SINOPSE: O prefeito Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio) aperta o cerco sobre Nova York, declarando o Demolidor (Charlie Cox) como inimigo público número um. Assim, Matt Murdock precisa equilibrar sua vida como advogado e vigilante enquanto Fisk consolida seu poder, levando a um confronto inevitável pelo futuro da cidade.
Como nas HQs, nenhum super-herói fica morto ou congelado para sempre no cinema, televisão e streaming. Em 2025, a Marvel Television trazia de volta o Demônio de Hell’s Kitchen, com “Demolidor: Renascido”, adaptando do arco dos quadrinhos “Prefeito Fisk”. A primeira temporada armou o embate entre o Homem Sem Medo e Wilson Fisk, onde o prêmio é o destino da cidade e dos cidadãos de Nova York.
Apesar dos responsáveis pela série e até mesmo Vicent D’Onofrio, que interpreta Wilson Fisk, terem dado declarações é fácil fazer a relação com a atual situação sócio-política atual dos Estados Unidos, principalmente como a trama é desenvolvida na segunda temporada de “Demolidor: Renascido”.
O autoritarismo do prefeito Fisk e a postura truculenta e agressiva da AVTF, desrespeitando os direitos civis mais básicos, como o de ir e vir e liberdade de expressão, fazem um paralelo direto com o presidente Donald Trump e o ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega. Se não foi proposital essa semelhança nas formas de agir da ICE e AVTF, então foi uma coincidência muito grande e de certa forma oportunista, pois acredito que deva ter atraído espectadores fora da esfera da narrativa do Demolidor.
Mas essa semelhança entre o braço policial contra imigração de Trump e a força policial de Wilson Fisk acontece também a uma mudança que precisou ser feita em relação ao arco dos quadrinhos que a segunda temporada de “Demolidor: Renascido” se baseia. Em “Prefeito Fisk”, o Rei do Crime cria os Thunderbolts, a força-tarefa oficial de Nova York designada para caçar os super-heróis vigilantes. Essa equipe recrutou vilões e anti-heróis como Treinador, Ossos Cruzados, Abominável, Doutor Octopus, Electro, Kraven e Agente Americano.
O problema é que a Marvel Studios adaptou em 2025 os “Thunderbolts*”, organizado por Valentina Allegra de Fontaine, diretora da CIA no MCU. E apesar da conexão com o filme da Marvel, na figura de Mr. Charles (Matthew Lillard), o grupo de anti-heróis se torna ao final do filme, nos Novos Vingadores, sancionados pelo Governo dos EUA.
Dessa forma, os Thunderbolts perderam seu papel de tropa assassina como visto no arco dos quadrinhos “Prefeito Fisk”. Além disso, existe uma orientação de que personagens de filmes de MCU não devem aparecer nas séries da Marvel. E essa orientação é tão certa que em “Demolidor: Renascido” não vemos outros super-heróis que residem em Nova York, como o Homem-Aranha, que aliás não é sequer citado, o que me causou estranhamento. Talvez, haja alguma explicação rápida em “Homem-Aranha: Um Novo Dia” para o que o Cabeça de Teia estava fazendo nesse período.
Com a ausência dos Thunderbolts e não podendo utilizar outros personagens, “Demolidor: Renascido” criou a AVFT para se tornar o exército sancionado por lei para cumprir a qualquer custo todas as ordens do prefeito Fisk. Porém, mesmo com as negativas dos criadores e responsáveis, acredito que houve um oportunismo em sincronizar a série com o cenário atual dos Estados Unidos.
Voltando à narrativa, fiquei com a impressão que enquanto o primeiro ano de “Demolidor Renascido” tem como foco Matt Murdock e seu conflito interno em voltar a ser o Demônio de Hell’s Kitchen, a segunda temporada de “Demolidor: Renascido” parece ser mais centrada na figura de Wilson Fisk, que tenta gerir seu cargo de prefeito de Nova York e seu império criminoso. Ao longo dos episódios, vemos o personagem utilizando as benesses que a prefeitura lhe concede para conduzir suas atividades ilícitas, sem empecilhos. Isso fica bem claro na utilização do porto que ele controla, e que ele tornou uma zona de livre comércio, para poder traficar armas para a CIA. A própria AVFT foi formada para inibir a ação do Demolidor e outros vigilantes que podem atrapalhar seus planos.
