SINOPSE: Isaac Clarke é um engenheiro com a missão para fazer reparos na USG Ishimura, espaçonave da classe Planet Cracker, mas descobre que tem algo terrivelmente errado com o lugar. A tripulação foi massacrada e Nicole, a amada companheira de Isaac, está perdida em algum ponto da nave. Sozinho e armado apenas com suas ferramentas de engenheiro, Isaac corre para desvendar o segredo assustador do que aconteceu a bordo da Ishimura na esperança de encontrar Nicole. Preso com criaturas hostis chamadas Necromorfos, Isaac enfrenta uma batalha pela sobrevivência, não apenas contra os terrores cada vez piores da nave, mas também pela sua própria sanidade.
Como no cinema, os jogos eletrônicos possuem vários gêneros e um dos mais populares é o survival horror. Em poucas palavras, o survival horror tem como objetivo fazer o jogador se sentir acuado e com medo; para isso o foco é na sobrevivência, onde a exploração, quebra-cabeças e principalmente, a escassez de recursos e a vulnerabilidade forçam o protagonista a evitar o combate direto, o obrigando a fugir ou esconder-se.
“Sweet Home” lançado em 1989 para o console Famicon foi o primeiro game do gênero, mas “Alone In The Dark” de 1992 é considerado o pai do survival horror. Em 1996, “Resident Evil” popularizou e consolidou o estilo no mundo do games.
Com o sucesso, o survival horror foi explorado à exaustão, onde franquias de sucesso foram criadas, como “Silent Hill”, com o segundo título considerado o melhor game do gênero. Porém, no início dos anos 2000, o survival horror passou a viver um vazio existencial, com franquias consagradas voltando-se para a ação, como foi o caso de “Resident Evil” ou não conseguindo manter a qualidade dos jogos, que foi o que aconteceu com “Silent Hill”. Além disso, a saturação de games com esse estilo, causou o desinteresse dos gamers, muito devido a qualidade duvidosa do que estava disponível.
Se mais recentemente vivemos um boom de jogos eletrônicos de survival horror que tem causado a alegria e os ataques cardíacos dos gamers, foi porque em 2008, “Dead Space”, desenvolvido pela Visceral Games e publicado Eletronic Arts (EA), salvou esse gênero do ostracismo. O título foi um sucesso, vendendo na época, 1,4 milhão de unidades no primeiro ano após seu lançamento e ultrapassando a marca de 2 milhões de cópias.
Três anos depois, em 2011, chegava “Dead Space 2”, considerado por muitos o melhor game da franquia, vendendo 4 milhões de cópias; e apesar de ser o título mais vendido da série, a EA o considerou um fracasso financeiro, devido aos US$ 120 milhões gastos na sua produção e marketing. Então, a Eletronic Arts decidiu adotar uma jogabilidade mais voltada para a ação para aumentar o público em “Dead Space 3”, lançado em 2013, acrescentando inclusive a possibilidade de jogar cooperativamente. Porém, essa mudança desagradou os fãs da franquia e não trouxe tantos novos jogadores, culminando no congelamento da franquia.
Mas para a alegria dos fãs de “Dead Space” e de gamers de survivor horror, em 2021 a Eletronic Arts, anunciou que o jogo eletrônico lançado em 2008 ganharia um remake desenvolvido pela Motive Studios. E em 27 de janeiro de 2023, “Dead Space Remake” chegava para o PS5 e posteriormente Xbox Series X/S e PCs.
Na resenha especial de hoje falarei um pouco sobre a história de “Dead Space Remake”, que é bem mais complexa do que parece, e os recursos técnicos que fazem desse game uma dos mais instigantes, aterrorizantes e legais da atualidade.
Posso começar essa resenha dizendo que para os fãs filmes que misturam terror e ficção científica, “Dead Space Remake” é ideal e essencial. As semelhanças entre a Nostromo, de “Alien: O Oitavo Passageio”, e a Ishimura revelam a forte influência que o primeiro filme da franquia do xenomorfo teve no game: as duas são espaçonaves gigantescas isoladas no espaço que buscam insumos em outros planetas e ambas oferecem salas apertadas, corredores estreitos, com pouca ou nenhuma iluminação. Essa estrutura de huis clos ou horror em ambiente fechado criam uma atmosfera claustrofóbica intensa.
