SINOPSE: Inspirado no curta viral homônimo criado por Kane Parsons, acompanhamos Clark (Chiwetel Ejiofor), um vendedor de móveis que descobre um portal para essa dimensão misteriosa e aparentemente infinita no porão de sua loja. Após seu desaparecimento misterioso, a Dra. Mary Kline (Renate Reinsve), sua terapeuta, resolve ir atrás dele, mas também acaba se perdendo pelo labirinto.

Creepypastas são lendas urbanas, contos ou imagens de terror criados e compartilhados na internet, geralmente narrados como se fossem relatos reais. Essas histórias tem sido cada vez mais exploradas pelo cinema, canais de TV e plataformas de streaming.

O maior exemplo de uma produção baseada em creepypastas, é “Slenderman: Pesadelo Sem Rosto” de 2018, baseado no personagem fictício sobrenatural criado pelo usuário Eric Knudsen (também conhecido como Victor Surge) no fórum de discussão “Something Awful” em 2009 e que é considerado o primeiro grande mito de terror da Web. O filme, porém, foi um fracasso de crítica e público, não agradando quem gosta de terror e muito menos os fãs do Homem Esguio de Terno Preto.

Esse mês chegou outra adaptação cinematográfica de uma das creepypastas mais famosas da internet. “Backrooms” produzido pela A24, é um filme baseado nos vídeos virais criados em 2022 por Kane Parsons, que na época tinha 16 anos.

Meu primeiro sentimento quando vi o anúncio sobre “Backrooms”, em 2023, foi descrença, por causa do que foi feito com “Slenderman”. Se Hollywood não conseguiu fazer um filme decente com uma história de certa forma mais clássica, como é o caso do Homem Esguio de Terno Preto; achei que não ia vir nada de bom de uma creepypasta com temática mais subjetiva.

A A24 ser a responsável por trazer essa creepypasta para os cinemas me deu alguma esperança, já que o estúdio tem experiência em fazer bons filmes com histórias terror menos comercias, como “A Bruxa”, “Hereditário”, “O Farol” e “Midsommar”.

A primeira decisão acertada da A24 foi contratar Kane Parsons para dirigir o filme, já que foi ele, com apenas 16 anos, que criou o vídeo sobre as Backrooms que tem mais de 80 milhões de visualizações no YouTube, popularizando e expandindo o mito da internet.

A contratação de Kane Parsons foi ousada, mas se existe algo que a A24 sabe fazer é escolher diretores não tão conhecidos, mas com grande potencial e talento, como são os casos de Robert Eggers e Ari Aster. Além disso, Kane Parsons tem a segurança de quem conhece a fundo a história sobre as Backrooms, produzindo dessa forma, uma adaptação cinematográfica que respeite o cânone da creepypasta.

A escalação Chiwetel Ejiofor (indicado ao Oscar de Melhor Ator por “12 Anos de Escravidão”) e Renate Reinsve (vencedora do prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cinema de Cannes por “A Pior Pessoa do Mundo”) para viver os protagonistas: Clark, o proprietário da loja de móveis e Dra. Mary Kline, terapeuta de Clark; mostrou a confiança da A24 no projeto. E essa confiança também vem pelo lado dos dois atores conhecidos e premiados, que aceitaram participar do filme (ou só precisavam do dinheiro do cachê para pagar as contas).

Por falar nos personagens principais, eles têm um desenvolvimento pessoal e dramático que dá uma profundidade a eles. Clark é uma pessoa ressentida por ter que abandonar a Arquitetura para vender móveis como forma de sustento. Esse sentimento o leva a bebedeira, a ser expulso de casa pela esposa e à falência de sua loja. A Dra. Mary Kline, é a terapeuta de Clark, que tenta ajudá-lo a superar esse e outros sentimentos negativos, ao mesmo tempo que precisa lidar com seu trauma de infância.

Esse desenvolvimento dos personagens serve também à trama de “Backrooms”, pois ao adentrarem esse Espaço Liminal infinito de salas e corredores monocromáticos, cada um sente coisas diferentes. Clark vê esse Não-Lugar como uma fuga, um recomeço para sua vida, enquanto Mary tem seus traumas potencializados.

O outro grande protagonista são as próprias Backrooms, e ele é tão importante para o filme, que a A24 construiu um cenário real com 2.700 metros quadrados, com as características descritas na creepypasta: corredores e cômodos com paredes amarelas e carpetes na mesma cor, luzes fluorescentes zumbindo. A construção desse labirinto tinha um objetivo claro: fazer com quem o elenco e a equipe técnica sentissem estranheza e desconforto, como se tivessem caído nesse Espaço Liminal.