Porém, um evento nessa temporada faz a fachada de homem à serviço do povo ruir, fazendo Wilson Fisk se voltar de vez para seu lado mais negro. Desse ponto em diante, Matt Murdock passa a ter um dilema muito grande, pois talvez a única forma de parar Wilson Fisk seja matando-o, já que o prefeito de Nova York parece estar fora do alcance da redenção.
Mas além de Wilson Fisk, o Matt Murdock precisa lidar com outro adversário, que está à solta e mais perigoso do que nunca: Benjamin Poindexter (Wilson Bethel), o Mercenário, que tenta reparar a morte de Foggy Nelson (Elden Henson) pelas suas mãos, e assim equilibrar o universo. Seu alvo é Vanessa Fisk (Ayelet Zurer) e é essa cruzada quase sagrada que vai repercutir no destino tanto do Demolidor quanto do prefeito Fisk.
A segunda temporada de “Demolidor: Renascido” traz um bom desenvolvimento de personagens além de Matt Murdock e Wilson Fisk. Além de Benjamim Poindexter, Daniel Blake (Michael Gandolfini) ganhou bastante destaque e possui um arco narrativo bastante interessante, mostrando sua ascensão dentro da prefeitura e no círculo de confiança de Wilson Fisk, mas quando lhe é revelado que BB Urich (Genneya Walton) está vazando informações confidenciais para Karen Paige (Deborah Ann Woll), ele precisa tomar um difícil decisão: entregá-la para Buck (Arty Froushan), braço-direito e assassino de Fisk ou sofrer as consequências em proteger sua amiga e interesse amoroso.
Vanessa Fisk merece ser mencionada também, pois a relevância da personagem se mantém na temporada atual de “Demolidor: Renascido”. Agora, a esposa e aliada de Wilson Fisk o ajuda nos negócios, servindo como a pessoa com bom-senso e traquejo para abrir as portas e romper a resistência que outras pessoas têm em relação ao modo truculento e impassível que seu marido tem ao lidar com situações.
Mas se a parceira de Wilson Fisk continua interessante, Karen Paige frustrou um pouco em sua participação na segunda temporada. A personagem também vive seu conflito interno, pois ao mesmo tempo que precisa apoiar Matt Murdock, fica frustrada e enfurecida com o homem que ama, uma vez que ele não está disposto a cruzar a sua linha moral, que significa matar Poindexter, por ter matado Foggy Nelson; e tirar a vida do prefeito, que acredita ser a única forma de pará-lo. Porém, por não ter me passado a sensação de veracidade, essas intenções e sentimentos dela me pareceram um pouco superficiais.
Com relação à ação, a segunda temporada de “Demolidor: Renascido” é mais explosiva que o ano anterior, com sua abertura já mandando o recado, ao mostrar o Demolidor invadindo um navio cheio de armas ilegais. E como em todas as temporadas da série, sejam elas da época da Netflix quanto agora sob a tutela da Marvel Television, temos uma sequência insana mostrando que o Demônio de Hell’s Kitchen é boladão demais.
Porém, essa porradaria que acontece no terceiro episódio da segunda temporada não é um plano-sequência como na temporada passada ou quando a série era produzida pela Netflix, mas filmada para parecer uma sequência única e sem cortes. Abaixo você pode ver o making of, mostrando a complexidade em fazer a cena e como ela ficou.
E finalmente “Demolidor: Renascido” entrega aquilo que todos queriam ver: Demolidor vs. Rei do Crime, na trocação sincera. São pouco mais de dois minutos empolgantes de uma porradaria onde vemos toda a força bruta e fúria de Wilson Fisk contra todas a habilidades aprimoradas e treinamento do Demônio de Hell’s Kitchen. Momento esse que já ficou gravado como um dos combates mais legais e icônicos da história da Marvel Television e do MCU.