A destruição em que se encontra a Ishimura e a infestação encontrada nela lembra muito o que os fuzileiros navais coloniais encontram e enfrentam na colônia no planeta LV-426, em “Aliens: O Resgate”. Já os necromorfos foram inspirados fortemente no alienígena presente em “O Enigma do Outro Mundo”, devido a transformação corporal que os humanos infectados sofrem.
O próprio Isaac Clarke, protagonista de “Dead Space Remake”, tem semelhanças com Ellen Ripley da franquia “Alien” ou R.J. MacReady de “Enigma de Outro Mundo”: pessoas que não são combatentes ou militares, que precisam sobreviver e resolver uma situação completamente atípica com suas habilidades e mentalidades práticas.
Esse é um ponto interessante, pois Isaac Clarke não tem treinamento e o preparo para combate como por exemplo, Leon S. Kennedy, precisando usar sua inteligência e habilidades para sobreviver à uma horda de criaturas desconhecidas que não morrem facilmente e à própria Ishimura, que se encontra em estado terminal. O que quero dizer, é que o protagonista de “Dead Space Remake” está mais próximo de pessoas como você eu, do que o herói que trata seus cabelos com Elseve da L’Oreal de “Resident Evil”.
Então, chegou a hora de falar da infestação que tomou conta e destruiu a espaçonave Ishimura. Os necromorfos são diferentes dos monstros e criaturas de outros games de survival horror. Não basta apenas atirar na cabeça como os zumbis de “Resident Evil”, pois os necromorfos muito provavelmente continuarão vindo para cima de você. A única forma eficiente de eliminá-los é desmembrá-los, despedacá-los, algo parecido com o que se faz com os deadites de “Evil Dead”.
Essa forma de eliminar os necromorfos acrescenta uma camada de difículdade ao jogo eletrônico, e a questão dos recursos serem limitados confere tensão aos combates porque você pode se ver sem munição muito rapidamente, já que serão necessários não um, mas alguns tiros. E o enfrentamento mano a mano? Não é aconselhável, porque mesmo que você ganhe, muito provavelmente terá perdido vida, o que pode ser complicado de reestabelecer devido a escassez de itens em “Dead Space Remake”.
Dead Space Remake” combina muito bem o horror, com suas criaturas medonhas e repugnantes; e o terror, com a incerteza, a tensão crescente e o frio na espinha antes de o perigo aparecer. E essa antecipação, essa sensação de pavor e ansiedade antes de algo ruim acontecer supera muitos outros games de survivor horror existentes. E nessa questão, dois aspectos técnicos são primordiais para a criação dessa atmosfera de suspense e tensão do jogo eletrônico: a iluminação e o som.
“Dead Space Remake” utiliza a Unreal Engine 5, desenvolvido pela Epic Games, que permite melhores gráficos, tornando o que vemos mais realista e detalhado. Duas características desse motor gráfico de última geração precisam ser destacadas: o Lúmen e o mapa de sombras virtuais. Explicando resumidamente: o Lúmen é um sistema dinâmico de iluminação e reflexos globais com traçado de raios que pode reagir em tempo real a mudanças na cena e na iluminação, eliminando a necessidade de esquemas pré-computados; e o mapa de sombras virtuais é um novo método de mapeamento de sombras usados para fornecer sombreamento consistente e de alta resolução que funciona com ativos de qualidade cinematográfica e grandes mundos abertos com iluminação dinâmica.
O resultado da Unreal Engine 5 em “Dead Space Remake” é um game que traz luz e sombras com uma resolução e realismo impressionante, sendo gerados em tempo real, fornecendo assim a parte visual tensa e claustrofóbica que vemos na quase totalidade do game.