E essa é a proposta de “Backrooms”: trazer um terror diferente, onde o local é em si o “monstro” da história. Quando digo “monstro” é porque essa dimensão é o vetor do desconforto, estranheza, medo e desespero dos personagens e em quem está assistindo. Os que gostam de um longa-metragem de terror com elementos mais clássicos, provavelmente vão desgostar de “Backrooms”. Mas é justamente quando o filme explora elementos mais consagrados do gênero, quando mostra Mary sendo perseguida por uma versão bizarra e incompleta de Clark, por exemplo, que achei que “Backrooms” ficou menos interessante.

O que me empolgou em “Backrooms” foi justamente a exploração dessa dimensão estranha e desconfortável, a sensação de que tem alguma coisa espreitando pelos corredores monocromáticos e as perguntas que foram surgindo na minha cabeça. Além disso, algo que me chamou atenção é o aparente fascínio que as Backrooms exercem nos personagens. Digo isso, porque não achei resposta lógica para ver Clark e até mesmo Mary se embrenhado no labirinto infinito de corredores e cômodos, a não ser por uma forte curiosidade, uma vontade irresistível de desbravar esse Não-Lugar.

O filme explica as Backrooms como um local que se alimenta das lembranças, traumas e percepções que temos da vida real; mas as absorve de forma incompleta, corrompida. Nas palavras de Clark, essas salas são lembranças corrompidas de lugares reais: “Sabe quando você se lembra de algo, mas cada vez que se lembra perde alguns detalhes?”. E para reforçar essa ideia, vemos uma sequência mostrando a sala de estar da casa onde Mary passou sua infância passando por vários estágios, até chegar à que existe nas Backrooms.

Essa teoria explica porque as Backrooms possuem milhões de quilômetros de extensão, pois uma vez que ele atrai pessoas para dentro, se alimenta das lembranças delas, criando novos locais corrompidos, aumentando sua área e abrindo novos acessos em nosso mundo, onde mais pessoas serão atraídas para as Backrooms, em um ciclo que se retroalimenta.

Outra teoria seria que as Backrooms parecem se abrir para pessoas com dificuldades ou traumatizadas. O acesso para esse Espaço Liminal aparece para Clark no momento de sua vida em que ele estava em um beco sem saída: casamento arruinado, expulso de casa e frustrado profissionalmente. Já Mary possui traumas severos originados em sua infância e acaba achando a entrada Backrooms na loja de móveis. Dessa forma, o tempo que Kane Parson utiliza para explorar e desenvolver os dramas pessoais dos dois personagens não é somente um aprofundamento deles, mas uma pista de porque eles acharam a porta para o Não-Lugar. Outro ponto que pode confirmar essa teoria é o fato de Bobby (Finn Bennett) e Kat (Lukita Maxwell), funcionários da loja de móveis de Clark não terem encontrado a porta para as Backrooms sozinhos.

O filme possui uma trilha sonora semelhante a existente nos vídeos que Kane Parson publicou no YouTube, que visa potencializar a estranheza das Backrooms. Mas para mim, acho que os sons e a melodia empregada me privaram da imersão completa na história. Acredito que se houvesse somente o zumbido das luzes fluorescentes, o longa-metragem criaria uma sensação ainda maior de desconforto.

Assim como no material publicado por Kane Parsons, “Backrooms” tem suas sequências Found Footage, que são os momentos de maior tensão do filme, pois nos fazem ver pelos olhos dos personagens esse Espaço Liminal. Mas a cena em que Clark, Bobby e Kat entram com uma câmera nas Backrooms e passam a ser perseguidos por uma criatura é realmente assustador, com o ápice sendo o nível da Árvore de Natal.

“Backrooms” termina com Mary sendo interrogada por Phil (Mark Duplass), um funcionário da Async, uma empresa que fabricava máquinas de ressonância magnética e que agora investiga as Backrooms. O final é ambíguo, deixando a questão se a personagem fugiu ou não desse Não-Lugar.

“Backrooms” arrecadou US$ 118 milhões mundialmente, sendo US$ 81 milhões nos EUA. Esses números fizeram o filme se tornar a maior estreia de um filme original de todos os tempos em bilheteria; entrar para o Top 15 de maiores aberturas de todos os tempos para um filme para maiores e se tornar a 4ª maior abertura da história para um filme de terror. Além disso, Kane Parsons se tornou o diretor mais jovem da história a dirigir um filme que ficou em 1º lugar em bilheteria, tanto nos EUA quanto mundialmente.

Apesar da bilheteria surpreendente, “Backrooms” tem dividido a crítica especializada e os espectadores, com alguns achando o filme chato, aborrecente e uma viagem sem sentido. Outros, e eu sou um deles, já acharam o filme instigante e original.

Mas independentemente das críticas e opiniões, cinema é um negócio, e negócios visam o lucro. E “Backrooms”, com um orçamento de US$ 10 milhões, se mostrou uma produção bastante lucrativa, se encaminhando para se tornar o filme de maior bilheteria da A24, superando “Tudo Em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo”, que teve US$ 191 arrecadados mundialmente. Diante disso, o anúncio de um segundo filme é apenas uma questão de tempo. Kane Parsons deu declarações de que não existe nada confirmado, mas já tem procurado roteiristas para ajuda-lo a desenvolver ideias para um novo longa-metragem sobre esse Não-Lugar.

