SINOPSE: O mundo entra em pânico quando, durante uma transmissão ao vivo, uma meteorologista (Emily Blunt) é aparentemente dominada por uma força invisível e passa a emitir sons perturbadores diante das câmeras. Assim, segredos militares são expostos desencadeando uma crise global jamais vista antes e os estudiosos, cientistas, autoridades e civis precisam aprender a lidar com a ideia de uma sociedade que nunca esteve sozinha.

Pensei em começar falando sobre Steven Spielberg, mas percebi que precisaria de uma resenha para uma fazer uma introdução de respeito sobre o diretor com o maior número de filmes incluídos na prestigiada lista dos 100 Melhores Filmes Americanos, segundo o Instituto Americano do Cinema (“Tubarão”, “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, “Os Caçadores da Arca Perdida”, “E.T.: O Extraterrestre”, “A Cor Púrpura”, “A Lista de Schindler”, “O Resgate do Soldado Ryan”); com um rendimento bruto de todos seus longas-metragens de mais de US$ 8,5 bilhões; que instaurou com “Tubarão”, em 1975, o modelo que os grandes estúdios em investir em blockbusters em atrair multidões às salas de cinema durante o verão no Hemisfério Norte.

Ao invés disso, vou limitar a contribuição de Steven Spielberg no gênero cinematográfico de ficção cientifica voltada para a vida fora do planeta Terra. Seu fascínio de mais de 40 anos por alienígenas o levou a dirigir “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” (com roteiro também escrito por ele), “E.T.: O Extraterrestre” e “Guerra dos Mundos”, além de produzir “Super 8” (com direção de J.J. Abrams).

Quase 50 anos depois de “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”, filme que lhe rendeu sua primeira indicação para o Oscar de Melhor Diretor, Steven Spielberg chega aos cinemas com “Dia D”.

Minha memória cinéfila faz uma associação automática entre “Dia D” e “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, não somente por ambos serem de Steven Spielberg, como também pelo tema e como ele é explorado. Spielberg não pesa a mão tornando essa história em algo mais sombrio ou sério, apesar do início do filme, mantendo uma abordagem mais leve e descontraída; uma aventura que passaria facilmente na “Sessão da Tarde”, mas com um belo orçamento de produção.

À medida que assistimos “Dia D” percebemos a assinatura de Steven Spielberg, seja na sensação de aventura que o filme passa, seja no humor leve e divertido empregado. Quem já assistiu outros longas-metragens do diretor e roteirista com certeza vai entender essas sensações que estou tentando explicar.

Steven Spielberg é um dos maiores, se não for, o maior contador de história do cinema. É incrível a forma como ele nos envolve e nos conduz em “Dia D”, pois em nenhum momento sentimos cansaço ou percebemos uma queda no ritmo narrativo. Mesmo com uma grande falha no meu ponto de vista, que é algo que vou comentar em breve, perdemos o interesse; pelo contrário, seguimos empolgados durante toda a exibição do filme. Destaco esse ponto, pois poucos diretores têm essa qualidade e talento que Spielberg possui em manter a atenção e imersão do espectador em longas-metragens com tempo de duração maiores.

“Dia D” não possui um ritmo rápido, contando sua história no próprio tempo, tornando ainda mais interessante como o filme consegue prender a atenção do espectador durante seus 145 minutos de exibição. Temos sequências de ação como o início do filme e uma perseguição de carros, mas esses e outros recursos narrativos são bem dosados, sendo todos utilizados de forma equilibrada.

Steven Spielberg já confirmou que “Dia D” não é uma sequência de “Contato Imediatos de 3º Grau” ou “E.T: O Extraterrestre”, porém o diretor mantém a abordagem otimista da presença alienígena em nosso planeta. Esses seres não representam uma ameaça de invasão e destruição, mas são mostrados como pacíficos. Além disso, os três filmes compartilham de outros elementos: a ideia de que os alienígenas querem se comunicar conosco por meio de luzes, tons musicais ou matemática e o contato pessoal e íntimo, com pessoas sendo escolhidos pelos alienígenas ainda na infância e recebendo habilidades especiais.

O outro elemento narrativo que esses filmes compartilham, e que é vendido para os espectadores nos materiais promocionais, são as conspirações envolvidas em relação à presença alienígena na Terra, que dão o gosto de mistério, suspense e ação. Em “Contatos Imediatos do 3º Grau” são as autoridades governamentais que tentam encobrir a presença desses seres. Já em “Dia D”, é a Wardex Corporation, com a cooperação do Governo Estadunidense (não fica claro se outros estão envolvidos), que acoberta a existência de vida extraterrestre da população mundial, coletando e guardando todos os registros dessas visitas e encontros ao longo de mais de 70 anos.

Talvez seja nesse ponto que “Dia D” se distancia dos outros filmes de alienígenas de Steven Spielberg, pois apesar do envolvimento de um governo ou corporação poderosa conspirando, a Wardex Corporation vem com uma abordagem mais repressora e até mesmo violenta. Isso fica evidente na forma mais truculenta que os agentes da Wardex ou em vídeos mostrando extraterrestres sendo submetidos a sessões de interrogatório e tortura.