O design de áudio de “Dead Space” é um espetáculo à parte e tão imprescindível quanto a parte visual. Através da utilização da técnica de som binaural (ilusão auditiva que induz estados mentais) e áudio 3D, a imersão do jogador é extrema ao criar uma atmosfera sonora tensa. Enquanto andamos pelos corredores da Ishimura, além dos ruídos da própria espaçonave, ouvimos os gritos dos necromorfos através das paredes e tetos, uns muito longe e outros muito perto. Além disso, à medida que avançamos na gameplay passamos a escutar os sussurros perturbadores do Marcador. “Dead Space Remake” também usa o sistema Alive, que faz com que a respiração e as falas de Isaac Clarke mudem de acordo com seu estado físico e emocional. A trilha sonora muitas vezes intrusiva é a cereja do bolo desse design de áudio absurdo.
Trama de “Dead Space Remake”
No século XXVI, a humanidade desbrava a galáxia em busca de recursos. A USG Ishimura, mineradora da classe Planet Cracker (Destruidora de Planetas). Porém por razões desconhecidas, a CEC, corporação proprietária da espaçonave, perdeu contato com ela. Então eles mandam Isaac Clarke, engenheiro de naves espaciais; Kendra Daniels, especialista em sistemas de computador; Zach Hammond, chefe de segurança da CEC, e os cabos Aiden Chen e Hailey Johnston para investigar as razões desse apagão e realizar possíveis reparos na Ishimura.
Porém quando chegam à Ishimura, que está orbitando o planeta Aegis VII, encontram a espaçonave muito avariada. Quando Isaac tenta reestabelecer os sistemas, são atacados por criaturas grotescas, precisando fugir e se separando dos demais, em uma sequência bastante tensa. Para piorar a situação esses monstros atacam a nave que trouxe Isaac e sua tripulação, a destruindo. Agora precisam correr contra o tempo e impedir que a Ishimura caia no planeta abaixo, enquanto tentam achar um modo de fugir desse pesadelo.
Enquanto Isaac explora e repara a Ishimura, Kendra descobre que ela abrigava um Marcador Vermelho. Esse artefato misterioso encontrado em Aegis VII emite um sinal eletromagnético que causa paranoia e alucinações nos colonos do planeta e na tripulação de espaçonave, levando a assassinatos. Assim que as pessoas morriam, o sinal eletromagnético emitido pelo Marcador alterou o DNA das células mortas, reanimando os cadáveres e transformando-os em necromorfos.
Enquanto Isaac Clarke e sua tripulação, agora atormentados por alucinações induzidas pelo Marcador, lutam para sobreviver em meio à infestação de necromorfos, nosso protagonista é jogado em uma conspiração envolvendo o Governo da Terra e integrantes da Igreja da Unitologia, que acredita que o Marcador vai realizar a Convergência, evento que trará a imortalidade para a humanidade e a unirá com Deus. Então eles encontram Mercer, cientista da Ishimura e um unitologiata fervoroso, que quer levar o Marcador Vermelho para a Terra e causar a Convergência, que transformará efetivamente toda a população do planeta em necromorfos, alcançando assim a imortalidade e a Unidade com Deus.
Nas investigações pela Ishimura, Isaac encontra Nicole, sua esposa e médica-chefe da espaçonave, com quem não falava há meses, incólume mas agindo de forma estranha, para ajudá-lo. Ele também se depara com o Dr. Terrence Kyne, atormentado pela culpa de ter trazido o Marcador Vermelho para a Ishimura, explica que o artefato precisa ser devolvido a Aegis VII, pois ele anulará a Mente Coletiva, uma espécie de rainha dos necromorfos, matando as criaturas na espaçonave e no planeta.
Convencido pelo Dr. Kyne, Isaac tem seu confronto final com Mercer e seu Caçador, um necromorfo que se regenera quase que instantâneamente e que te persegue por boa parte do game. O nosso protagonista carrega o Marcador Vermelho em uma nave, mas Kendra assassina Kyne e escapa sozinha, revelando ser uma agente secreta enviada para recuperar o artefato. Ela explica que o Marcador Vermelho foi criado por humanos através de engenharia reversa à partir do Marcador Negro, de origem alienígena, que caiu na Terra junto com o meteoro que extinguiu os dinossauros há 65 milhões de anos. O Marcador Vermelho foi enterrado em Aegis VII quando se provou muito perigoso para controlar, mas a Ishimura revelou sua presença, resultando no envio de Kendra para apagar a descoberta. Isaac e Nicole chamam a nave remotamente e a usam para voar até a superfície de Aegis VII, embora Kendra escape em uma cápsula de fuga.
