SINOPSE: Nova Inglaterra, 1630. O casal William e Katherine leva uma vida cristã com seus cinco filhos em uma comunidade extremamente religiosa, até serem expulsos do local por sua fé diferente daquela permitida pelas autoridades. A família passa a morar num local isolado, à beira do bosque, onde se esconde um mal desconhecido. Um dia, o bebê recém-nascido desaparece. Teria sido devorado por um lobo? Sequestrado por uma bruxa? Enquanto buscam respostas à pergunta, coisas estranhas começam a acontecer aos membros da família, colocando à prova a fé, a lealdade e o amor entre eles.

Esse é um filme bastante difícil de classificar, tanto quando estreou em 2015, quanto atualmente. “A Bruxa” trouxe uma proposta de terror bastante distinta do que tinha sido lançado antes, durante e após sua estreia. Lembro que assisti ao trailer na época e achei que veria um longa-metragem com uma clássica narrativa de bruxas. Porém, o que assisti foi algo bastante diferente e satisfatório.

Muitos vão dizer que “A Bruxa“, mesmo nos dias de hoje, com tantas histórias que fogem do convencionalismo sendo lançadas, não é um filme de terror. Mas garanto que o primeiro filme do diretor e roteirista Robert Eggers é um excelente representante do gênero.

“A Bruxa” poderia facilmente se passar por um ótimo drama histórico: na Nova Inglaterra da década de 1630, o colono inglês William (Ralph Ineson) e sua família: sua esposa Katherine (Kate Dickie), sua filha adolescente Thomasin (Anya Taylor-Joy), seu filho pré-adolescente Caleb (Harvey Scrimshaw), os gêmeos fraternos Mercy (Ellie Grainger) e Jonas (Lucas Dawson) e o recém-nascido Samuel (Axtun Henry Dube e Athan Conrad Dube); são banidos de um assentamento puritano por divergências religiosas; construindo uma fazenda perto de uma grande floresta isolada. Com o desaparecimento do bebê, a unidade familiar começa a ruir pela inabilidade deles em realizar tarefas básicas de uma fazenda como plantar e criar animais; em viver em um local ermo e selvagem; e principalmente ao extremismo religioso de William.

William não sabe para plantar, criar ou caçar animais; parecendo habilidoso somente em cortar lenha, de acordo com a imensa pilha de madeira mostrada no filme. Sua inabilidade em viver em uma fazenda e tirar o sustendo dela é bastante criticada por sua família, seja em forma de olhares julgadores ou em comentários mais mordazes. Katherine é submissa ao marido; mas à medida que a situação em viver fora assentamento se complica, começa a deixar claro seu descontentamento. Caleb está entrando na adolescência e passando pelas transformações e desejos naturais dessa transição. E Thomasin é a mais insatisfeita com toda a situação, por querer ter uma vida sem tantas agruras e controle familiar e religioso.

Até mesmo a ideia de uma bruxa na floresta que está atormentando a família e testando os limites da fé deles, faz parte de um contexto histórico da época, pois a perspectiva de cristãos da América Colonial era que os bosques e florestas ao redor de suas propriedades era o território natural de Satanás, onde seus adoradores praticavam rituais profanos.

Mas é aí que “A Bruxa” se torna um filme de terror, pois as impressões de William e sua família vão se mostrar verdadeiras: existe uma bruxa na floresta que faz divisa com a fazenda deles. O desaparecimento de Samuel e tudo o que acontece de ruim com eles depois se mostra resultado dos poderes e influência dela.

Como disse, o material promocional de “A Bruxa” levou muitas pessoas como eu, a achar que o filme era algo diferente, mais convencional. Até mesmo a cena após o rapto de Samuel leva a nos fazer pensar dessa forma: a bruxa esmaga o corpo do bebê em um pilão e usa os restos mortais dele para seu ritual, que achei que era para rejuvenescê-la, mas descobri que era para a transvecção: a capacidade de voar ou levitar atribuída às bruxas.

“A Bruxa” utiliza símbolos tradicionais e iconografias do Folk Horror, mas rejeita as técnicas mais comuns e comerciais do gênero, como jump scares. Rober Eggers não inventou o estilo apresentado (“O Bebê de Rosemary”, faz algo parecido), mas a forma como o filme nos apresenta a história foi uma novidade e ainda se destaca dos demais longas-metragens de terror.

A primeira coisa que Robert Eggers subverte é apresentar a ameaça logo nos minutos iniciais. Ao contrário de outros filmes de terror, sabemos que existe uma bruxa e que ela é a causa do sofrimento e deterioração da família da fazenda. Além disso, “A Bruxa” é contada de forma lenta, cozinhando devagar os personagens e quem assiste em opressão e sofrimento.

Geralmente, o filme de terror tem como objetivo assustar, como é o caso de “Invocação do Mal”; ou criar desconforto em quem assiste, como pode ser sentido em “O Exorcista” e “A Bruxa”.