O material promocional já tinha me dado essa impressão, mas foi quando revelaram que se trata de uma grande corporação agindo juntamente com um governo da Terra para encobrir a presença de vida extraterreste na Terra, fiz a associação de  “Dia D” com “Arquivo X’. Na icônica série de televisão da década de 1990, temos o Sindicato, um grupo sombrio formado por pessoas ricas e influentes e alto escalão do governo dos Estados Unidos, que fazem um pacto de colaboração para que eles e suas famílias sobrevivam a invasão alienígena iminente.

Em “Dia D” não existe essa colaboração, até porque a abordagem para os alienígenas no filme é pacífica, mas ver a Wardex Corporation movimentando as cordas da conspiração me fez lembrar muito o Sindicato de “Arquivo X”.

E é justamente a antagonista de “Dia D”, encabeçada por Noah Scanlon (Colin Firth) que se mostra o ponto negativo dessa incrível história. O começo do filme mostra Boyd (Henry Lloyd-Hughes), chefe de segurança da Wardrex, e seus agentes, além do próprio Noah, encurralando Daniel Kellner (Josh O’Connor), que está sendo caçado por ter furtado informações e tecnologia alienígena. É uma sequência tensa, com armas sendo apontadas e Kellner ameaçando usar o artefato extraterrestre. Esse início me deixou com a impressão de que a Wardrex estava disposta à medidas extremas para manter seu esquema de encobrimento, tais como interrogatórios, tortura e assassinato, tanto de humanos quanto de alienígenas.

E Wardrex agir dessa forma faz sentindo, à medida que essa conspiração se torna o motor da própria destruição da moralidade, exigindo que ela comece a utilizar meios cada vez mais escusos para manter seu esquema. O que vemos é a manutenção do poder, através do controle e acobertamento de informações que podem mudar o contexto mundial. Uma vez que tais informações sejam reveladas, todo poder e influência da Wardrex acaba, algo que a corporação não pode permitir.

Porém, para manter o clima leve e aventuresco de “Dia D”, Steven Spielberg abre mão desse lado mais sombrio da corporação Warderx. Até tem uma sequência em que Noah Scanlon, utilizando um artefato alienígena, invade a mente de Jane Blankenship (Eve Hewson), ex-freira e namorada de Daniel, e a força a matá-lo; mas o que se vê na maior parte do tempo são agentes e o próprio Noah, despreparados e sem atitude diante de situações que colocam a conspiração em sério risco.

Para exemplificar o que falei, temos a sequência onde Margareth (Emily Blunt) invade uma instalação da Wardrex para resgatar Daniel, e utilizando seus poderes entra e sai sem dificuldades. Até entendo os guardas e seguranças externos serem manipulados pelos poderes de Margareth, agora Noah e sua equipe acabarem sendo vítimas dos poderes dela me pareceu uma forçada de barra. Afinal essas pessoas que estão no centro da conspiração, deveriam estar mais preparados. Essa e outras situações enfraquecem a imagem da Wardrex de corporação poderosa e sem escrúpulos, com pessoas que por força do roteiro, se mostram despreparadas e sem iniciativa para tomar decisões duras.

Com relação ao mistério que instiga quem está assistindo a “Dia D”, Steven Spielberg o conduz com maestria; e mesmo quando sabemos os planos da Wardrex e de Hugo (Colman Domingo), líder do grupo disposto a revelar toda a verdade sobre os extraterrestres, o final é uma ótima surpresa e de certa forma inesperado.

Com relação às atuações, todas são competentes, mas nenhuma se destacou para mim. Mas para ser justo, os filmes de Spielberg que são voltados mais para aventura, não trazem grandes intepretações do elenco. Aliás, a própria história não é nada muito criativo ou empolgante, sendo até mesmo batida hoje em dia. O que me empolgou é a forma como Steven Spielberg conseguiu me envolver e me entreter, mesmo nos momentos ruins do filme.

Dia D” traz uma narrativa batida e com pouca originalidade em relação ao tema explorado e apesar do grande orçamento de produção, é simples em todo seu aspecto. Mas é justamente essa simplicidade que torna o trabalho de Steven Spielberg merecedor de aplausos, pois demonstra que o diretor e roteirista consegue nos encantar tanto com tramas mais elaboradas quanto com as mais batidas. É o talento de Spielberg em contar história, com seu jeito único, que torna “Dia D” um grande filme.

Pelo talento de Steven Spielberg como contador de histórias, digo que vale a pena assistir “Dia D”!

Ficha Técnica:

Título Original: Disclosure Day

Título no Brasil: Dia D

Gênero: Ficção Científica, Suspense

Duração: 145 minutos

Diretor: Steven Spielberg

Produção: Kristie Macosko Krieger, Steven Spielberg

Roteiro: David Koepp, Steven Spielberg

Elenco: Emily Blunt, Josh O’Connor, Colin Firth, Colman Domingo, Wyatt Russell, Henry Lloyd-Hughes, Elizabeth Marvel, Hettienne Park, Tommy Martinez, Gabby Beans, Jeremy Shamos, Brandon Wilson, Priyanka Kedia, Elliot Villar as Diaz, Noah Robbins, Michael Gaston, Elizabeth Stanley,

Companhias Produtoras: Universal Pictures, Amblin Entertainment

Distribuição: Universal Pictures

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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