadas.
“Deuses Caídos” ainda tem mais dois personagens principais: o Gi Jong e Júlia Abdemi. Gi Jong é um colecionador de antiguidades místicas que esconde um segredo (que a orelha da capa da frente do livro entrega logo de cara). Divertido e muitas vezes dúbio em suas intenções, é o melhor amigo de Judas Cipriano. Sua presença e agrega muito à história e seu combate com o assassino é muito legal. Já Júlia Abdemi me pareceu uma personagem meio solta em alguns momentos da obra, não fazendo sentido para a trama.
A escrita de “Deuses Caídos” é bastante fluída e enxuta. Sem espaços para tomar fôlego, a leitura é bastante ágil e divertida. A história vem em uma crescente, preparando o terreno para o embate final entre o assassino e nosso anti-heróis muito bem elaborado. E em uma obra tão sombria e violenta prepare-se para um desfecho bastante amargo e controverso digno de “Seven”.
Pelo alto grau de violência que “Deuses Caídos” apresenta, não é uma leitura para quem é fraco do estômago ou impressionável demais. O livro é visceral e grotesco, repleto de drogas, álcool, sexo, automutilação, suicídio e o corpo humano sendo submetido à atrocidades impressionantes. Agora, se você gosta de Clive Barker e filmes gore como “O Albergue”, a obra escrita por Gabriel Tennyson é uma escolha certeira.
“Deuses Caídos” é um dos livros que comprei já faz um tempo e que foi ficando para trás na minha extensa e interminável lista de leitura. Mas posso dizer que me arrependi em procrastinar tanto para lê-lo.
Vale a pena ler “Deuses Caídos”!
![]() | Ficha Técnica: Título no Brasil: Deuses Caídos Autor: Gabriel Tennyson Capa: Comum Número de páginas: 288 Editora: Suma Idioma: Português |
