SINOPSE: Antártica, inverno de 1982. Uma equipe de pesquisa liderada por R.J. MacReady (Kurt Russell) enfrenta uma ameaça alienígena que pode assumir a forma de qualquer ser vivo que escolher se hospedar. Com a criatura à solta na base de pesquisa, a tensão aumenta. Sabendo que qualquer um pode ser “a coisa”, a desconfiança e pânico tomam conta do lugar.

“Alien: O Oitavo Passageiro” não é o primeiro filme a misturar terror e ficção científica, mas é considerado o marco que consolidou essa união de gêneros nos cinemas. O filme dirigido por Ridley Scott provou que o horror espacial podia ter alta qualidade técnica e atrair grandes bilheterias, saindo do estilo “filme B”; o que impulsionou o interesse dos grandes estúdios por produções que misturavam terror e ficção científica com grandes orçamentos.

Vendo o sucesso comercial e de crítica de “Alien: O Oitavo Passageiro”, a Universal Pictures desengavetou o projeto de refilmagem de “The Thing from Another World”, de 1951, filme baseado na novela de John W. Campbell, ” Who Goes There”, escrita em 1938. Para a direção, vários nomes foram cogitados para a direção do filme, até que John Carpenter, que já tinha recusado o convite, aceitou dirigir o longa-metragem após ler “Who Goes There”.

E dessa forma, em 1982, chegava aos cinemas, “O Enigma de Outro Mundo”, um dos melhores filmes de ficção científica e terror já feitos, título esse que só viria anos depois de seu lançamento.

Por ser muito fã de “O Enigma de Outro Mundo”, li o romance de John W. Campbell, lançado aqui no Brasil pela editora Diário Macabro com o mesmo título do filme; e devo elogiar o que foi feito no longa-metragem, pois essa adaptação cinematográfica é muito melhor que o livro.

“O Enigma de Outro Mundo” possui um ritmo lento, principalmente no começo, visando construir de forma sólida o mistério e a confusão dos integrantes da estação de pesquisa estadunidense. Cada nova revelação responde à uma pergunta, mas levanta um novo questionamento.

O que eles encontram na base norueguesa destruída, leva os pesquisadores estadunidenses à uma região remota da Antártida; onde descobrem evidências de que o que foi encontrado enterrado no gelo há mais de 100 mil anos pode ser a causa do êxodo dos colegas nórdicos.

Para quem já assistiu o filme como eu, pode não sentir mais tanto esse sentimento de mistério, porém a construção dessa atmosfera ainda surpreende.

“Alien: O Oitavo Passageiro” insere o sentimento de apreensão de saber onde o xenomorfo está. “O Enigma de Outro Mundo” também faz isso, mas com um agravante, pois a criatura aqui, pode estar escondido bem diante dos seus olhos.

Esse é o grande plot de “O Enigma de Outro Mundo”, pois o que se soltou do gelo antártico, é um alienígena que possui um nível de cópia perfeito, replicando as células, a anatomia, as memórias, a personalidade e até os trejeitos de qualquer ser vivo. Como uma imitação perfeita, as pessoas não sabem quem é humano e quem não é, causando uma total desconfiança e paranoia entre os integrantes da estação de pesquisa estadunidense.

Hoje esse plot pode não ser tão impactante, devido à vários títulos com a mesma narrativa. Porém, “O Enigma de Outro Mundo” inspirou vários outros filmes, dentro e fora do gênero de ficção-científica de terror, como “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino; e influenciou outras mídias, como é o caso de “Directive 8020”, jogo eletrônico desenvolvido pela Supermassive Games.

No meu caso, fico impressionado como ainda sinto os sentimentos de desconfiança e paranóia que os integrantes da estação de pesquisa sentem uns pelos outros.

Outro fator que faz “O Enigma de Outro Mundo” tão influente até os dias de hoje são suas referências ao horror cósmico, ao trazer uma criatura disforme e indefinível como as forças indescritíveis e de outro mundo. Além disso, por mais que os integrantes da estação de pesquisa enfrentem o alienígena, evidencia que não somos os protagonistas do universo, e que buscar determinados conhecimentos, pode ser a ruína da humanidade.

Essa influência do horror cósmico de Lovecraft se dá por John Carpenters ser fã do escritor, e dessa forma, embora “O Enigma de Outro Mundo” seja baseado no livro de John W. Campbell, o filme possui atmosfera lovecraftiana de isolamento, paranoia e uma criatura alienígena disforme que desafia a compreensão humana.