Isaac e Nicole conseguem devolver o Marcador ao planeta, mas Kendra o rouba de volta e revela que a esposa do nosso protagonista estava morta o tempo todo e se suicidou para evitar se tornar uma necromorfa. A “Nicole” com quem Isaac estava trabalhando é, na verdade, uma cientista que alucinou achando que Isaac fosse seu marido. O Marcador Vermelho os manipulou para devolvê-lo à Mente Coletiva, que comanda os outros necromorfos telepaticamente, e inicia a Convergência.
Kendra tenta fugir, mas é morta pela Mente Coletiva. Isaac luta e mata o necromorfo gigantesco. Ele foge momentos antes de um pedaço do planeta que a Ishimura carregava cai e destrói o Marcador Vermelho junto com parte de Aegis VII.
“Dead Space Remake” possui dois finais, onde em um deles encontramos Isaac na nave que usou para fugir de Aegis VII, toda coberta pelos símbolos existentes no Marcador Vermelho, conversando com “Nicole”. Durante essa conversa, Isaac diz que vai construir algo para ela.
É esse final que nos interessa para entendermos os eventos que acontecem em “Dead Space 2”.
Sequências e Possibilidade de Adaptação
“Dead Space Remake” foi aclamado pela crítica e abraçado calorosamente pelos gamers. A reimaginação do jogo eletrônico de 2008 tem ótimas notas no Metacritic (87/100 para PC, 89/100 para PS5 e 90/100 para XSXS) e muito elogiado por veículos da mídia especializada. O jogo eletrônico vendeu cerca de 2 milhões de unidades em pouco mais de um ano.
Apesar disso, a Eletronics Arts tinha altas expectativas de vendas para “Dead Space Remake”, algo em torno de 4 a 5 milhões de unidades, o que fez a publicadora ser colocada na geladeira por tempo indeterminado. Dessa forma a Motive Studios engavetou o remake de “Dead Space 2”, o que é uma pena pois gostaria de ver a continuidade dessa história na Unreal Engine 5 e com o espetacular design de som atual.
Com relação à uma possível adaptação, circulararam informações ano passado que a Warner tinha interesse em fazer um filme com James Wan na direção e Jason Momoa interpretando Isaac Clarke. Mas devido à decepção da EA em relação as vendas do remake de “Dead Space”, acredito que se trata mais de rumores.
Mas na época do lançamento dos games originais foram lançados animes (“Dead Space: Downfall” e “Dead Space: Aftermarth), HQs (“Dead Space” e “Dead Space: Extraction”) e livros (“Dead Space: Martyr”, “Dead Space: Catalyst”) que expandem a história dos jogos lançados entre 2008 e 2012.
Veredicto
“Dead Space Remake” pegou todas as ideias presentes no game original e as aprimorou, tanto tecnicamente como narrativa mente. Andar pelas instalações labirinticas da Ishimura já era assustadora, mas esse upgrade que a Motive Studios deu com o uso da Unreal Engine 5 e o design de som tornou a experiência ainda mais imersiva, onde a tensão e o medo não são sentimentos somente de Isaac Clarke, mas do jogador também.
A narrativa do game continua muito instigante e com camadas, pois não é somente sobre matar criaturas que surgem de cadáveres, possuindo uma conspiração governamental e religião. Além disso, os Marcadores são sencientes e a infestação de necromorfos foi planejada, e fazem parte de um plano maior.
Mas essas conjecturas vão ficar para a nossa próxima resenha, por isso peço que continue nos acompanhando nessa jornada. Por enquanto, digo que se você gosta de jogar em videogames ou computadores e é fã de games survival horror, a experiência de jogar “Dead Space Remake” valerá muito a pena!
Ficha Técnica:
Título Original: Dead Space Remake
Título no Brasil: Dead Space Remake
Gênero: Survivor Horror, Ficção Científica
Desenvolvedora: Motive Studios
Publicadora: Electronic Arts
Diretores: Roman Campos-Oriola, Eric Baptizat
Produtores: Philippe Ducharme
Diretor de Arte : Mike Yazijian
Plataforma: PC, Playstation 5, Xbox Series X/S