E a forma como “A Bruxa” me deixa desconfortável é explorando o total isolamento da família e o aumento gradativo do medo e estresse advindos da impotência dos personagens e suas crenças religiosas que não os protegem da influência da bruxa em seu dia a dia.

E a culpa de tudo que acontece é de William. É sua visão religiosa que causa a sua expulsão e de sua família, os forçando a morar na floresta onde a bruxa vivia. Os destinos fatais de Samuel, Caleb, os gêmeos e Katherine são resultados das decisões e de seu extremismo religioso de William ao longo do filme. Para mim, o maior exemplo disso é quando Mercy e Jonas não conseguem recitar o Pai Nosso e são trancadas no estábulo das cabras com Thomasin por Wiliam, que acredita que estão vinculadas à bruxaria, resultando na morte das duas crianças.

Vendo e revendo “A Bruxa”, sempre me deparo com duas situações, sendo a primeira a que acabei de mencionar. A outra situação que percebo, e que pode ser só coisa minha, é que a bruxa cria situações justamente para provar que as crenças religiosas de William não são defesas contra as forças sobrenaturais que atacam sua família e ele.

Em “Salem’s Lot”, Stephen King escreve que um homem que perdeu e fé não está protegido do mal; mas ao contrário do padre Callaham que perdeu a sua; William acredita que suas crenças religiosas lhe dão forças e o protegem, mas na verdade não o blindam da bruxa, pois de certa forma, são vazias.

Como disse, “A Bruxa” subverte a fórmula de esconder a ameaça sobrenatural, a escancarando logo no começo do filme. Mas ele também revela, se você pegar as dicas ao longo do filme, que o Mal está presente o tempo todo na fazenda e qual o objetivo final da bruxa.

Todo esse sufocamento que “A Bruxa” vai criando e aumentando gradativamente com o isolamento e a forma sufocante como a família vive na fazenda, some no final, quando Thomasin conversa com Black Phillip, criando uma situação irônica e interessante.

Como disse, é difícil classificar “A Bruxa”, com muitos dizendo que ele não é um filme de terror. Porém, o terror do primeiro longa-metragem de Robert Eggers não é escancarado e convencional; ele é trabalhado de forma lenta, com a bruxa aumentando seus ataques à medida que a família da fazenda vai ficando mais e mais vulnerável. Não à toa, “A Bruxa” com seu jeito diferente popularizou o chamado Pós-Terror.

Apesar da discussão entre os fãs de terror, “A Bruxa” pode ser considerado um sucesso comercial ao fazer US$ 40,9 milhões nas bilheterias mundiais para um orçamento de produção de US$ 4 milhões; e um sucesso de crítica com 91% de aprovação no Rotten Tomatoes e nota 7,1/10 no IMDb.

“A Bruxa” abriu as portas para o consumo para o que viria a ser chamado de Pós-Terror; reacendeu o interesse pelo Terror Folclórico; e posso ir um pouco mais: é graças ao filme de estreia de Robert Eggers que longas-metragens com abordagens diferentes para o terror, como o queridinho “Hereditário” e até mesmo “A Hora do Mal” são vistos e aplaudidos hoje em dia.

Considero “A Bruxa” uma obra-prima do terror moderno por ousar e acertar com sua crueza, rigor histórico e atmosfera sufocante. E é por isso que vale muito a pena assistir “A Bruxa”!