“O Enigma de Outro Mundo” não mostra a forma original do alienígena. Aliás a própria criatura não deve mais se lembrar da sua aparência verdadeira devido a sua fisiologia de replicação. O que vemos muitas vezes, como tentáculos, pernas de aranha e dentes afiado é uma herança as formas de vida que absorveu ao longo de sua existência.

Essa falta de uma forma verdadeira torna o alienígena de “O Enigma de Outro Mundo” até mais perigoso que o xenomorfo de certa forma, pois ele está disposto a sacrificar suas origens para sobreviver. Ou seja, temos uma criatura vinda do espaço que persegue seu objetivo de forma impiedosa.

E dessa forma, faz sentido o título original: “The Thing”, “A Coisa” em português.

Mas a grande sacada em relação a Coisa e que para mim é bastante original, é que para sobreviver, ela realiza uma ação defensiva, replicando suas vítimas para se esconder. A criatura só parte para um ataque verdadeiro quando é descoberta e vê sua vida em perigo, ou uma parte dela, já que cada célula do alienígena, viva ou morta, é um patógeno em potencial, sendo o fogo ou altas temperaturas, as únicas formas efetivas de erradicá-lo

Aqui fica uma crítica em relação a Coisa, pois em determinadas situações ela revela sua verdadeira identidade, quando ficar escondida era a melhor alternativa. Mas entendo que esses casos foram uma forma de manter o ritmo narrativo.

A trilha sonora e os efeitos especiais fornecem o suporte perfeito para o roteiro de “O Enigma de Outro Mundo”.

Ennio Morricone, compôs a trilha sonora do filme, utilizando uma combinação de orquestra tradicional baseada em cordas e sintetizadores eletrônicos, reforçando o clima pesado, claustrofóbico e misterioso que o roteiro possuía. O som minimalista e com poucas notas produzido por Morriconi reflete o isolamento da Antártida e a paranóia existente entre os personagens.

Os efeitos especiais foram concebidos e dirigidos por Rob Bottin, que tinha apenas 22 anos quando aceitou o convite de John Carpenter. Bottin utilizou técnicas totalmente práticas e artesanais em vez de computação gráfica. Para criar as texturas das mutações alienígenas, foram usadas misturas ingredientes simples do dia a dia, como maionese, chiclete, óleo quente, gelatina e calda de milho.

A utilização de animatrônicos, próteses de látex e bonecos mecânicos permitiu reações mais naturais dos atores quando encontravam a Coisa. Além disso, por serem objetos físicos, eles interagiam perfeitamente com outros elementos do set, como a luz que projetava sombras autênticas.

A ideia de o alienígena estar em constante mudança e ser capaz de se parecer com qualquer coisa é de Bottin; que foi aceito por Carpenter, que queria uma única forma para a criatura.

“O Enigma do Outro Mundo” trilhou o mesmo caminho de “Blade Runner”, de Ridley Scott: um fracasso comercial e de crítica na época do lançamento, só se tornando relevante e aclamado anos depois.

“O Enigma de Outro Mundo” fez apenas US$ 20,9 milhões nas bilheterias mundiais para um orçamento de produção de US$ 15 milhões. Alguns motivos explicam essa baixa arrecadação: a forte concorrência de “E.T.: O Extraterrestre”, sucesso de público e crítica e que oferecia uma visão mais otimista sobre a visitação alienígena, o total oposto do filme de Carpenters. Outro fator para a baixa bilheteria foi a classificação R que o longa-metragem recebeu, restringindo o público a maiores de17 anos.

Mas foi a crítica negativa e mordaz que fizeram o público refugar “O Enigma de Outro Mundo”. Direção, roteiro, elenco e atuação, efeitos especiais: tudo foi muito criticado na época. Uma declaração de John Carpenter dada em 2008 ilustra perfeitamente isso:

“Levo cada fracasso muito a sério. O que mais me afetou foi o de “O Enigma de Outro Mundo”. Minha carreira teria sido diferente se tivesse sido um grande sucesso… O filme foi odiado na época do lançamento. Até mesmo pelos fãs de ficção científica. Eles acharam que eu havia traído algum tipo de confiança, e a reação negativa foi insana. Até o diretor do filme original, Christian Nyby, me criticou.”

Com o lançamento do filme nas mídias domésticas, a recepção do público mudou à respeito de “O Enigma de Outro Mundo”: de um filme B caro e sem apelo para um dos expoentes da ficção-científica e terror.