Com uma mitologia rica e ampla criada por ele e tantos outras pessoas, história não falta. Inclusive gostaria de ver o The Howler, a criatura-palito gigante que aparece nos vídeos do YouTube de Kane Parsons.

Esse é um longa-metragem de terror que traz um sopro de novidade e originalidade, como foi com “A Bruxa” e “Hereditário”, por invocar a estranheza, a tensão e o desconforto até certo ponto, através de elementos do terror menos convencionais. Dessa forma, vale muito a pena assistir “Backrooms”, que entra forte na briga para melhor filme de terror de 2026!

Curiosidades: O Mito das Backrooms e o Surgimento do Terror de Espaços Liminares

As Backrooms surgiram em 2019, quando um usuário anônimo publicou no fórum 4chan uma foto de um corredor vazio, com carpete úmido e paredes amarelas, sob a luz de lâmpadas fluorescentes (que se tratava do interior de uma antiga loja de móveis em Wisconsin, nos EUA). Logo, várias pessoas começaram a postar imagens semelhantes, que parecessem inquietantes e estranhas. Até que um usuário descreveu esses locais da seguinte forma:

“Se você não tomar cuidado e fizer um noclip fora da realidade nas áreas erradas, vai acabar nas Backrooms, onde não há nada além do fedor de carpete velho e úmido, a loucura do amarelo monocromático, o ruído de fundo infinito de luzes fluorescentes no zumbido máximo e milhões de milhas quadradas de salas vazias segmentadas aleatoriamente para ficar preso. Deus te salve se você ouvir algo vagando por perto, porque com certeza ele te ouviu.”

À partir daí, os usuários foram criando um novo nível desse local, uma nova regra de sobrevivência; ou seja, uma história sem dono, escrita por milhares de pessoas, criando um novo mito na internet.

Em 2022, Kane Parsons (conhecido na internet como Kane Pixels) de 16 anos, publica “Backrooms” no YouTube: um vídeo de nove minutos que parece real (Found Footage) de alguém perdido nesse lugar. Com milhões de visualizações (até o momento são 83 milhões de pessoas), Kane Parsons lançou uma série de vídeos conectados intitulada “ASYNC”, expandindo sua história.

Entre 2022 e 2023, vídeos de várias pessoas sobre Backrooms proliferam pelo YouTube, e logo em seguida surgem no TikTok, Instagram entre outros. Nascia assim um novo subgênero: o do Terror de Espaços Liminares ou Liminal Space. Liminal deriva do latim limen (limiar), que significa o espaço ou momento entre o que foi e o que será.

Esses Não-Lugares (termo da Arquitetura para designar áreas criadas apenas para passagem e não para permanência) desse novo subgênero de terror tem como características:

  • O “vazio” desses lugares que causam estranheza por parecerem desalinhados com a realidade, já que eles são feitos para terem pessoas.
  • Os sons ocasionais que criam incerteza e dão a sensação de que não estamos sozinhos (e realmente não estamos nesses Não-Locais).
  • Dão margem para a mente humana preencher a quietude com pensamentos e lembranças (nem sempre bons) e que de alguma forma, são usados para expandir esses espaços liminares e povoá-los.
  • Trazem inquietude devido ao padrão quase sempre imutável desses locais, e desespero devido a infinitude e aparente falta de saídas dessa dimensão.

E dessa forma, como o mito do Slenderman, uma imagem postada por um desconhecido em 2019, tornou-se um dos fenômenos da internet, construído sem nenhum planejamento, de forma orgânica e viral, por milhares de pessoas.

Ficha Técnica:

Título Original: Backrooms

Título no Brasil: Backrooms: Um Não-Lugar

Gênero: Terror, Ficção Científica

Duração: 105 minutos

Diretor: Kane Parsons

Produção: James Wan, Michael Clear, Roberto Patino, Shawn Levy, Dan Cohen, Dan Levine, Osgood Perkins, Chris Ferguson, Peter Chernin, Jenno Topping, Kori Adelson

Roteiro: Will Soodik

Elenco: Chiwetel Ejiofor, Renate Reinsve, Mark Duplass, Finn Bennett, Lukita Maxwell, Avan Jogia, Robert Bobroczkyi, Krista Kosonen

Companhias Produtoras: North Road Films, 21 Laps Entertainment, Atomic Monster, Oddfellows Pictures, Phobos

Distribuição: A24

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Publicado por Marcelo Santos

Quase biólogo, formado em Administração. Maníaco desde criança por filmes e séries. Leitor assíduo de obras de ficção, terror, fantasia e policial.

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