Curiosidades

  • O filme foi inspirado em muitos contos populares e escrituras de relatos históricos de bruxaria, incluindo jornais, diários e registros judiciais. Inclusive a maior parte dos diálogos foram baseados nessas escrituras da época.
  • A grafia do título “The VVitch” é como a palavra foi escrita no período da história, porque a letra “W” ainda não era de uso comum na época.
  • Uma lebre aparece diversas vezes em cena. Na Nova Inglaterra colonial, as lebres eram consideradas criaturas mágicas por natureza e eram frequentemente associadas à bruxas, roubando ou estragando o leite dos animais de fazendas, ou a própria bruxa, que acreditavam ser capaz de se transformar em lebre para espionar e influenciar pessoas.
  • Black Phillip, o bode negro que aparece no filme é para representar a forma comumente conhecida relacionada ao diabo.
  • O encontro mágico entre bruxas é chamado ‘Akelarre’ (sabá), que em basco significa “prado do bode”. O termo “Akelarre” foi difundido popularmente com a “queima das bruxas de Zugarramurdi” durante a Inquisição Espanhola em 1610.
  • A razão para Samuel ter sido levado pela bruxa, é porque se acreditava que a gordura de um bebê não batizado (geralmente do sexo masculino) é um ingrediente da loção voadora da bruxa, juntamente com ervas venenosas e alucinógenas, como beladona, cicuta, erva-moura e acônito (veneno de lobo). Supostamente, uma bruxa esfregaria essa loção voadora em si e em sua vassoura para voar.
  • Acreditava-se que as bruxas tinham um ‘bico de bruxa’, um mamilo ou mancha especial com a qual amamentavam seus familiares e lhes davam sangue. Isso é referido quando Katherine amamenta o corvo.
  • Na cena do Covil das Bruxas, o canto é em Enochiano, com as bruxas recitando a Décima Primeira Chave Enoquiana, usada para anunciar a vinda dos mortos e estabelecer um sustento além da sepultura. 
  • Durante as caçadas às bruxas na América colonial, acreditava-se que uma bruxa não conseguia dizer toda a Oração do Senhor. É por isso que a família fica tão irritada quando Mercy e Jonas não conseguem terminar a oração.
  • Robert Eggers queria filmar em locações na Nova Inglaterra, mas optou pelo Canadá devido aos incentivos fiscais. O diretor procurou locais “fora do mapa” e encontrou nas proximidades de uma pequena cidade madeireira chamada Kiosk, o local adequado por ser extremamente remoto.
  • Eggers queria que o filme fosse o mais historicamente preciso possível. Dessa forma, uma casa de fazenda autêntica, baseada em transcrições arquitetônicas descobertas na biblioteca da Plimoth Plantation, foi recriada pelo designer de produção Craig Lathrop. 
  • A figurinista Linda Muir analisou vestuários de época e reuniu-se com Stuart Peachey, especialista em artigos de vestuários ingleses das pessoas comuns. A partir desses modelos, ela criou figurinos de lã e linho, todos feitos à mão, dentro do compromisso meticuloso de Eggers com a autenticidade do período em todos os níveis do processo de filmagem.
  • Para dar ao filme um aspecto autêntico, Eggers filmou apenas com luz natural e em ambientes internos, a única iluminação eram velas. 
  • Robert Eggers disse que “tudo que aparece na câmera é feito dos materiais de construção corretos e autênticos que uma família puritana teria usado nos anos 1630, como tábuas de carvalho cortado a mão e telhados cobertos por palha de junco… Técnicas e ferramentas autênticas foram usadas sempre que necessário para tornar o mundo da história mais plausível e autêntico”.
  • Por estar inserido em mundo natural, Eggers exigiu que o som da árvores, dos riachos e do vento estivesse sempre presente e em alto volume. A trilha sonora ficou a cargo de Mark Korven, que tinha um amplo conhecimento de história da música, inclusive sons do período e transformou acompanhamentos musicais de salmos do século XVII cantados por verdadeiros puritanos em música atonal dissonante e, por vezes, histérica para realçar enormemente as cenas mais terrificantes do filme.
  • Robert Eggers queria fazer de “A Bruxa”  um pesadelo do passado, tendo como inspiração alguns contos obscuros e violentos da época, com ênfase sobre o conflito do bem contra o mal. Esta história é construída sobre a premissa de que as bruxas são reais e os personagens puritanos são levados a acreditar que só através da oração constante e serviço incansável ao Senhor que eles terão alguma chance de proteção contra Lúcifer.
  • Apesar de ser aclamado, “A Bruxa” é o filme menos querido de Robert Eggers. Ele afirmou que não suporta revê-lo, pois acredita que sua inexperiência à época comprometeu a execução de suas ideias. “Eu não era habilidoso o suficiente para transformar o que estava na minha cabeça em algo mais impactante na tela”.
  • Anya Taylor-Joy recusou um papel na Disney para fazer a protagonista em “A Bruxa”. Porém, a atriz revelou ter cogitado desistir de sua carreira após assistir pela primeira vez ao filme: “O Rob nos mostrou o filme umas duas horas antes da sessão para o público e foi devastador”, disse a atriz. “Eu achei que não ia voltar a trabalhar, ainda tremo só de pensar. Foi o pior sentimento de ‘decepcionei as pessoas que mais amo no mundo, fiz tudo errado’. Sou muito verborrágica, gosto de falar e de me expressar. Eu não falei nada, apenas chorei. Não dei conta de ver o meu rosto tão enorme”.

Ficha Técnica:

Título Original: The Witch

Título no Brasil: A Bruxa

Gênero: Terror Folclórico

Duração: 92 minutos

Diretor: Robert Eggers

Produção: Jay Van Hoy, Lars Knudsen, Jodi Redmond, Daniel Bekerman, Rodrigo Teixeira

Roteiro: Robert Eggers

Elenco: Anya Taylor-Joy, Ralph Ineson, Kate Dickie, Harvey Scrimshaw, Ellie Grainger, Lucas Dawson, Julian Richings, Bathsheba Garnett, Sarah Stephens, Wahab Chaudhry, Charlie

Companhias Produtoras: Parts and Labor, RT Features, Rooks Nest Entertainment, Maiden Voyage Pictures, Mott Street Pictures, Code Red Productions, Scythia Films, Pulse Films, Special Projects

Distribuição: A24, Universal Pictures

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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