Em 1992, Peter Nicholls, disse que “O Enigma de Outro Mundo “é um filme sombrio e memorável, que ainda seria visto como um clássico”. Essa crítica seria profética, pois com o passar dos anos após seu lançamento, “O Enigma de Outro Mundo” passou a ser considerado um marco da ficção-científica e terror, tendo hoje 85% de aprovação no Rotten Tomatoes e nota 8,2/10 no IMDb; além de estar na lista de melhores filmes de todos os tempos. E em 2025, a Biblioteca do Congresso Estadunidense o selecionou para preservação no Registro Nacional de Filmes.

O livro “1001 Filmes Que Você Deve Ver Antes de Morrer”, diz que “O Enigma de Outro Mundo” é “um dos filmes de terror mais influentes da década de 1980, muito imitado, mas raramente superado, sendo um dos primeiros a mostrar sem hesitar a ruptura e a deformação da carne e do osso em quadros grotescos de beleza surreal, elevando para sempre o nível do terror cinematográfico”.

Vários cineastas admiram ou citaram a influência de “O Enigma de Outro Mundo” em seus próprios trabalhos, como Guillermo del Toro, J.J. Abrams, Neill Blomkamp e Quentin Tarantino.

Considerado o melhor filme de John Carpenter, “O Enigma de Outro Mundo” foi de lixo cinematográfico; para um marco da Sétima Arte e que influenciaram e influenciam até hoje histórias nas mais diversas mídias do gênero de ficção-científica com terror.

Então, diante de tudo que foi escrito aqui, vale muito a pena assistir”O Enigma de Outro Mundo”!

Curiosidades

  • “O Enigma de Outro Mundo” quase não teve John Carpenter como diretor. A Universal Pictures que detinha os direitos de refilmagem do filme de 1951, tinha Tobe Hooper, de “O Massacre da Serra Elétrica”, sob contrato. Mas o estúdio ficou descontente com o rascunho apresentado por Hooper, e foram atrás de Carpenter novamente.
  • O roteiro sofreu o mesmo problema, com várias pessoas sendo abordadas pela Universal Pictures, mas nenhum chegando a uma ideia aceitável. Entre os nomes, chama a atenção Richard Matheson, famoso autor de ficção científica e horror, que escreveu “Eu sou a Lenda” e “Hell House”, que também teve sua ideia recusada pelo estúdio. Por fim, o escolhido para o roteiro foi Bill Lancaster.
  • Para o papel de RJ MacReady, vários nomes foram considerados: Christopher Walken, Jeff Bridges e Nick Nolte, entre outros. No final, Kurt Russel, tanto por estar envolvido na produção do filme como por já ter trabalhado com John Carpenter.
  • As locações consistiram em Juneau, no Alasca, onde foram filmadas as cenas externas com neve e a sequência inicial de perseguição ao cachorro; Kimberley e Stewart, no Canadá, onde foram construídos os cenários externos da estação de pesquisa antártica; e em Los Angeles, onde os estúdios foram refrigerados a temperaturas negativas.
  • Nas filmagens no Alasca, a temperatura era tão baixa que as lentes das câmeras congelavam e quebravam. Dessa forma, a equipe teve que deixar as câmeras em temperaturas congelantes, pois mantê-las no calor, resultava em lentes embaçadas que levavam horas para desembaçar.
  • Ennio Morricone compôs a trilha sonora do filme. Porém, os espectadores e críticos não gostaram, e ele chegou a ser indicado ao Framboesa de Ouro naquele ano. A parte mais curiosa é que Morricone usou músicas que não foram usadas em “O Enigma de Outro Mundro” em “Os Oito Odiados”, filme pelo qual recebeu mais um Oscar de Melhor Trilha Sonora Original. 
  • Os efeitos especiais foram concebidos por Rob Bottin, que era extremamente meticuloso. Bottin trabalhou em “O Enigma de Outro Mundo” com tanto afinco, que chegou a trabalhar 22 horas por dia para manter tudo em ordem. Como era de se esperar, Bottin adoeceu e foi hospitalizado com exaustão severa, pneumonia dupla e uma úlcera hemorrágica. Ele também sofria com pesadelos com as criaturas que estava criando.
  • O monstro final de “O Enigma de Outro Mundo”, foi a criatura mais trabalhosa de todo o filme. Pesando cerca de 130 kg, foram necessários 50 técnicos para dar vida a combinação de animatrônica, controle remoto, cabos de aço e sistemas pneumáticos escondidos na estrutura.
  • John Carpenter instruiu o elenco a atuar sem saber quem estava ou não assimilado, refletindo a desconfiança real que os personagens sentiam uns dos outros. Além do mais, o diretor disse que o assimilado não seria diferente de sua versão humana, já que a Coisa copia tudo, inclusive a forma de agir.
  • O diretor de fotografia Dean Cundey sugeriu que os olhos dos humanos refletem um brilho de luz característico, enquanto os assimilados não teriam esse reflexo. No entanto, o próprio John Carpenter já desmentiu várias vezes essa e outras teorias, mantendo o mistérios de propósito.
  • Vários finais foram gravados, porém John Carpenter manteve a ambiguidade, de forma que nem Kurt Russell (MacReady) nem Keith David (Childs) sabiam qual deles era o alienígena, ou se ambos eram humanos, na famosa cena final em volta da fogueira.
  • Meio que informalmente, o filme faz parte de uma tradição para todas as equipes britânicas de pesquisa que vão para a Antértida. No dia 21 de junho, no solstício do inverno, quando novas equipes chegam, elas confraternizam juntas e assistem O Enigma de Outro Mundo.
     

