
SINOPSE: Destacamento Blood acompanha um grupo de quatro veterinários afro-americanos que retornam ao Vietnã buscando os restos mortais do líder de seu antigo esquadrão e de um tesouro enterrado, tentando encontrar suas inocentes perdidas pelo caminho.
Spike Lee é diretor, produtor, roteirista, ator e documentarista; cujos trabalhos são elogiados e reverenciados por colegas, crítica especializada e espectadores que tem o prazer de consumir suas obras. E mesmo nunca tendo ganhado um Oscar (Oscar Honorário é que nem beijar a própria irmã, não tem graça nenhuma) ou outro prêmio de expressão, ele pode ser considerado um dos grandes nomes da história do cinema mundial.
Uma das principais características das obras de Spike Lee é sua abordagem a respeito das relações raciais e o preconceito em relação a comunidade negra, variando na força das suas críticas, podendo ser algo mais leve e divertido como o que vemos em “Infiltrado na Klan” ou contundentes como o mostrado em “Destacamento Blood”.
O plot principal do filme é a relação entre os negros e a Guerra do Vietnã, e para contar essa história Spike Lee nos apresenta Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis) e Melvin (Isiah Whitlock Jr.), remanescentes do esquadrão Blood , que retornam ao Vietnã nos dias atuais com a missão de resgatar o corpo de seu líder Norman “Stormin” (Chadwick Boseman ) e encontrar uma verdadeira fortuna em ouro que eles esconderam. Como pano de fundo, “Destacamento Blood” fala de como os negros sempre estiveram envolvidos em todos os grandes conflitos, caseiros e estrangeiros, que os EUA usaram como bandeira valores e direitos dos quais os afro-estadunidenses não podiam usufruir.
“Lutamos uma guerra imoral que não era nossa, por direitos que nós não tínhamos.”
Spike Lee utiliza a Guerra do Vietnã em específico para apresentar vários dados contundentes a respeito dessa disparidade de tratamento entre as etnias dos EUA, como o fato dos negros serem 32% dos 2,3 milhões de soldados que serviram no Vietnã de 1961 a 1974. Mas apesar desse conflito ser o pano de fundo principal, o cineasta lhe bombardeia com outras informações que envolvem assassinatos de estudantes, a morte de Martin Luther King, e até George Washington (em uma das falas dos protagonistas é dito que não mencionasse esse nome pois o herói da independência estadunidense tinha 133 escravos). Essas informações são jogadas de forma bastante crua, sem maquiagem. De todos os filmes de Spike Lee que possuem histórias ficcionais, acredito que esse seja o mais pesado em relação às questões raciais.
Mas as críticas em “Destacamento Blood” não se limitam somente a essa relação EUA / afro-americanos na Guerra do Vietnã, como também fala de uma herança maldita deixada pelo conflito: os campos minados e alto número de pessoas amputadas e mortas por esse artefato no país. E para frisar essa questão, Spike Lee decreta o destino de um dos protagonistas ao pisar em uma mina.
O que chama também bastante a atenção em “Destacamento Blood” são as locações. A maioria das gravações ocorreram na cidade de Ho Chi Minh (Vietnã), Bangcoc e Chiang Mai (ambas na Tailândia). Com isso o filme ganha em realismo nas cenas sejam nos dias atuais, seja na época do conflito. É engraçado vermos um McDonald’s na cidade mais populosa do Vietnã, mostrando que apesar da guerra ter tido ares ideológicos (capitalismo vs. Socialismo), o centro econômico do país se rendeu ao consumismo.
“Não precisavam de nós. Era só mandar o McDonald’s, a Pizza Hut e o KFC, e venceríamos os vietcongues em uma semana.”
Gostei também de dois recursos técnicos utilizados por Spike Lee para contar a história em “Destacamento Blood”. O primeiro recurso é a mudança no formato de exibição: quando a história se passa nos dias atuais vemos a tela cheia com imagens em alta definição, quando é para narrar algum evento ocorrido durante a Guerra do Vietnã a tela ganha um formato 4:3 e imagens granulosas, como se fosse uma gravação da época. E o segundo recurso é na verdade a decisão do cineasta em utilizar o elenco principal (a maioria tinha 60 anos) para interpretar suas versões de 20 anos de idade sem o uso de tecnologia ou maquiagem de envelhecimento.
Mas “Destacamento Blood” é um filme que em algum momento do meio para o fim acabou perdendo minha empolgação, meu interesse em assisti-lo. Não sei dizer ao certo, mas acredito que um dos fatores seja a questão do trauma vivido por Paul (Delroy Lindo), que tem origem em um segredo que ele guarda desde a época do conflito. A forma com esse fato é mostrado não me convenceu muito (já vi atuações e abordagens melhores a respeito desse assunto).
Acho “Infiltrados na Klan” o melhor filme de Spike Lee que já assisti por conseguir trazer questões raciais para o cinema em um ritmo narrativo mais dinâmico. “Destacamento Blood” tem um narrativa bem morna, mas é contundente ao abordar essas mesma questões étnicas de forma bastante crua e sem filtros, sendo esse , o seu principal atrativo na minha opinião.
Vale a pena assistir “Destacamento Blood”? Sim, vale a pena.
Ficha Técnica:
Título Original: Da 5 Bloods
Título no Brasil: Destacamento Blood
Gênero: Drama de Guerra
Duração:155 minutos
Direção: Spike Lee
Produção: Jon Kilik, Spike Lee, Beatriz Levin, Lloyd Levin
Roteiro: Danny Bilson, Paul De Meo, Spike Lee, Kevin Willmott
Elenco: Delroy Lindo, Jonathan Majors, Clarke Peters, Norm Lewis, Isiah Whitlock Jr., Chadwick Boseman, Johnny Trí Nguyễn, Mélanie Thierry, Paul Walter Hauser, Jasper Pääkkönen, Jean Reno, Veronica Ngo, Lê Y Lan, Nguyễn Ngọc Lâm, Sandy Hương Phạm
Companhia(s) produtora(s): 40 Acres and a Mule Filmworks, Rahway Road, Lloyd Levin/Beatriz Levin Production
Distribuição: Netflix