Mas então finalmente chegamos no auge da segunda temporada de “Demolidor: Renascido”, com a porradaria visceral e brutal entre Demolidor e Rei do Crime? A resposta é não, pois a segunda temporada deixou o melhor para o último episódio.
Atenção: sugiro pular essa parte da resenha para o fim do alerta caso não queira receber spoilers do final da temporada.
O último episódio da segunda temporada mostra o julgamento de Karen Paige, presa e acusada de infringir a lei anti-vigilante vigente. Por mais que não haja o contato físico brutal da luta que ocorreu entre eles, o embate final entre Matt Murdock e Wilson Fisk é muito mais impactante. Em uma troca áspera de ideias e argumentos, Murdock faz uma revelação que choca a todos no tribunal e nada cidade de Nova York como forma de revelar que o Fisk é o verdadeiro criminoso.
Houve muitas comparações com a revelação de Tony Stark no primeiro “Homem de Ferro”, mas para mim, o que acontece nesse episódio de “Demolidor: Renascido” é muito mais poderoso e impactante, pois percebe-se que não foi algo impulsivo, mas planejado por Matt Murdock.
Após esse evento, a cidade se volta contra Wilson Fisk, que finalmente revela toda sua força e sede assassina contra os cidadãos de Nova York que foram até o tribunal para linchá-lo. O desfecho é anticlímax para muitos que esperavam ver a justiça branco no preto sendo feito. Mas o que ocorre é algo bem mais cinza, mostrando Fisk renunciando ao cargo de prefeito e se exilando em uma praia paradisíaca, enquanto Matt Murdock é preso por agir como Demolidor.
Pode seguir daqui, pois os spoilers acabaram.
Muito se especula que a terceira temporada adapte de certa forma o arco dos quadrinhos “Os Tentáculos do Demônio”, com o Demolidor assumindo o controle da seita ninja e a usa como força de justiça em Nova York (a presença do que parecem ser integrantes desse grupo em “Homem-Aranha: Um Novo Dia” reforçaram essa ideia). Seria um ótimo ponto de virada, pois mostraria Matt Murdock fazendo praticamente o que Wilson Fisk fez quando prefeito.
A primeira temporada de “Demolidor: Renascido”, teve bons momentos, mas me pareceu ficar no “quase”. A segunda temporada ousou e acertou, trazendo uma trama amarrada e que foi evoluindo os personagens até o ponto de ruptura, fazendo-os revelar suas verdadeiras naturezas, das quais são impossíveis de fugir.
Sem rodeios dessa vez, digo que vale muito a pena assistir a segunda temporada de “Demolidor: Renascido”, pois ela é incrível, merecendo muito o título do meme “Absolute Cinema”.
Ficha Técnica:
Título Original: Daredevil: Born Again
Título no Brasil: Demolidor: Renascido
Gênero: Super-Herói
Temporadas: 2ª
Episódios: 9
Criadores: Dario Scardapane, Christopher Ord, Matthew Corman
Produtores: Rudd Simmons, Kevin Feige, Louis D’Esposito, Brad Winderbaum, Sana Amanat, Chris Gary, Dario Scardapane, Chris Ord, Matt Corman, Justin Benson, Aaron Moorhea
Diretores: Aaron Moorhead, Justin Benson, Justin Benson, Solvan “Slick” Naim, Angela Barnes, Iain B. MacDonald
Roteiro: Dario Scardapane, Heather Bellson, Chantelle M. Wells, Jesse Wigutow, Devon Kliger
Elenco: Charlie Cox, Vincent D’Onofrio, Margarita Levieva, Deborah Ann Woll, Margarita Levieva, Matthew Lillard, Matthew Lillard, Tony Dalton, Michael Gandolfini, Nikki M. James, Arty Froushan, Genneya Walton, Zabryna Guevara, Clark, Johnson, Ayelet Zurer, Wilson Bethel, Lili Taylor, Elden Henson, Toby Leonard Moore, Krysten Ritter, Mike Colter
Companhias Produtoras: Marvel Television
Transmissão: Disney+