Prequel e Sequências

  • Em 2011, foi lançado “A Coisa”, um prequel de “O Enigma de Outro Mundo”. Curiosamente ambos os filmes possuem o mesmo título em inglês: “The Thing”. Dirigido por Matthijs van Heijningen Jr. e escrito por Eric Heisserer, o longa-metragem não teve participação de John Carpenter na produção. “A Coisa” se passa poucos dias antes do clássico de 1982, mostrando o acampamento científico norueguês na Antártida que descobre a espaçonave e a criatura congelada no gelo. O desfecho do filme de 2011 se conecta diretamente com a cena inicial de “O Enigma de Outro Mundo”, explicando como o cachorro infectado escapa do acampamento norueguês destruído.
  • Em 1982, uma novelização de “O Enigma de Outro Mundo” foi publicada por Alan Dean Foster. Ela é baseada em um rascunho anterior do roteiro que foi gravado e apresenta algumas diferenças, como uma cena em que MacReady, Bennings e Childs perseguem cães infectados na neve está incluída, o desaparecimento de Nauls sendo explicado e o suicídio dele ao invés da assimilação pela Coisa-Blair.
  • A Dark Horse Comics lançou uma trilogia em quadrinhos e histórias adicionais que continuam os eventos do filme de 1982 dirigido por John Carpenter sendo: “The Thing from Another World” (1991), uma minissérie em 2 edições, mostrando o sobrevivente R.J. MacReady sendo resgatado e voltando para destruir os restos do posto avançado; “The Thing from Another World: Climate of Fear” (1992), uma minissérie em 4 edições, continuando a perseguição à criatura em uma base militar na América do Sul; “The Thing from Another World: Eternal Vows” (1993-1994), uma minissérie em 4 edições. mostrando a Coisa mudando sua forma de agir para poder sobreviver; e “The Thing from Another World: Questionable Research” (1993), uma história seriada em 4 partes, que mostra um final alternativo, onde MacReady morreu durante a tempestade de neve e uma expedição de cientista recolhe biomassa da Coisa, levando o material para um navio de pesquisa.
  • A Dark Horse Comics também lançou “The Thing: The Northman Nightmare” (2011), uma história única digital publicada como prelúdio para o filmede 2011, ambientada na Groenlândia no ano de 1121 d.C.
  • Em 2005, o canal Syfy planejou uma minissérie produzida por Frank Darabont e escrita por David Leslie Johnson-McGoldrick . A história acompanharia uma equipe russa que recupera os corpos de MacReady e Childs, bem como vestígios da Coisa. A trama avança 23 anos, mostrando a fuga da Coisa para o Novo México, e acompanha as tentativas de contenção. O projeto nunca foi adiante.
  • Durante uma palestra na Fan Expo Chicago em 14 de agosto de 2026,  John Carpenter insinuou que uma sequência de “O Enigma de Outro Mundo” finalmente, dizendo: “Estamos trabalhando nisso agora”. Mas, ao ser pressionado por mais detalhes, ele rapidamente moderou as expectativas, dizendo: “É, eu não sei. Veremos”. 

Ficha Técnica:

Título Original: The Thing

Título no Brasil: O Enigma de Outro Mundo

Gênero: Terror, Ficção-Científica

Duração: 109 minutos

Diretor: John Carpenter

Produção: David Foster, Lawrence Turman

Roteiro: Bill Lancaster

Elenco: Kurt Russell, A. Wilford Brimley, T. K. Carter, David Clennon, Keith David, Richard Dysart, Charles Hallahan, Peter Maloney, Richard Masur, Donald Moffat, Joel Polis, Thomas Waites, Norbert Weisser

Companhias Produtoras: Universal Pictures, The Turman-Foster Company

Distribuição: Universal Pictures

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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